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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

23
Nov17

Estou sim, bom dia, daqui fala a mãe, em que posso ajudar?

Susana

Os filhos são muito parecidos com os clientes. Pensam que têm sempre razão e, quando os argumentos falham, fazem birras. Em desespero, usei com os meus filhos as técnicas de atendimento ao cliente que aprendi quando trabalhei num call-center. Continuou sem resultar, mas eu diverti-me. Deixo-vos alguns exemplos:

 

Autoridade

 - Lamentamos que as regras de adesão ao serviço Os Pais É Que Mandam não lhe tenham sido devidamente explicadas, mas podemos garantir que os beneficios associados ser-lhe-ão úteis a longo prazo.

 

 - Compreendemos o seu desagrado, mas o contrato que mantém com a empresa Pai & Mãe, Lda. tem a vigência mínima de 18 anos, durante os quais as condições do mesmo poderão ser alteradas sem aviso prévio. Caso pretenda, poderá encaminhar o seu pedido de esclarecimentos para o endereço de e-mail: naoqueremossaber@quemmandaaquisomosnos.pt.

 

Refeições

 - O que me está a indicar é que não vai comer os brócolos até que eu a obrigue, entendi bem?

 

 - Peço-lhe que não fale com a boca cheia, não consigo entender o que me está a indicar.

 

Hora do Banho

 - Infelizmente a campanha “Não tomar banho” encontra-se descontinuada, no entanto temos em vigor a campanha de última hora “Vai tomar banho já antes que eu te arraste por um braço”.

 

 - Compreendemos a sua insatisfação por ter de deixar de ver televisão para ir tomar banho, mas o nosso serviço não disponibiliza o jantar enquanto o banho não for tomado.

 

Dormir

 - Neste momento são 21 horas e não é possível aderir ao pacote “Não dormir e dar cabo da cabeça aos meus pais”. Pode, no entanto, escolher a opção “Adormecer com o pai em 5 minutos” ou, em alternativa, “Adormecer com a mãe em 3 horas e 15 minutos”.

 

 - Lamento informar que já esgotou o plafond de histórias, a partir deste momento as luzes serão apagadas e agradeço que durma uma noite descansada.

 

Birras

 - A Senhora M. é uma cliente muito importante da nossa empresa e temos como objetivo manter a sua satisfação. Garantimos que faremos o que estiver ao nosso alcance para ultrapassar os constrangimentos relacionados com o processo negocial em curso.

 

- Compreendo que esteja insatisfeito, mas os seus gritos impedem-me de perceber a totalidade dos seus argumentos.

 

Vestir

 - Peço-lhe que aguarde um momento, voltaremos a esta discussão sobre que sandálias vai levar para a escola dentro de 5 minutos.

 

 - Agradecemos desde já que tenha sujado pela terceira vez a camisola que tinha vestida, nada nos deixa mais satisfeitos que ter de lhe mudar a roupa quando estamos com pressa para sair de casa.

 

Os porquês

 - Trabalhamos constantemente para dar resposta aos seus porquês e procuramos melhorar os tempos de espera. Contamos desenvolver a capacidade de resposta a trinta porquês por minuto dentro de duas a três semanas.

 

 -  Terei de encaminhar a sua questão para o departamento técnico e dar-lhe-ei uma resposta ao seu porquê o mais breve possível.

 

 Doenças

 - Eu também preferia não ter de aspirar os macacos do seu nariz, mas se o deixar ir para a escola com o nariz cheio de ranho corro o risco de chamarem a Segurança Social.

 

- Agredecemos o seu empenho em vomitar na sanita e não no chão, para mostrar o nosso apreço, vamos oferecer-lhe uma Barbie. Esteja atenta à caixa do correio.

 

 Irmãos

 - Solicitamos que não puxe os cabelos do seu irmão, as penalidades por incumprimento desta claúsula incluem não ver televisão durantes dois dias.

 

- O periodo de garantia do boneco da sua irmã já foi ultrapassado, se lhe arrancar a cabeça o mesmo não será substituído.

 

 

As possibilidades são infinitas, tal como as birras. Os resultados, esses, são quase sempre os mesmos: uma enorme dor de cabeça.

 

20
Nov17

Dez coisas que eu gostava de dizer às grávidas

Susana

1- Esqueçam a porra da culpa, isto já é difícil o suficiente para ainda acrescentarem esse material explosivo.

