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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

31
Mar17

4 de Maio de 2012

Susana
O dia 4 de Maio de 2012 calhou a uma sexta-feira, eu estava grávida e fazia as doze semanas na segunda-feira seguinte.
 
Estava a trabalhar, fui ao wc, limpei-me e vi o sangue no papel higiénico. Não sei quanto tempo fiquei ali a olhar para o sangue. Era sangue vivo, era abundante.
 
Vesti-me, fui ter com uma colega, das poucas que sabia que eu estava grávida e pedi-lhe para ir comigo à Maternidade Alfredo da Costa. Pelo caminho liguei ao meu marido, que em pouco tempo estava lá.
 
Abraçámo-nos.
 
Existe aquele mito de que não devemos contar que estamos grávidas antes das 12 semanas. Eu já tinha estado de baixa, porque às 6 semanas o feto não estava a evoluir, mas depois disso parecia tudo normal, um coração que batia forte, as medidas supostas para o tempo e eu esqueci aquele pesadelo. Estava feliz, estava grávida e notava-se.
 
Quando cheguei à MAC tudo me pareceu demorar uma eternidade. Eu estava a perder sangue e a calma dos outros parecia-me uma ofensa. Fazer o registo, mostrar o cartão do cidadão, o cartão de saúde, dar a morada, contactos, por favor, eu só quero ouvir um coração a bater.
 
Entrei para a triagem e depois das explicações habituais, mandaram-me deitar numa maca. Ali fiquei deitada, num corredor, sozinha. Ao longe ouvia o som de outros corações, portas a abrir e fechar. Uma enfermeira passava de tempos a tempos e pedia-me para ir ver se ainda perdia sangue.
 
Depois do que me pareceu serem cem anos, fui chamada por uma médica sorridente. Deitei-me, fez-me uma ecografia, o sorriso desapareceu e disse-me que eu tinha sofrido um aborto espontâneo.
 
Não percebi nada. Eu continuava a querer ouvir um coração a bater.
 
Rapidamente me explicou que o feto teria parado de se desenvolver por volta das 9/10 semanas e só agora o corpo estaria a tentar expulsá-lo.
 
É muito comum, disse-me. Alguma coisa não estaria bem com o feto e o próprio corpo impediu que se desenvolvesse, era bom sinal. Falou em percentagens, casos de sucesso após aborto e mandou-me para casa esperar que o corpo fizesse o resto do trabalho. 
 
Contei ao meu marido, à minha mãe, mas eu só pensava que o meu corpo tinha dentro dele o que foi um filho muito desejado e tudo tinha acabado.
 
Não sei se chorei muito ou pouco, ou o quão dolorosa foi esta perda. Todo o processo demorou um mês, entre idas ao hospital, colocar comprimidos e mais comprimidos para provocar a expulsão, contrações dolorosas e ecografias e mais ecografias, que mostravam sempre restos, que tudo se resumia a essa necessidade de tirar o feto de dentro de mim. Não havia lugar para a dor psicológica.
 
Fui maltratada no hospital por não querer fazer uma raspagem, não tinha filhos, não queria arriscar. Li de tudo na internet. Tomei banhos de água quente, bebi chá de canela, perdi a conta aos comprimidos, às dores, ao sangue que perdi.
 
Mudei de médico, encontrei a calma, era só esperar e não fazer mais nada. E assim foi.
 
A 27 de Junho de 2012 tudo terminou e eu chorei de alívio.
 
Durante o processo percebi que a médica da MAC tinha razão, uma grande percentagem de mulheres sofre abortos espontâneos, mas não falam sobre isso. Regra geral acontecem antes das 12 semanas de gravidez e a sabedoria popular diz que dá azar contar, agoira, é preciso ter cuidado com o mau olhado e as mulheres sofrem sozinhas, como se fossem culpadas ou estivessem estragadas.
 
Não estão e devemos falar abertamente sobre o assunto. Desmistificar. 
 
A 12 de Setembro de 2012 voltei a ouvir um coração a bater e dessa vez a história foi feliz.
 
28
Mar17

Há dias em que nem os sorrisos dos filhos nos salvam

Susana

Tecnicamente estou acordada desde as duas da madrugada.

 

O mais novo, como quase sempre, acordou a chorar e, como quase sempre, acordou a irmã e, como quase sempre, foram os dois para a nossa cama. O circo estava montado.

