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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

30
Jun17

Alienação Parental

Susana

Estou parada no passeio à espera que o sinal fique verde para atravessar a passadeira, quando a conversa de duas mulheres ao meu lado me chama a atenção.

 

- Ele só vai ver os filhos quando eu quiser.

- Não devias fazer isso, ele é o pai dos teus filhos.

- Olha, não o defendas, se ele os quisesse ver mais vezes não tinha saído de casa.

 

A isto chama-se alienação parental. Acontece com demasiada frequência no seguimento de uma separação e o objetivo é sempre o mesmo: atingir o outro.

 

Para mim parte sempre de um sentimento de posse doentio em relação aos filhos e de uma cabeça mal resolvida. Acontece mais vezes ser a mãe a manipuladora, não só porque os tribunais, regra geral, determinam a custódia partilhada das crianças, mas determinam que a residência onde vão viver é a da mãe, tendo ela a liberdade para tomar várias decisões sem se preocupar com o consentimento do pai, mas também porque ainda existe quem tenha aquela ideia idiota, de que são mais nossos porque os carregamos na barriga nove meses. Quantas vezes já ouvimos a frase “mãe é mãe”? Devíamos passar a responder “o pai também é pai”. Nenhuma criança cresce saudável afastada do pai.

 

A custódia partilhada implica que não sejam tomadas decisões importantes para a vida dos filhos sem o consentimento dos dois, mas o que acontece é serem tomadas as decisões por quem vive com os filhos a maior parte do tempo e o outro recebe uma comunicação quando é necessário partilhar as despesas. Este é um tipo de alienação ligeira, que vai minando a relação dos filhos com o pai. O pai passa a ser alguém com quem a criança está quatro dias por mês, com quem passa quinze dias de férias por ano e com quem passa o Natal ou a passagem de ano.

 

Esta é uma forma ligeira e já assim tão cruel, mas o que podemos dizer quando as mães impedem mesmo os pais de verem os filhos ou quando conseguem que os próprios filhos decidam não querer ver os pais?

 

Vestem a pele de progenitor que ama mais, que se sacrifica mais, que se preocupa mais, que faz melhor, mas que na realidade está tão preocupado em atingir o outro, que não vê o que é mais importante, a estabilidade emocional dos filhos.

 

Já todos ouvimos histórias de alienação parental, de pais acusados injustamente de abusos físicos e sexuais, como forma de os afastar no imediato dos filhos, já todos ouvimos histórias de mães que regressam ao seu país de origem com os filhos, de pais que lutam anos a fio nos tribunais para conseguirem ver o filhos e mesmo com decisões favoráveis não os conseguem ver. A realidade é que apesar de todos os abusos, a mãe alienadora (e abusadora!), continua a ser protegida. É protegida pela família, pelos amigos e até pela sociedade, que a toma como cheia de razão, porque "mãe é mãe" e também pela lei, que não tem acompanhado a evolução destes fenómenos e se vê de mãos atadas para resolver as situações que acabam em tribunal.

 

Tenho a certeza que existem casos terríveis em que as crianças devem ser afastadas do pai, por risco grave contra a sua vida e integridade física, mas na maioria dos casos, os pais são afastados dos filhos, apenas porque a mãe não consegue resolver a sua cabeça e seguir em frente e vê nos filhos a única forma de atingir o outro.

 

Peço desculpa, por falar só das mães, existem claro situações em que o alienador é o pai, ou até os dois, que denigrem a imagem um do outro perante os filhos, que desvalorizam a importância de uma relação saudável em função daquilo que foi um dia uma história de amor, que resultou naquilo que é o melhor da vida, os filhos, mas já ouvi demasiadas vezes coisas como “se um dia me separar, o meu marido nunca mais vê os filhos” e ouvi demasiadas historias de pais afastados dos filhos por nada a não ser rancor e eu só peço que quem pensa estas coisas, que quem se sente tão insegura, que procure ajuda para aprender a amar-se para lá dos filhos, porque um dia os filhos crescem e vão dar conta que viveram amarguradas, que deixaram a vida passar e abrem a mão e têm uma mão cheia de nada.