 

2 - Sempre que alguém vos der uma opinião sem a terem pedido mandem essa pessoa à merda, se não for possível sorriam e mandem essa pessoa à merda na vossa cabeça; 

 

3 - Durmam muito enquanto conseguirem. Ou não durmam, para se irem habituando, o que sei eu? Só não durmo bem há mais de dois anos.

 

4 - Fujam de grupos de mães do Facebook, depois não digam que não vos avisei, quando vos apetecer matar todas as mães que sabem melhor que vocês como educar os vossos filhos.

 

5 - Não comprem muita roupa para os miúdos, eles crescem a um ritmo alucinante, comprem para vocês, vão sentir falta disso.

 

6 - Obriguem-se a uma escapadela com o vosso marido sempre que possível, acreditem que vão ter saudades do homem que dorme todas as noites ao vosso lado.

 

7 - Não se deixem apanhar pelas fundamentalistas da amamentação. As mamas são vossas, vocês é que decidem se amamentam ou não.

 

8 - Não existe parentalidade negativa em oposição à parentalidade positiva, fazemos sempre o melhor que conseguimos com as condições que temos, que ninguém vos diga o contrário.

 

9 - Digam muitas vezes que se foda, poucas coisas que nos rebentam os nervos são assim tão importantes.

 

10 - Pensem em vocês, existam para além dos filhos, eles não precisam de uma super mãe, precisam de uma mãe feliz, amada, realizada e com o sono em dia. A vida não começa, nem acaba nos filhos.

 

11 - Afinal são onze, esta é de borla. A mãe que idealizaram vai ter um choque frontal com a realidade, os miúdos vão fazer birras demoníacas e são teimosos como o raio, vocês vão gritar, vão perder a paciência e não vão ser más mães por isso.

 

12 - Mais uma, a licença de maternidade não é esse tempo magnífico para descansar e babar por esse ser magnífico que temos em casa. Em vez disso, vão passar o dia a dar de mamar e a mudar fraldas, a desejar que a cria adormeça para irem estender roupa e que acorde para poderem aspirar o chão, vão lavar os dentes a meio da tarde e tomar banho só quando o pai chegar a casa. 

 

Digam que se foda muitas vezes e vai correr tudo bem.

17
Nov17

Eu só só uma mãe normal

Susana

Hoje dei por mim a pensar porque raio criei o blog, quando muitas vezes não o consigo manter como imaginei. Imaginei-me a ser obrigada a escrever mais do que escrevia, a ter uma rotina e a ser disciplinada. Era impossível ter sido mais ingénua que isto.

 

Na outra noite tinha um texto para escrever, parte dele estava escrito na cabeça, tinha umas notas soltas no telemóvel, mas precisava de um pouco de silêncio, (esse luxo quando somos pais) e de me sentar com o portátil à frente. O meu marido e os miúdos foram buscar-me aos barcos, como sempre e no carro a minha filha já antecipava uma puta de uma birra capaz de fazer cair o céu. Cheguei a casa, acabei de separar umas roupas, sai de casa, fui dar a roupa, voltei a casa e reparei que não havia fraldas para o mais novo, (garanto que o miúdo vai casar de fraldas, mas que se foda), voltei a sair para comprar fraldas, voltei a casa e a puta da birra da minha filha já tinha feito estremecer o prédio.

 

Ela estava exausta, cheia de sono e queria ser a primeira a adormecer. Eu explico. Temos um acordo, eu e ela. Eu adormeço o mais novo desde sempre, o raio do miúdo acha que quando o pai o vai adormecer é para brincar e a coisa corre mal, porque o menino do papá é um menino da mamã na hora de dormir. Adiante, para compensar quem adormecia todos os dias a minha filha era o pai, mas há uns tempos deu-lhe uma crise de ciúmes tal que me obrigou, contra todos os meus princípios, a uma negociação, ou seja, noite sim noite não, eu adormeço os dois. Adormeço primeiro o mais novo porque regra geral é mais rápido e a seguir vou adormecê-la, mas naquela noite ela queria ser a primeira, porque nunca é a primeira e o mundo é injusto para as irmãs mais velhas cansadas e cheias de sono. Bom, peguei nos dois, levei-os para a minha cama e adormeci-os ao mesmo tempo. Acho eu, porque eu adormeci também.