 

Ele vira-se de cabeça para baixo, destapa-se, deita-se em cima do pai, puxa os cabelos à irmã, nós vamos acordando e adormecendo, sem coragem para ir vendo que horas são. Resmungamos, ralhamos, batemos com a cabeça na parede. Ela tosse, eu levanto-me e dou-lhe xarope, ela continua a tossir, o pai levanta-se e volta a dar-lhe xarope. Estamos a ficar malucos. A tosse acalmou. Passo a noite toda destapada, desisti de lutar por um pedaço do edredão.

 

O despertador toca às seis horas e quinze minutos, desligo-o e deixo-me ficar até sentir os pés do meu marido a expulsar-me da cama. Tenho frio. Levanto-me, meto o café a fazer, enfio-me no banho, visto-me, o meu marido faz o pequeno-almoço, tomamos o pequeno-almoço sentados no sofá, enquanto vemos as notícias. Os pequenos demónios ainda dormem. E eu com uma puta de uma dor de cabeça a querer rebentar. Já passa das sete horas, caraças, está na hora de os irmos acordar.

 

Damos o leite, vestimos, lavamos a cara e os dentes, o pai penteia, eu faço o totó, tudo a passo de caracol. “Mãe, o que é que eu levo para comer na escola?”, vestimos os casacos, metemos os gorros na cabeça, “Está de noite, mãe?”, “Não está de noite, é o nevoeiro.” Dói-me cada vez mais a cabeça. Quando nos sentamos no carro e respiramos fundo já são oito e dez.

 

“Adeus mãe, bom trabalho!”, “Boa escola, meus amores.” Beijos e sorrisos, até parece que dormiram a noite toda.

 

Chego ao terminal dos barcos e apetece-me cortar os pulsos. Centenas de pessoas do lado de fora dos torniquetes, é o nevoeiro, são os barcos suprimidos, é a porra de um gajo bipolar que manda naquela merda toda. Junto-me à multidão. Tomo um comprimido para a dor de cabeça. Há um homem que fuma no meio das pessoas, filho da puta. Tomo mais um comprimido para a dor de cabeça, que o dia ainda não começou. Os torniquetes abrem, as pessoas empurram-se, pisam-se, ninguém quer ficar de fora. Os carneiros, como dizia alguém um dia destes: “Somos todos uns carneiros”. Que se foda. Junto-me à carneirada, não me posso atrasar mais.

 

O barco atraca em Lisboa e vou a correr para o metro. Faltam nove minutos para o próximo metro, em hora de ponta nove minutos são uma eternidade, outro bipolar a mandar nesta merda. Mudo da linha azul para a linha verde. É a pior linha de todas, juro, as pessoas cheiram a areia de gato com uma semana, misturado com óleo de fritar chamuças. Consigo sentar-me e tenho à minha frente dois homens saídos dos “Feios, Porcos e Maus”, não sei a que cheiram, mas envolve vinho e apetece-me vomitar, levanto-me e vou em pé, com o lenço a tapar-me o nariz. Respiro o menos possível.

 

Chego ao destino, lembro-me para onde vou e apetece-me fazer todo o caminho de volta para casa. Arrasto-me, pico o ponto, sento-me ao computador e finjo que vou fazer alguma coisa que gosto.

 

Há dias em que nem os sorrisos dos filhos nos salvam.

27
Mar17

Coisas que as mães fazem, admitam ou não.

Susana

- Limpar o ranho do nariz dos miúdos com as mangas da camisola e a boca também, se for preciso;

 

- Apanhar a chucha do chão, "desinfetar" com a nossa boca e dar-lhes;

 

- Tirar as ramelas dos olhos no portão da escola, porque nos esquecemos de lhes lavar a cara;

 

- Acabar de comer o resto do pão que eles já não querem e que só por acaso está cheio de baba;

 

- Limpar os restos de pasta de dentes com cuspo;

 

- Vestir-lhes três camadas de roupa quando estão 20 graus e ainda lhes perguntar se têm frio;

 

- Acabar de comer o resto da papa Cerelac que eles já não querem (gordas!);

 

- Provar o leite do biberão para ver se o leite está quente;

 

- Dar banho à gato, dar banho com toalhitas, cheirar o cabelo para ver se ainda cheira bem,  (que atire a primeira pedra quem nunca saltou um banho!);

 

- Deixar jantar douradinhos de vez em quando, porque não os fazemos fritos e assim são saudáveis (cof, cof, cof);

 

- Mentir aos pediatras nas urgências quando dizemos que aquela febre já tem três dias, porque nós somos mães e sabemos onde é que aquela febre vai dar;

 

- Ir à casa de banho e trancar a porta só para podermos respirar fundo;

 

- Deixá-los ver o youtube enquanto lhes enfiamos colheres de sopa pela boca abaixo, para evitar birras.