 

E a troco de nada, os filhos e os pais foram privados um do outro, com danos muitas vezes irreparáveis para a sua relação e com marcas que vão doer para sempre.

 

Pensem nisto!

29
Jun17

Daqui até à lua

Susana

- Dorme bem, filha.

- Obrigada, mãe.

- Amo-te muito.

- Amas mais a mim?

- Mais que o quê?

- Mais que tudo.

- Amo-te a ti e ao mano mais que tudo.

- Mas mais a mim?

- A mãe ama-vos por igual daqui até à lua.

- A lua é muito longe não é?

- Sim, muito mesmo.

- E o sol?

- Também.

- Mas a lua é mais?

- Filha dorme lá.

- É ou não?

 

(sei lá eu, estou com uma puta de uma dor de cabeça, que nem sei se estou na terra ou em marte, diz-lhe que sim)

 

- Sim, agora dorme de uma vez por todas.

- Então amas o mano até ao sol e a mim até à lua que é mais longe, ok?

- .....

28
Jun17

Irmãos, para sempre

Susana

No outro dia o irmão destruiu uma construção de legos que ela estava a fazer e ela ficou à beira de um ataque de nervos. O habitual. Discutiu, chorou e perante o ar atónito do irmão, jurou que nunca mais ia brincar com ele.

 

- Nunca, nunca mais! - gritou ela.

 

Poucos minutos depois abraçou-o com força, disse-lhe que já não estava zangada e que iam ser amigos para sempre. E eu assisto a isto a sorrir, sem tentar intervir muito, a não ser quando andam à estalada, emocionada por os ver crescer juntos, a serem irmãos e a amarem-se incondicionalmente.

 

Que seja para sempre, como a minha filha diz.

23
Jun17

Isto é uma declaração de amor.

Susana

Há dois anos neste dia, vesti um vestido, para contrariar a ideia inicial das calças de ganga, calcei uns sapatos de salto alto, que como sempre, me magoaram os pés e com os miúdos como testemunhas, na conservatória do registo civil, fomos declarados marido e mulher. O mais novo, que mal tinha um mês, dormiu o tempo todo, ela correu de um lado para o outro, subiu e desceu cadeiras, sem perceber o que ali se passava, o mais velho, o único que percebeu, fez o registo fotográfico e desfocado da cerimónia. Não assinámos papéis, nem trocámos alianças, demos o beijo que selou o nosso contrato perante o Estado, pegámos nos miúdos e fomos para casa. Eu descalcei os sapatos que me mordiam os pés e almoçámos frango assado. Foi perfeito.

 

Estamos juntos há nove anos, fazemos hoje dois anos de casados e temos dois filhos maravilhosos. E eu agradeço a todas as pedras que encontrei no caminho, a todas as vezes que bati com a cabeça na parede e me senti derrotada, sou grata por todas as lágrimas que chorei e por todas as vezes que me senti infeliz, agradeço às histórias de amor que não o eram e às que foram e acabaram. Agradeço a tudo o que vivi, de bom e mau, por me ter colocado no caminho que me levou até ti. Agradeço muito ter-te encontrado madura, ter-te encontrado maduro, seguros do que não queríamos e sem pressas adolescentes e demasiado românticas. Mal posso esperar pelo resto da vida ao teu lado, sempre com a certeza que haja o que houver, caminhamos juntos.

 

Amo-te, meu amor.

20
Jun17

Que ninguém se cale!