Acordei às onze da noite, fui deitá-los nas camas deles, jantei uma taça de cereais, olhei para o portátil em cima da mesa, ignorei-o e adormeci no sofá onde o meu marido já dormia.

 

O texto ficou por escrever, ficou a massacrar-me a cabeça juntamente com os outros que ainda não escrevi. Os textos por escrever vão-se acumulando até que consiga a disponibilidade mental e o silêncio para os escrever e isso às vezes enerva-me, mas também tudo me enerva, desde as birras dos meus filhos, à máquina de secar roupa que decidiu avariar, à porra do metro que está sempre com perturbações, às pessoas no geral.

 

Mas e este é um grande mas, depois percebo que o raio do blog é isto, o blog é feito por uma mãe normal, tão normal que não faz vídeos a abrir presentes, uma mãe suburbana, nem sempre fotografável, com dois filhos que lhe sugam a maior parte da energia, uma mãe que tem sempre sono e que desespera tantas vezes por um pouco de silêncio e um copo de gin.

 

Por isso o blog é isto mesmo, tal e qual como não imaginei, os textos que escrevi e os textos que gostaria de já ter escrito. 

10
Nov17

Estudo sobre a Parentalidade na Adversidade

Susana

A  Ana Tavares é investigadora da Faculdade de Psicologia estando atualmente a realizar o Doutoramento Inter-Universitário em Psicologia Clínica, Especialidade de Psicologia da Família e Intervenções Familiares desenvolvido pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e contactou-me com um pedido sobre um assunto que me diz muito, a Alienação Parental.

 

O pedido era simples, ajudar a divulgar um estudo para recolher informação que possa, futuramente, contribuir para uma melhoria da intervenção junto das famílias. 

 

Abaixo um texto explicativo e o link para o estudo. Caso tenham interesse participem ou se conhecerem alguém que possa dar o seu contributo, não hesitem em partilhar.

 

Quem pode participar?

  • Pessoas com filhos com idades compreendidas entre os 3 e os 18 anos,
  • Pessoas que se identificam com a seguinte situação: “O outro progenitor realiza ações para me distanciar do meu filho (ou filhos)”. Esta distância pode ser física e /ou psicológica. Esta situação é comummente conhecida como alienação parental.

 

A Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa está atualmente a realizar um estudo com a finalidade de caracterizar e compreender a vivência da parentalidade em pais que se identifiquem como estando atualmente a experienciar uma situação de alienação parental. Pretendemos com esta investigação recolher informação que possa, futuramente, contribuir para uma melhoria da intervenção junto das famílias. 

 

Sabemos à partida que pais que não vivem a parentalidade em pleno podem ver o seu bem-estar comprometido, o que afeta não só o relacionamento com os filhos como também o seu quotidiano.

 

Deste modo, caso se identifique com esta situação pedimos a sua colaboração no presente estudo, que está a ser realizado via online. Todos os dados serão confidenciais e, em qualquer momento e por qualquer motivo pode negar responder a qualquer pergunta e/ou desistir de colaborar sem qualquer prejuízo.

 

Caso pretenda colaborar ou conhecer mais informação cliquem no seguinte link: Participação em estudo sobre alienação parental

09
Nov17

Filhos, cresçam devagarinho!

Susana
Quando o Tiago nasceu, a Mariana tinha dois anos e dois meses.
 

Tem sido uma loucura ser mãe de dois filhos pequenos e com uma diferença de idades tão pequena. Há dias em que só o piloto automático me salva e em que basta só mais uma birra para começar a bater com a cabeça na parede, mas apesar do cansaço, do sono, da vontade constante de me atirar para o chão e por trás de uma mãe que às vezes é uma besta, existe um coração que ainda por cima é mole e no outro dia dei por mim de lágrimas nos olhos a ver os meus filhos a brincar um com o outro.

 

Ela do alto dos seus quatro anos dizia ao irmão ao que iam brincar e ele nos seus bem-dispostos dois anos respondia que sim. Ele era o médico, sentado na secretária pequenina, com o portátil do Ruca que nunca funcionou e ela era uma mãe que levava o seu bebé ao hospital. Ela dizia-lhe os sintomas, enquanto ele fingia que escrevia no portátil, depois examinou a bebé e no fim da consulta rabiscou um papel com a receita.

 

- Mano, agora sou eu a médica!