 

Podia continuar o dia todo.

24
Mar17

Go the fuck to sleep*

Susana

“The cats nestle close to theirs kittens,

The lambs have laid down with the sheep.

You are cozy and warm in your bed, my dear.

Please go the fuck to sleep.”

 

A minha maior inabilidade enquanto mãe é a de adormecer os meus filhos. Com um mês a minha filha já dormia a noite inteira. Um sonho. O maior pesadelo era conseguir adormecê-la. Eu cantava, embalava, ralhava, tentava sentada, de pé, deitada na minha cama, com ela deitada no berço de mão dada comigo, no escuro, com a luz acesa, com música, sem música. Só não fiz o pino.

 

Não melhorou com a idade. Aos três anos e meio continua a ser um desespero. Não minto se disser que já estive três horas para a adormecer – o que teria dado para ver vários episódios da Guerra dos Tronos. A nossa rotina é simples. Está uns minutos ao meu colo, pede para a deitar na cama dela e começa a nossa saga. Se me levanto, pede para eu ficar só mais um bocadinho e mais dois bocadinhos e mais três bocadinhos; se eu digo que não, chora, grita, implora, eu ralho, eu grito, ela chora mais alto e não saímos dali. A solução é sempre a mesma: ficar com os nervos todos esfrangalhados e esperar que ela adormeça profundamente. Quando finalmente adormece, o que pode demorar cinco minutos ou uma hora, conto até cem (não se riam, eu conto mesmo até cem), levanto-me devagarinho e saio do quarto quase sem tocar no chão, para que a madeira não ranja o suficiente para a acordar.

 

Já vos disse que tenho dois filhos?

 

Com o meu filho mais novo o início foi doce. Não há dois filhos iguais, toda a gente o diz e eu queria acreditar. Era só deitá-lo na cama e ele adormecia sozinho. Não dormia a noite inteira, é certo, acordava três e quatro vezes para comer, madrugava mais cedo que o galo do quintal do vizinho, mas não me stressava para o adormecer e isso já era uma grande conquista para esta mãe. Afinal o problema não era meu!

 

Pouco depois de fazer um ano, o meu rapaz passou a dormir a noite inteira e escusado será dizer que começou o drama para o adormecer. Não há dois filhos iguais o tanas! Se dez vezes o deitar no berço, dez vezes ele acorda. Puxa os cabelos, os dele e os meus, grita, chora, vira-se para um lado e para o outro, quer ir para o chão. Raça do miúdo. Transforma-se no Lotso, o urso do Toy Story 3, cor de rosa, sorridente e a cheirar a morango, mas que no fundo é um rufia que quer controlar os brinquedos todos. Só o posso deitar no berço quando já está num sono profundo. Mais uma vez conto até cem (muito conto eu) e saio do quarto quase sem tocar no chão, para que a madeira não ranja o suficiente para o acordar.

 

Não há uma rotina que funcione, um ritual, não há livros, dicas, rezas ou terapeutas que ajudem. A única solução é ser o pai a adormecê-los. O problema não são eles, sou eu. Com o pai a corda não estica e comigo estica ao ponto de me só apetecer gritar: GO THE FUCK TO SLEEP.

 

* Título roubado ao livro de Adam Mansbach

 

Texto publicado originalmente no blog Amãezónia.

22
Mar17

Tortura do sono

Susana

Nota prévia: O meu filho já tem 22 meses, durmo mal há 22 meses, 22 fucking meses.

 

Agora sim, o texto:

 

A privação do sono envolve manter os presos acordados até 180 horas seguidas e em posições exaustivas. Quando alguém é proibido de dormir tanto tempo torna-se psicótico, sofre alucinações e perde funções cognitivas básicas

 

O meu filho começou a dormir mal há dezasseis meses. Tendo em conta que tem dezasseis meses, dorme mal desde que nasceu.