Susana

Eu quero escrever, tenho tanto para escrever. Escrevo e apago, mas tudo me parece insignificante perante sessenta e quatro vidas perdidas. Os miúdos começaram a praia e o meu coração fica sempre pequeno. A morte está por todo o lado. As fotografias de famílias inteiras que se perderam para sempre. Tantas crianças. Passamos férias todos os anos em casas de turismo rural, podíamos ser nós numa estrada qualquer a tentar sobreviver. Daqui a pouco mais de um mês faço trinta e oito anos. Os últimos anos passaram a correr. Culpa dos filhos que crescem e nos fazem velhos sem darmos conta. A vida passa e nós presos na rotina dos dias. E para quê? Hoje o metro estava parado e eu tive de ir a pé dos barcos até ao Rossio. Lisboa é sempre mais bonita quando a vejo longe da correria do barco e dos encontrões do metro. Olhei o Tejo, a minha margem sul, o arco da Rua Augusta e o céu azul. Respirei fundo e pensei que os miúdos já deviam estar a caminho da praia. Alguém morreu hoje no metro e por isso eu vi Lisboa como não a vejo todos os outros dias. O ar está irrespirável. Ouvimos as notícias e é sempre mau demais, cada história de sobrevivência, cada história que não teve um final feliz. Só vejo fumo e labaredas. E as crianças. Estão a vender figos aqui na rua ao pé do meu trabalho, quase que comprei, mas olhei para eles e vi-me pequena a comer figos sentada à sombra da figueira do meu avô. Nunca mais comi figos tão doces. O meu avô morreu e a figueira morreu com ele. Que ninguém se cale perante esta tragédia. Estamos quase de férias.

14
Jun17

Uma fase NUNCA acaba...

Susana

Uma mãe NÃO pode dizer que uma fase acabou. NUNCA! O ideal é não criar falsas expectativas e assumir SEMPRE que a fase está apenas num intervalo. Disse há uns tempos que a minha filha já adormecia melhor e que dormia bem. Devia ter-me enchido de chapadas nesse momento. A realidade é que essa fase estava só num intervalo e voltou em força. Birras para adormecer, nem as histórias nos valem e muitos choros durante a noite. Esta noite, à terceira vez que ne chamou, achei por bem não voltar para a minha cama e ficar deitada ao pé dela. Acordei feita num oito e o dia ainda está a começar. 

12
Jun17

“I can't wait for the day when I can drink with my kids instead of because of them!”

Susana

Sabem aqueles dias tão maus, mas tão maus, em que estão tão cansados e em que já aturaram mais de mil birras e só vos apetece sentarem-se no sofá em silêncio com um copo de gin na mão e não podem, porque têm de continuar a aturar birras até os miúdos adormecerem e nem isso vai ser fácil, porque eles vão de certeza fazer a útima birra do dia precisamente na hora em que o gelo está a derreter no copo?

 

Bem, nesses dias eu sou uma besta.

 

- Se vocês não se calam vou levar-vos à escola.

É sábado, estúpida, não podes ir levá-los à escola.

 

- Será que ainda os posso dar para adoção?

Não se assustem, eu sou uma besta, mas esta eu só penso, não digo.

 

- Se te aleijas ainda levas por cima.

Estou a alucinar, parece-me que ouvi a voz da minha mãe.

 

- Vocês hoje estão insuportáveis.

E tu também estás, mãe, devem pensar eles. As birras de sono são as piores, nem eu me escapo delas.

 

- Vão ficar de castigo até à adolescência.

Ou seja, a minha fiha pode sair já do castigo.

 

- Vocês matam-me.

Outra vez a voz da minha mãe, estou a ficar maluca.

 

- Não te digo mais vez nenhuma.

E já disse vinte vezes e depois de dizer isto ainda digo mais umas dez. Aos berros, claro.

 

- Mas vocês estão sempre a chamar “mãe, mãe, mãe” porquê?

Estás a ver a cara deles a olhar para ti? Queres que eles chamem “tia, tia, tia”?

 

- Vou contar até três.

E muito devagarinho, porque não tenho energia para o que vem depois do três.

 

- Estás a chorar porquê?

Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Não te metas nisso.

 

- Vais parar de chorar ou tenho que te dar um motivo para chorares a sério?

