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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

06
Abr17

A propósito de mais dois dias em casa com o miúdo mais pequeno

Susana

Este texto é dedicado aos pais dos miúdos da escola dos meus filhos.

 

Há dias em que bato, literalmente, com a cabeça na parede.

 

O meu filho mais novo passou a noite a vomitar. Eu e o meu marido tentámos encontrar explicações inócuas. A sopa caiu-lhe mal, parou-lhe a digestão, comeu demais e está maldisposto, não devia ter comido aquele iogurte, etc. Mas, de manhã, depois de lhe dar o leite e ele o vomitar de seguida no tapete da sala, o óbvio tornou-se ainda mais óbvio: apanhou outra vez uma puta de uma virose.

 

E eu bato com a cabeça na parede porquê? Para não bater com a cabeça dos pais dos miúdos da escola dos meus filhos na parede. O raio dos miúdos estão todos doentes outra vez.

 

Ainda na semana passada os meus filhos estiveram os dois doentes com amigdalite, regressaram à escola e dois dias depois, pumba, gastroenterite para o mais novo, vomitado e diarreia para a mãe limpar.

 

Já perdi a conta aos dias em que fico em casa com os meus filhos. Não há mês em que não falte ao emprego e se agora até tenho uma chefia que compreende, no passado não foi bem assim e bem me lixei com isso, mas esse é tema para outro texto, ser mulher, mãe e ter uma carreira. Por agora, voltemos ao vomitado.

 

Quando engravidamos, as outras mães não nos contam esta parte menos fofinha da maternidade. “Ah, vais perder-te a comprar roupas” é o que nos dizem enquanto nos enviam listas de enxoval, fazem festas na nossa barriga, dizem que estamos gigantes e que ser mãe é o melhor do mundo e blá, blá, blá. Do vomitado é que ninguém fala. Do vomitado que vamos limpar do chão ou da diarreia que passa das fraldas para a roupa. Ninguém fala do ranho que vamos aspirar do nariz dos nossos filhos, das bronquiolites, das otites, dos piolhos, das conjuntivites, das pneumonias, das gastroenterites, das faringites, das constipações e das gripes. Ninguém nos diz que o nosso frigorifico vai estar cheio de medicamentos para a febre, para a tosse, para as alergias, para os vómitos, para a falta de ar. Ninguém nos diz que também vamos apanhar essas viroses e que vamos estar doentes e a cuidar dos nossos filhos doentes. Ninguém nos diz que vamos esgotar os dias de assistência à família antes do meio do ano e também ninguém nos diz que há pais que deixam os filhos na escola sabendo que estão doentes, que há pais que dão ben-u-ron aos filhos para camuflar a febre e os deixam na escola.

 

Para esses pais um enorme e caloroso “vão à merda!”

 

Eu sei que é difícil faltar ao trabalho. Sofri todas as consequências por o fazer para cuidar dos meus filhos, não só no ordenado miserável que recebo estando de baixa, mas também na progressão da carreira e na forma como as chefias e colegas nos veem, mas independentemente de tudo isso, sempre fiz o que devia ser feito, não só pelos meus filhos que têm o direito a não estar na escola doentes, mas também pelos filhos dos outros que têm o direito de não serem expostos aos vírus dos meus filhos.

 

Não quero ser injusta, os miúdos ficam doentes e ficam doentes muitas vezes, na escola metem na boca os brinquedos que os outros já meteram na boca, tossem para cima uns dos outros, não lavam as mãos as vezes que deviam e às vezes é mesmo inevitável que se contagiem uns aos outros, é a vida, mas muitas outras vezes é perfeitamente evitável se ficarmos com o raio dos miúdos em casa quando estão doentes.

 

E por agora é tudo. O meu filho acordou da sesta e de certeza que os planos dele passam por vomitar o chão todo outra vez.

 

Texto publicado originalmente no blog Amãezónia.

 

 

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