 

Esta noite acordou à uma da madrugada e só adormeceu já passava das quatro. Foram três horas inteiras a choramingar. Pus-lhe gel nas gengivas para aliviar a dor dos dentes a nascer, não ajudou, ofereci água, não tinha sede, dei leite morno, não tinha fome, massajei a barriga, fez cocó, dei-lhe o meu telemóvel, viu o João Bebé, tirei-lhe o telemóvel, voltou a choramingar até adormecermos os dois no sofá.

 

Alguém me perguntou como é que eu aguento. Não sei, juro que não sei. Talvez os pais tenham alguma espécie de super-poder. Para compensar a nossa evidente falta de paciência, temos a capacidade de nos levantar da cama e fazer seguir a vida em piloto automático. Um dia atrás do outro.

 

Não são raras as vezes em que saio de casa e olho para os pés para ver se estou de chinelos, chego ao barco e me pergunto se me terei penteado ou pico o ponto sem me lembrar do caminho que fiz até aí. Meto fraldas dentro do cesto da roupa suja, a manteiga na despensa, o detergente da roupa no frigorífico, os talheres no caixote do lixo e o pão dentro da gaveta. Se não faço lista de compras esqueço-me do que vou comprar, se faço lista de compras esqueço-me que a fiz. Tiro as chaves de casa para passar nos torniquetes do metro, uso o cartão do ponto para abrir a porta de casa e o passe para picar o ponto.

 

Não aguento mais que dois segundos sentada no sofá sem adormecer. Ver filmes a dois acontece uma vez por mês. Se tiver sorte e conseguir ter os olhos abertos, vejo o meu marido quando nos vamos deitar, quando não tenho sorte e não consigo ter os olhos abertos, vou diretamente do sofá para a cama sem passar pela casa de banho para lavar os dentes.

Sonho que estou a dormir, tiro dias de férias para dormir, lembro com saudosismo os dias em que dormíamos até à uma da tarde. Estou sempre cheia de sono, com olheiras monstruosas e cara de merda. Penso o tempo todo quando é que raio vou conseguir dormir.

 

Não tenho paciência para ninguém, só me apetece bater nas pessoas que me pisam no metro ou nas que tentam passar à minha frente na fila do supermercado. Um dia cometo uma loucura e os meus amigos aparecem nas notícias a dizer: ela até era boa rapariga, mas não andava a dormir lá muito bem.

 

A culpa não é minha! A privação do sono é a mais dura das torturas. Eu comecei a dormir mal há dezasseis meses, precisamente desde que o meu filho nasceu.

 

Não me interpretem mal, o meu filho é maravilhoso, mas há noites em que só me apetece ir deixá-lo à porta da minha vizinha da frente, voltar para a cama e dormir.

 

Texto publicado originalmente no blog Amãezónia.

21
Mar17

"Mãe, achas que é justo brincar sozinha?"

Susana

– Mãe, achas que é justo brincar sozinha?

 

Ontem na hora da história para dormir, (uma história da minha boca e não dos livros, como ela me pediu), de luz apagada, as duas de mãos dadas deitadas na cama dela e esta frase que se espetou no meu coração.

 

– Não, filha, não é justo.

 

As lágrimas começaram a escorrer pela minha cara.

 

– Quando as minhas amigas levam brinquedos para a escola não me deixam brincar com elas.

 

Estúpidas! Não querem brincar com a minha filha porquê?

 

– Não brincam comigo e eu tenho que brincar sozinha.

 

Egoístas! Será que lhes posso bater? Ou nas mães delas? Posso bater em alguém?

 

Abracei-a com força, expliquei-lhe que, às vezes, as amigas fazem coisas que nos deixam tristes, mas continuam a ser nossas amigas. Brinca com as outras meninas, não dês importância. Pediu-me para acabar de contar a história e adormeceu tranquilamente.

 

Eu chorei até adormecer. Imaginei todos os cenários. A minha filha triste, a sentir-se de parte, a brincar sozinha a um canto. Pareceu-me mais pequenina, a minha bebé. O que posso fazer? Ficar com ela em casa para sempre? Mudá-la de escola? Ensinar-lhe uma arte marcial?