E com isto fizeste a miúda chorar ainda mais, se calhar devias era fazer um workshop de parentalidade positiva ou então beber só o copo de gin que está ali à tua espera. De penalti.

07
Jun17

Há dias em que os filhos nos abrem buracos no peito

Susana

Há dias em que os filhos nos abrem buracos no peito e ficamos com o coração à mostra.

 

Consigo lidar relativamente bem com as doenças deles, sendo hipocondríaca acho que desenvolvi um qualquer mecanismo de defesa, para não ficar (ainda mais) à beira da loucura, mas o que me derruba de imediato é sentir que estão tristes. 

 

A impotência de sentir essa tristeza e que alguma coisa ou alguém os magoa, é dos sentimentos mais terríveis que já senti enquanto mãe. E o mais difícil de lidar.

 

A alegria e a tristeza fazem parte da vida e que eles aprendam a lidar com as frustrações, com as contrariedades e com as opiniões dos outros, é essencial para sobreviver neste mundo. Não quero de maneira alguma, que os meus filhos vivam numa bolha, mas ver que aos quatro anos a minha filha está preocupada com o que as amigas vão pensar da roupa que leva vestida, faz-me pensar nos valores que andamos a passar aos miúdos.

 

Quando eu tinha quatro anos vestia o que a minha mãe queria, tinha o corte de cabelo que ela achava melhor e brincava com os brinquedos que ela me podia comprar. Hoje as crianças de quatro anos levam tablets para a escola, sabem se os ténis que as amigas calçam são de marca ou não, se as Barbies são originais, se passam férias no Algarve ou na Costa da Caparica e se os pais têm muito ou pouco dinheiro na conta bancária.

 

As miúdas de quatro anos dizem às outras que os cabelos são feios, que a roupa que elas vestem é feia, que elas são feias, brincam em grupinhos, excluem e são interesseiras, e se por um lado, todos sabemos que as crianças podem ser cruéis, porque não têm filtro, por outro também sabemos que muitos destes comportamentos são fruto da educação, das conversas que ouvem em casa e da forma materialista como muitos escolhem viver a vida. As crianças são esponjas.

 

Hoje a minha filha não quis levar para a escola um vestido que lhe ofereceram e que adorou, porque sabia que as amigas iam falar sobre isso e dizer que era feio. Eu queria que ela o levasse, que não fugisse desse confronto, expliquei que não é importante o que os outros pensam, quando com a minha habitual paciência para os outros o que queria mesmo era dizer-lhe que as amigas são umas estúpidas e que vai encontrar muitas assim ao longo da vida. Que se habitue a mandá-las já à fava! Mas olhei para ela, uma menina de quatro anos que devia estar só preocupada em brincar e aprender e perguntei-lhe mais uma vez se queria levar o vestido. Respondeu que não. Mudámos a roupa para uma saia e uma blusa, ela viu-se ao espelho, sorriu e disse que estava linda.

 

- Estás sempre linda filha, com qualquer roupa ou penteado.

- Eu sei mãe, mas hoje não queria mesmo levar o vestido.

 

A maternidade começa quando sabemos que carregamos um filho na barriga e ainda com eles na nossa barriga temos já todos os cuidados e preocupações, eles nascem e os cuidados e as preocupações continuam, eles vão crescendo e os cuidados e as preocupações continuam. Eles crescem e o nosso coração vai ficando à mostra, desprotegido. Eu sei que mais tarde ou mais cedo ela vai saber defender-se, mas enquanto esse mais tarde ou mais cedo não chega, eu estou assim, com o coração à mostra.

05
Jun17

Eu sou pelas respostas tortas

Susana

As pessoas dizem com cada merda, principalmente às mães, que só alguém que seja muito passivo-agressivo consegue ouvir sem devolver uma resposta torta.

 

- Não está na altura do teu filho deixar de usar chucha?

Claro que está. E já que me lembraste disso, aparece cá em casa logo à noite para o adormeceres sem a porra da chucha.