 

Estou a vê-los a brincar e de repente apercebo-me que já não são bebés.Como é que isto aconteceu? Os meus filhos cresceram e eu receio não ter reparado.  Este ano foi particularmente difícil, viroses a dobrar, fucking four em força, mudança de escola, birras e crises existenciais, noites sem dormir, eu a pedir socorro a toda a hora, mas o tempo não teve piedade de mim e os meus filhos cresceram.

 

E este sabor doce de os ver crescer, mistura-se com o sabor amargo de os ver crescer. De saber que um dia vou ter saudades do que hoje me enche de cansaço. Que a minha filha um dia já não vai fazer birras porque quer que seja sempre eu a adormecê-la ou que o meu filho já não vai acordar a meio da noite para vir para a nossa cama. Mistura-se o alívio de os ver crescer, com a tristeza de os ver sair devagarinho debaixo da minha asa até ao dia em que vão sair do ninho e voar.

 

Eu sei que estou a ser dramática, o meu filho ainda usa fraldas e a minha filha ainda precisa de ajuda para limpar o rabo, eles não vão já para a faculdade, nem me estão a pedir as chaves do carro para irem sair à noite, mas o tempo não tem piedade das mães e os filhos crescem sem darmos por isso.

 

Os meus filhos estão a crescer, juntos, ao ritmo das brincadeiras que me fazem chorar.

 

Cresçam devagarinho meus amores.

 

Texto em parceria com a Up to Kids.

13
Out17

Quando somos mães deixamos de ser donas da nossa vida.

Susana

Quando somos mães deixamos de ser donas da nossa vida. É o lado B da maternidade. Para lá dos sorrisos desdentados, do cheirinho a bebé, das primeiras palavras toscas, dos abracinhos doces e da magia de os ver crescer, existe um lado obscuro.

 

Por trás de cada mãe radiante com os seus pequenos milagres, existe uma mãe esgotada, carregada de sono e com falta de tempo para cuidar dela.

 

Quando engravidamos deixamos de ser donas do nosso corpo, isso é logo evidente desde a primeira consulta no obstetra. Tudo o que importa é que a mãe enquanto recetáculo do ser que carrega na barriga, coma apenas o suficiente para o fazer crescer e não engordar como um rinoceronte, que não ajavarde em açúcar para não ficar diabética, que faça todas as ecografias e exames de rotina e que se habitue desde logo a não dormir.

 

E dormir nunca mais vai ser o mesmo. Eu abri mão desse departamento assim que o meu filho nasceu. O que (não) durmo é da exclusiva responsabilidade do meu benjamim. Os filhos decidem quantas vezes vamos ser acordados durante a noite, se ficamos deitados ao pé deles em camas minúsculas para que parem de chorar antes de acordarem os vizinhos ou se temos direito a ir para a nossa cama dormir as poucas horas que faltam para o despertador tocar.

 

Acordar depois das seis e meia da manhã também passa a ser uma lembrança longínqua. Quando é que isso aconteceu pela última vez? Noutra vida. Os miúdos acordam-nos antes do sol nascer, somos arrastados para a sala, sintonizamos o Canal Panda, que é particularmente irritante àquela hora da manhã, e ficamos a amaldiçoar as escolas que não estão abertas ao fim-de-semana.

 

A conta bancária que um dia foi nossa passa a ser a conta onde está o dinheiro para gastar com os filhos. O dinheiro que antes seria para umas calças novas, para um fim-de-semana romântico, para jantar fora ou imaginem, para poupar, é sugado para os pediatras, para as vacinas, para as fraldas, para a farmácia, para as creches, para a ginástica, para a roupa deles. O que eles precisam (e não precisam) está sempre em primeiro lugar.

 

E a nossa vida profissional? O que dizer dela? Fica completamente à mercê das viroses que eles apanham na escola. Se eles vão para a escola ficam doentes, se eles ficam doentes nós ficamos em casa, se nós ficamos em casa não trabalhamos, se não trabalhamos a empresa diz que não fazemos falta, se não fazemos falta… Se noutras alturas podíamos mandar tudo mais alto que as estrelas, recomeçar e arriscar, com filhos todas as decisões são tomadas em função do que é mais seguro para eles.

 

Com filhos não há planos a dois que resistam. Ao planearmos uma escapadinha de fim-de-semana, um jantar romântico ou uma ida ao cinema, para além de termos que encontrar uma avó ou uma tia com disponibilidade, temos também que baixar as expectativas porque, de um momento para outro, um deles, ou os dois, pode adoecer e lá se vai o romantismo. E o sexo!