 

Pela primeira vez senti-me impotente, uma péssima mãe. A minha filha está a sofrer e eu não dei por nada. Alguém que me bata. Nem quando eles estão doentes eu me sinto assim. Estas desilusões não se curam com antibióticos ou xaropes para a tosse, como é que a vou proteger?

 

De manhã falei com a educadora: a minha filha não passa o dia sozinha e triste, ela brinca com as amigas que não quiseram brincar com ela naquele dia, brinca com os outros, brinca com a educadora, brinca sozinha. Ao que parece a minha filha é tão dramática como eu. Está tudo bem.

 

Está tudo bem, está tudo bem, é o que continuo a repetir, mas o meu coração de mãe mudou. Os meus filhos vão sofrer desilusões ao longo da vida e eu não os vou conseguir proteger. O meu amor não vai ser suficiente. Esta certeza terrível chegou aos três anos e meio da minha filha e é esta certeza que me dói, a certeza de que muitas vezes não vou poder fazer mais que os abraçar.

 

– Filha, achas que é justo eu sentir esta dor?

 

Texto publicado originalmente no blog Amãezónia.

19
Mar17

Andamos a criar cavalos puro-sangue

Susana

Queremos que os nossos filhos andem nas melhores escolas, que tenham aulas de ballet, natação e karaté, que saibam andar de bicicleta, trotinete e patins, que aprendam inglês, francês e alemão, que saibam ler, escrever e fazer contas de somar, que gostem de cinema para adultos, exposições e música clássica e claro, antes de fazerem quatro anos.

 

Desejamos que os nossos filhos sejam os melhores e os miúdos querem ser os melhores. Os reis e as rainhas. Quem quiser que os sirva, que os siga. Estamos a dar aos nossos filhos o melhor que conseguimos. Nunca as crianças estiveram tão bem preparadas como agora para mandar nisto tudo. As melhores escolas, as melhores atividades extracurriculares, os melhores amigos. All that money can buy. Não lhes estamos é a dar educação.

 

Sempre que uma criança fala para um adulto que acabou de conhecer como se fossem iguais, todo o meu sangue ferve. Sempre que uma criança age como a rainha do pedaço, apetece-me dar-lhe um abanão. Sempre que uma criança goza com outra, apetece-me metê-la de castigo virada para a parede.

 

É uma chatice, eu percebo. Investimos muito nos filhos e queremos retorno, queremos que eles correspondam às nossas expectativas, que acabem a corrida em primeiro, no matter what. Se alguma coisa tem de ficar para trás, então que se foda, que seja a educação, a empatia e o respeito pelos outros.

 

Perdoem-me o moralismo, mas, infelizmente para os outros, essas crianças sem educação vão ser adultas sem educação. Eu cruzo-me muitas vezes com elas no portão da escola dos meus filhos e os filhos deles são a cópia exata, de quem passa pelos outros de nariz empinado sem soltar um bom dia. Há quem lhes chame vencedores, do quê não sei, eu chamo-os de mal-educados.

 

Eu posso estar errada, e, no tempo em que os meus filhos vão viver, isto pode até custar-lhes um degrau ou dois na hierarquia social, mas por agora quem manda ainda sou eu e eu prefiro filhos que aos quatro anos ainda não sabem escrever o nome, mas que não esquecem o se faz favor e o obrigado.

17
Mar17

As coisas que as mães aturam

Susana

As mães têm de aturar muitas coisas. A opinião altamente especializada do resto do mundo é só uma delas. Quando damos por nós, estamos rodeadas de especialistas em tudo o que diz respeito aos nossos filhos, desde a cor e consistência do ranho ao cheiro e consistência do cocó.

 

Tudo começa com os filhos ainda na nossa barriga. O hospital em que decidimos parir, se optamos por parto natural ou por cesariana, o pediatra que escolhemos, o tempo que vamos estar de licença de maternidade, se vamos amamentar, a creche onde os vamos inscrever, como se as nossas escolhas tivessem algum peso físico, emocional e financeiro sobre a vida dos outros.

 

Estava eu grávida da minha filha mais velha e tinha uma amiga preocupada se eu punha creme na barriga, como se as eventuais estrias não fossem minhas por direito. Ou outra que me perguntava se as vitaminas que tomava seriam suficientes porque não, elas não me tinham sido prescritas pelo obstetra.