 

- Os miúdos estão muito habituados a vocês.

O quê? A sério? Nós temos tentado que eles se habituem à vizinha da frente ou aos cães da rua, mas o raio dos miúdos insistem em seguir-nos até casa.

 

- Ela está tão magrinha.

Magríssima! Tem quatro anos e pesa 16 quilos. Estou a prepará-la para o que a sociedade espera das mulheres, faz a dieta paleo e pratica crossfit.

 

- Ele está tão gordinho.

Lá está, os homens podem parecer o Garfield e não faz mal. A comida que devia ser para a irmã vai toda para ele.

 

- Já anda?

Claro que já anda, mas só ao colo.

 

- Não se percebe nada do que ele diz.

É ele e o Trump, é impossível ter uma conversa com crianças.

 

- Se ele não dorme, deixa-o acordado até mais tarde.

Porra, como é que eu nunca pensei nisso. Devo deixá-lo acordado até que horas? Onze, meia noite, três da manhã?

 

- Acho horrível deixares os teus filhos verem o Youtube.

Já que subestimas o poder do Youtube durante uma birra para comer, estás à vontade para aparecer cá em casa à hora do jantar, para que o mais novo te cuspa a sopa na cara.

 

- Estás outra vez com eles em casa? Quem me dera.

Trocamos já. Vens tu limpar vomitado do chão, aspirar ranho, fazer aerossóis, mudar fradas cheias de diarreia, ficar fechada em casa durante quinze dias e aturar birras de manhã à noite. Vens a que horas mesmo?

 

- E só tens dois filhos, se tivesse três ou quatro é que ias ver.

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Se não resultar partam para a violência.

01
Jun17

Parto 1 Vs Parto 2

Susana

FB_IMG_1496187151219.jpg

 

Esta fotografia foi tirada há dois anos, no dia em que deixei o hospital e vim para casa com o meu filho.

 

Era o quarto dia depois da cesariana e eu não estava preparada para as dores horríveis que ainda sentia. O parto da minha filha também tinha sido de cesariana e eu guardava dele memórias que não incluíam dores insuportáveis.

 

A cesariana não foi por opção, nem uma nem outra. A minha filha não deu a volta, estava atravessada (ainda hoje é meio atravessada) e o meu filho, apesar de ter dado a volta, não encaixou, (estava já a mostrar mau feitio).

 

Parece estranho, mas na primeira cesariana estava estupidamente calma. Quando o meu obstetra me disse que ela já não ia dar a volta e era preciso marcar a cesariana eu entrei em pânico, nem o estava a ouvir bem, enquanto ele ligava para o hospital para ver se o bloco de partos tinha disponibilidade para o dia em causa. Quando fui para casa e nos dias a seguir, li tudo o que havia na Internet sobre cesarianas (malucos fundamentalistas não faltam, de um lado e de outro). Quando achei que já sabia tudo o que ia acontecer e todos os riscos parei de ler.

 

A minha filha nasceu às 38 semanas. 

 

No dia o meu marido estava mais nervoso que eu e ia disfarçando enquanto tirava as últimas fotografias à minha barriga. Só me senti estremecer quando me levaram do quarto para o bloco de partos, mas assim que o anestesista começou a explicar-me o que ia acontecer e o que eu ia sentir, voltei ao meu estado estupidamente calmo.

 

Fui anestesiada sem ter sentido dores insuportáveis, durante o parto estive sempre a olhar para o monitor a ver as minhas pulsações, senti impressão quando me estavam a abrir a barriga, senti-me dentro de uma máquina de lavar roupa, enquanto tiravam a minha filha de dentro de mim e tirei os olhos do monitor apenas para a ver nascer ao som dos Coldplay (não tive coragem para dizer ao anestesista que detesto Coldplay, não era hora de fazer inimigos). Ela chorou muito e pouco depois foi-me trazida para eu ver como era igual ao pai. O anestesista pediu-me permissão para ir dizer à minha família que a princesa já tinha nascido e eu fiquei ali deitada a ser cosida e a ouvir os médicos a conversar como se eu não estivesse ali, no que me pareceu uma eternidade.