 

As férias deixam de ser férias, porque acreditem, os pais não têm férias. Estamos sempre de serviço, prontos a servir, vinte e quatro horas por dia. As férias acabam e nós precisamos de férias sem filhos. E adivinhem? Já não temos mais férias.

 

Sim, não desanimem, os filhos são o melhor do mundo, mas como diz a minha filha, não é disso que eu estou a falar.

 

Texto escrito em parceria com a Up to Kids.

29
Set17

Super poderes que eu não me importava de ter

Susana

Eu que não quero ser super mãe, dei por mim a pensar que até me dava jeito ter um superpoder ou outro. As circunstâncias deste devaneio? Estava a conduzir, em plena auto-estrada, sozinha com os dois, quando começam os gritos vindos de trás. O costume. O cinto está apertado demais, a chucha caiu, querem bolachas, água, fazer xixi, moer-me o juízo.

 

O que me dava jeito naquele momento? Ser a mulher elástica. Segurar o volante com uma mão, esticar o outro braço, apanhar a chucha, espetá-la na boca do mais novo, tirar a água da mochila e dar à mais velha e pelo caminho ia-lhes dando uma belinha na testa para pararem de gritar.

 

Quando dei por mim estava a pensar em todos os superpoderes que me iriam facilitar a vida:

 

Invisibilidade – Para não ter de me esconder dos miúdos na casa de banho.

 

Invencibilidade – Para me ajudar a não sucumbir à tortura do sono a que sou sujeita vai para vinte oito meses e para resistir a todas as viroses que os miúdos trazem da escola.

 

Ler pensamentos – Para conseguir perceber o que raio se passa naquelas cabeças para que façam tantas birras.

 

Controlar a mente – Em conjunto com o anterior, para antecipar as birras, para não serem teimosos como uma mula, para deixarem de dizer que não e para me obedecerem imediatamente! Até fiquei cansada.

 

Visão noturna  – Para não dar pontapés nos brinquedos e cabeçadas na parede, quando me chamam a meio da noite para virem para a nossa cama.

 

Visão raio x – Para ver onde enfiaram o boneco que tanto procuram ou para estar na cozinha e a controlar os disparates que estão a fazer na sala.

 

Metamorfose – Porque às vezes me dava jeito transformar-me no pai, principalmente na hora de adormecer a minha filha (com o pai a coisa corre sempre melhor).

 

Duplicação – Para conseguir responder aos dois ao mesmo tempo, principalmente quando o pai está fora. Duas de mim era o ideal, para dar banhos, jantar e adormecer os dois. Duas mães a gritar também havia de ser bonito de aturar. Aguentem-me.

 

(Super) Resistência física e mental – Para conseguir levantar-me da cama fresca como uma alface, mesmo sem ter dormido decentemente e para aguentar todas as birras com um sorriso nos lábios e os neurónios intactos.

 

Agilidade – Para aguentar uma hora com eles no parque, dos baloiços para o escorrega e do escorrega para os baloiços ou para agarrar o mais novo no ar quando está prestes a cair do sofá e a bater com a cabeça no chão.

 

A força do Super-Homem – “O pai é mais forte que tu!” O que a minha filha quer é que eu alombe com eles ao colo até ao terceiro andar como o pai faz e chama-me fraquinha. Machista!

 

Velocidade – Para ao fim-de-semana arrumar a casa em meio minuto e alapar o rabo no sofá como não faço há mais de quatro anos.

 

As garras do Wolverine – Para cortar o cabelinho às mamãs que me irritam no parque. Vocês sabem quais são.

 

Voar – Para ir para casa sem passar pela confusão do metro e o mau cheiro dos barcos, para abraçar os meus filhos e curar as frustrações do dia com os sorrisos deles. Até que comecem a fazer birras porque não querem partilhar os brinquedos, claro.

 

Telepatia – Para comunicar com o meu marido sem os miúdos perceberem, do tipo “Meu amor, hoje és tu que vais adormecer os dois que eu estou que não me aguento!”

 

Se continuasse a pensar nisto nunca mais acabava, queria poder estalar os dedos e deixar de os ouvir a chamar por mim de segundo a segundo, curá-los imediatamente quando ficam doentes, prever o futuro para ter a certeza que estou a fazer um bom trabalho, estalar os dedos e dar por mim deitada numa praia paradisíaca a saborear um gin tónico sem miúdos por perto. Como não tenho superpoderes para além da minha incrível capacidade de andar na rua em piloto automático, vou deixar-me destas tretas e acordar para a realidade.