 

As pessoas dizem tolices e nem dão por isso. Um dia ao mudar a fralda à minha filha mais velha, uma amiga incomodada com o cheiro disse-me que o cocó da filha dela não tinha cheiro. Acho que foi a primeira vez que fiquei sem resposta. Também há as especialistas em constipações, infecções respiratórias, bronquiolites e várias outras ites. Os meus filhos são esponjas, nas creches as doenças são uma ementa generosa e eles são uns glutões. Apanham tudo, incluindo piolhos. Ao desabafar com uma colega, disse que havia miúdos que nem um gorro na cabeça usavam no inverno e nunca estavam doentes, e os meus sempre bem agasalhados, bem alimentados, com as vacinas em dia estavam sempre com qualquer “ite”. Arrependi-me logo. Fui esclarecida que o mal era esse, os meus filhos andavam agasalhados demais.

 

Que meta o dedo no ar quem nunca ouviu que o seu leite era fraco, que a criança não estava satisfeita, que não sabia amamentar, que nessa posição o bebé não estava confortável ou que o filho não está a aumentar de peso.

 

No capítulo da amamentação o terrorismo psicológico é tanto, que há mães que desesperam se não conseguem amamentar ou sentem-se as piores do mundo se não gostam de o fazer. Eu amamentei a minha filha até ao primeiro mês. Nem eu nem ela tínhamos paciência para aquilo, ela não sabia mamar e eu só queria que ela ganhasse peso. Desisti e comecei a dar leite adaptado. Foi a melhor coisa do mundo. Amamentei o meu filho mais novo até ele ter cinco meses. Continuei sem paciência para aquilo, mas o miúdo gostava e crescia. Aceitei as condições.

 

Se a criança começar a andar depois dos doze meses logo vêm os avisos de que não está a ser estimulada o suficiente. Se não fala, precisa de terapia. Se é tímida, tem de socializar no parque infantil. Se não anda na natação desde que nasceu vai ser um fracasso. Se não sabe inglês aos quatro anos, Deus nos ajude!, vai ser burra. Se é menina e brinca com loiças, o lugar dela vai ser na cozinha. Se é rapaz e brinca com loiças, vai ser mole.

 

É cansativo ser imune às opiniões dos outros. Na maternidade não existem certezas absolutas, ser mãe é difícil para caraças. Ter alguém a questionar constantemente as nossas escolhas torna-nos propensas a desatarmos aos pontapés à primeira pessoa que abrir a boca para emitir uma opinião nada científica. Por isso, da próxima vez que tiverem uma opinião a respeito da idade com que a filha da vossa amiga devia deixar a chucha, calem-se e lembrem-se que as escolhas que a vossa amiga faz para os filhos dela, são dela e da família dela. Não têm necessariamente de coincidir com as vossas. Tomem as vossas decisões conscientes de que estão a fazer o melhor possível pelos vossos filhos.

Quanto às opiniões dos outros, evitem-nas, ignorem-nas ou, se preferirem, mandem alguém à merda. Pode ter um efeito libertador, sobretudo se for acompanhado pelo vosso mais belo sorriso. Mas isto é só a minha opinião.

 

Texto publicado originalmente no blog Amãezónia.

15
Mar17

Mãe do Ruca, odeio-te!

Susana

Não tenho muita paciência para as outras mães, mas o meu ódio de estimação é mesmo a mãe do Ruca.

 

- A mãe do Ruca nunca se zanga com ele! - disse-me um dia destes a minha filha.

 

Os meus filhos adoram ver o Ruca e eu não me importava, era a desculpa ideal para os ter sossegados enquanto eu preparava os banhos. Mas, agora tinha de perceber que raio de mãe é essa que nunca se zanga com o filho. Isso existe? Com os miúdos na escola, atirei-me às gravações automáticas, peguei no meu chocolate com avelãs e dediquei-me a uma maratona de Ruca.

 

O que descobri foi chocante: as avelãs do chocolate do Minipreço são enormes e quase me partiram os dentes.

 

Quanto à mãe do Ruca, odeio-a! Episódio após episódio, birra após birra, asneira após asneira, ela não grita, ela não altera o tom de voz e o pior que a ouvi dizer foi um “oh fofinho”. A sério? Quem é que escreve estes diálogos?