 

Quando finalmente fui para o recobro só sentia frio, quando a trouxeram para junto de mim eu não sentia qualquer dor, nem quando as enfermeiras me carregavam na barriga para contrair o útero, nem depois quando nos levaram para o quarto. Nunca senti uma dor que não conseguisse suportar e mal começava a sentir uma moinha, já estava na hora de me darem mais drogas. O levante foi feito sem esforço, no dia seguinte levei um ralhete do médico por já estar em pé, ao terceiro dia já dava banho à minha filha sozinha, recebi várias visitas de família e amigos e estava desejosa de ir para casa curtir a minha filha.

 

O parto do meu filho foi um balde de água fria.

 

Como ele deu a volta, os planos passavam por um parto natural. Esperámos o mais possível que o miúdo se metesse a jeito, mas às 41 semanas e 3 dias, lá estava eu para mais uma cesariana.

 

Estava nervosa, como se nunca tivesse passado por aquilo. Mal cheguei ao hospital começaram a preparar-me, porque o bloco de partos ia estar muito concorrido e o meu obstetra não queria ser surpreendido por alguma grávida em trabalho de parto. Ele queria que o meu filho fosse o primeiro a nascer e eu cada vez mais nervosa com tanta pressa. Levaram-me para o bloco e toda eu tremia, era incontrolável.

 

O anestesista demorou imenso para conseguir dar-me a epidural e doeu-me horrores. Durante o parto estive mais uma vez sempre a olhar para o monitor, a mesma impressão na barriga, a mesma sensação de estar no programa de centrifugação de uma máquina de lavar e a mesma emoção quando vi o meu filho nascer, desta vez sem banda sonora. Quando o trouxeram para eu o ver pareceu-me enorme. O anestesista lá foi no seu ritual dar a notícia do nascimento do príncipe e devolveu-me notícias de um pai e uma avó a chorar de emoção.

 

Desde a hora a que ele nasceu até irmos para o recobro demorou a mesma eternidade. No recobro, mais uma vez eu estava a sentir dores que não tinha sentido da primeira vez, quando me carregavam no útero ou quando me tentava mexer para amamentar. Tremia de frio e de nervos. Só queria dormir. O levante foi terrível, passos minúsculos até à casa de banho e para eu não desmaiar as enfermeiras sentaram-me no bidé e molharam-me com o chuveiro. Pensava que morria ali. Voltei para a cama e ao terceiro dia ainda era tudo difícil. Dormir, virar-me, sentar-me, levantar-me, pegar no meu filho, amamentar. Estava sempre a gemer. Tinha de pedir para o deitarem ao meu lado e só estava bem na primeira hora a seguir às drogas. Desta vez não tive visitas, era impossível. Quando a minha filha foi com o pai e a minha sogra ao hospital, eu tinha tantas dores que tive de pedir para se irem embora, porque não queria chorar ao pé da minha filha, que tinha levado gelado para me animar.

 

Não consegui dar banho ao meu filho uma única vez e, no dia em que sai do hospital, queria implorar para que me deixassem levar para casa toda a droga do hospital, mas contive-me. Em casa também demorei mais tempo a conseguir fazer alguma coisa. Se, da primeira vez, no dia seguinte já andava a fazer camas e a meter roupa a lavar, da segunda vez o meu marido estendeu muita roupa e cuidou ainda mais de mim e dos miúdos.

 

Não há dois filhos iguais, nem dois partos iguais e sinceramente, não vale a pena ter muitos planos, como eu tive, porque o corpo é que manda. Muito por culpa desta última experiência, sabendo que teria obrigatoriamente de fazer outra cesariana, não tenho coragem para ter o terceiro filho. Por isso e também porque tenho muito sono e anseio por dormir uma noite inteira daqui a uns anos.

 

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