 

Texto escrito em parceria com a Up to Kids.

28
Set17

As mães precisam de dizer mais vezes que se foda

Susana

Que se foda se os nossos filhos nasceram de cesariana por opção.

 

Que se foda se não gostamos de amamentar e passamos diretamente para o leite adaptado sem passar pela casa de partida.

 

Que se foda se começam a andar com nove, quinze ou vinte meses.

 

Que se foda se não se percebe um boi do que dizem aos dois anos e mesmo assim são espertos como o raio.

 

Que se foda se ainda usam fraldas aos dois anos, os miúdos não vão casar de fraldas e se forem que se foda.

 

Que se foda se o chão tem migalhas, se há bolacha maria espalhada pelos móveis, baba nos vidros da sala ou dedadas na televisão.

 

Que se foda se os miúdos não tomaram banho um dia, se nos esquecemos de lhes cortar as unhas ou limpar os ouvidos.

 

Que se foda se deixaram comida no prato, se não comeram os legumes ou a porra da sopa e mesmo assim os deixamos comer sobremesa.

 

Que se foda se de vez em quando comem douradinhos ou pizza, se bebem sumo e não temos a mínima paciência para comidas paneleiras que demoram uma vida a imaginar e outra a confecionar.

 

Que se foda se a roupa não está passada e guardada nas gavetas e se não sabemos há meses do par das meias preferidas.

 

Que se foda se não gostam de vestidos, de folhos e querem calçar todos os dias os mesmos ténis.

 

Que se foda se foram para a escola com as mãos todas riscadas de caneta porque se divertiram à brava a pintar no dia anterior.

 

Que se foda as opiniões dos outros, as certezas absolutas e a parentalidade positiva.

 

Que se foda a culpa, que se fodam todos os que nos querem fazer sentir culpadas.

 

Não há fórmulas, nem certezas absolutas, o que resulta com um filho não resulta com outro, vamos tentando, ajustando as velas, vamos levando o barco o mais que conseguimos para longe das tempestades, mas vamos cometer muitos erros, encalhar e voltar a tentar, que se foda, é a vida, somos pessoas imperfeitas, pais imperfeitos que amam os filhos.

 

Só o amor importa. O resto? Que se foda.

25
Set17

A mudança de escola

Susana

Com o início do novo ano letivo decidimos mudar os miúdos de escola. Seguimos o nosso coração e a nossa cabeça, eles precisavam de mais, não mudar era continuar a ignorar o óbvio.


Sabíamos que ia ser muito difícil para eles, a mudança exige muito de qualquer um e querer que as crianças lidem com a mudança e com os sentimentos inerentes a essa mudança de ânimo leve é ser muito ingénuo.


Eu não fui completamente ingénua, fui talvez otimista demais. Estava preparada para a dificuldade, para choros e birras, para as emoções e para a insegurança, não estava era preparada para estas duas últimas semanas.


Foram duas semanas com birras demoníacas e se esperam que vos diga que já acabou, não, não acabou.


Passo os dias a repetir a mim mesma que vai correr tudo bem e que eles se vão adaptar à escola nova. Procuro dentro de mim a paciência que não tenho, invento a calma que acho que é precisa, a mãe que grita está escondida algures numa gruta para não piorar as birras e rezo a todos os santinhos em que não acredito para que se faça luz e que isto melhore antes que eu fique completamente maluca. E juro que já não falta muito.


Toda a minha energia física e mental tem sido sugada para esta adaptação. São os choros desesperados das manhãs, são as birras do final do dia que mais parecem saídas de um filme de terror e eu sinto-me uma malabarista que, em vez de bolas nas mãos, tem birras que vai fazendo girar no ar, para que nenhuma caia no chão e rebente como uma bomba atómica.


O meu cérebro está esgotado, não consegue juntar duas palavras sem enorme esforço, sinto dores no corpo como se tivesse sido atropelada por um camião, mas mesmo assim eu continuo a repetir sem parar que vai correr tudo bem, que os miúdos se vão adaptar e aproveitar ao máximo a nova escola.


Já estarei maluca?

 

Texto escrito em parceria com a Up To Kids.

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