 

A mãe do Ruca não ralha, a mãe do Ruca não castiga, a mãe do Ruca não se enerva. Mesmo quando ele parte a chávena preferida dela ou tira os brinquedos das mãos da irmã, ela explica-lhe o que fez de errado e ensina-lhe qual o comportamento correto. É a rainha da parentalidade positiva.

 

E também uma fada do lar do caraças. Mesmo sem empregada doméstica consegue ter a casa limpa e arrumada, a roupa lavada e passada, as refeições na mesa a horas, faz pizzas caseiras, bolos, sumos naturais, tem o jardim cuidado e apesar de ter uma filha bebé não vi indícios de privação do sono. E, espantem-se, ainda a apanhei num episódio ou outro, sentada calmamente a ler o jornal.

 

O lado negro: usa sempre a mesma roupa, não sabemos quantas vezes por semana toma banho, está quase sempre enfiada em casa, é incrivelmente parecida com o marido e aquele corte de cabelo com uma bandolete azul no cabelo não lembra a ninguém. E, e este e, é que estraga tudo, aquele tom de voz de dona de casa desesperada encharcada em compridos não engana ninguém, “oh fofinho”, “parece-me tão divertido ires saltar nas poças de lama”, “cuidado que te vais ferir”, “não te preocupes que a mãe limpa”, os risinhos. A minha conclusão é só uma: a mãe do Ruca está à beira de cortar os pulsos.

 

Resolvi meter tudo em pratos limpos quando fui buscar os miúdos à escola.

 

- Sabes filha, a mãe do Ruca não existe. Pensa bem, ela tem sempre a casa arrumada e sem pedaços de bolacha espalhados pelos móveis, ela não grita, nem se enerva e o pior que diz ao Ruca quando ele faz birras tontas é “oh fofinho”, achas que é parecida comigo?

 

A minha filha fez uma cara de quem percebeu que estava lixada e pediu para ver a Masha e o Urso.

 

Ainda bem.

14
Mar17

O post que deu o nome ao blog

Susana

Um dia a mãe rebenta, como um balão em que se vai soprando, soprando, soprando, soprando, até que boom!

 

Não tenho pretensões de ser a supermãe, a melhor, a mais forte, mas a verdade é que me tenho comportado como tal.

 

Já o escrevi várias vezes, durmo mal há vinte e um meses, sou uma mãe suburbana exausta, somos nós e nós, sem ajudas, o que é bom por um lado, porque não dependemos de terceiros, o que é mau por outro, porque raramente temos terceiros de quem depender. E depois tenho um defeito, entre muitos, uma resistência absurda a descansar.

 

Os miúdos sugam a maior parte da nossa energia, exigem tudo de nós, a diferença de idades é pequena. Oiço dezenas de vezes que agora custa, mas que vai ser ótimo. Crescem juntos, brincam juntos, bla, bla, bla juntos, para essas pessoas só lhes digo: não percebem nada do que estão a dizer! A única coisa que fazem juntos é berrar e chorar em solidariedade um com o outro.

 

(Vai melhorar, eu sei, não me batam já.)

 

Estou exausta, de rastos e em vez de alapar o rabo no sofá ou deitar-me a dormir enquanto os miúdos dormem a sesta, começo a olhar à volta e a ver mil e uma coisas para fazer. Aspirar o chão, pilhas de roupa para lavar, o pó, o filho da puta do pó que tem uma casa cheia de livros, os pedaços de bolacha maria misturados com baba espalhados pelos móveis, os vidros cheios de marcas de mãos pequeninas, os riscos de caneta nas paredes.

 

O meu despertador mais novo acorda antes do sol nascer e eu o que faço? Dou-lhe o leite e começo a arrumar merdas. Para quê? Não sei.

 

Deixo constantemente as minhas coisas para fazer. Escrever, fotografar, ler, ir ao cabeleireiro, até fazer o raio da dieta é um drama, só me apetece comer chocolate.

 

Neste momento o meu corpo grita, é impossível não o ouvir, está naquele ponto em que basta só mais um sopro para rebentar, por isso, sem mais demoras, vou ali despir a máscara de supermãe, respirar fundo, abrandar o ritmo e cuidar de mim.

 

Oiçam o vosso corpo a falar com vocês, não esperem que grite, peçam ajuda se for preciso, ser supermãe é uma treta, os nossos filhos só precisam da mãe.

 

Texto publicado originalmente no blog Amãezónia.

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