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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

18
Abr17

Antes de ser mãe fui madrasta

Susana

“Era uma vez uma bela jovem chamada Cinderela que vivia com o seu pai, um comerciante viúvo e muito rico. Cinderela perdera a mãe ainda criança e o seu pai, pensando que Cinderela precisava de uma nova mãe, decidiu casar-se novamente. A madrasta da Cinderela, também era viúva e tinha duas filhas muito feias e muito más, do seu primeiro casamento.”

 

Se pensarmos em madrastas, pensamos imediatamente em todas as histórias terríveis que a Disney nos ofereceu. Pais viúvos, segundas mulheres más como as cobras, crianças infelizes. Antes de ser mãe, fui madrasta.

 

Como tudo começou

 

Quando conheci o meu marido ele estava divorciado e tinha um filho de três anos. Eu era solteira e não tinha filhos. Na altura, nada disto era muito importante, éramos duas pessoas que se estavam a conhecer e sem expectativas em relação ao futuro, mas ver nele um pai que nunca desistiu do filho e por só me ter apresentado o G. mais de um ano depois de nos termos conhecido, ajudou a revelar o homem que tinha ao meu lado. A relação entre pai e filho era sagrada. Tudo o resto podia esperar.

 

E esperámos

 

Eu já conhecia o G. muito antes de nos conhecermos pessoalmente. Já conhecia as brincadeiras preferidas, a adoração pelo Faísca, já lhe oferecia carrinhos da Hot Wheels, conhecia as tosses, as otites, as gracinhas e as birras das férias no Algarve. O momento em que eu e o G. nos conhecemos foi muito importante. Para ele talvez não, dificilmente se terá apercebido do significado, mas darmos aquele passo, significava que os três íamos fazer parte da vida uns dos outros.

 

Construir uma família

 

Construir uma família que para nós é a primeira e para as crianças é a segunda têm de ser feito com pés de lã. Para a criança existia a família da mãe, ele e o pai e agora uma outra família onde existe uma estranha, que não é a mãe, mas que ele tem de respeitar, obedecer e de quem tem de gostar, sem perceber muito bem porquê. Não é fácil. Para mim o mais importante sempre foi que o G. se sentisse em casa, mesmo que só estivesse connosco de quinze em quinze dias e que se fosse libertando dos estímulos negativos em relação a mim. As crianças são esponjas e se o outro lado da família não está resolvido em relação à separação, tudo se torna mais difícil. Somos questionadas, desafiadas e ouvimos algumas vezes o célebre “não mandas em mim, não és a minha mãe”, mas a realidade é que coisas como essa fazem parte da construção da relação com a tal estranha, onde cada um percebe quais são os limites e qual é o seu lugar.

 

Antes e depois de eu ter filhos

 

O G. era filho único. Quando eu e o meu marido decidimos ter filhos, eu imaginei que iria ser difícil para uma criança habituada a ser filha única. E foi. Também o foi para mim. Depois de ser mãe tudo é diferente. Temos ali a nossa cria e como leoas queremos protegê-las de tudo, até daquilo que um bebé não percebe, os ciúmes do irmão mais velho. Foi difícil para todos. Tive de perceber que quase tudo o que o irmão dizia ou fazia eram sentimentos irracionais, à flor da pele, e que ele estava a lidar com todas as mudanças com as ferramentas que tinha. Mea culpa. Acho que falhei em grande com a minha impaciência. Eu era a adulta. Em minha defesa tinha hormonas que me davam cabo da cabeça e uma pequena cria que me parecia em perigo e às vezes só me apetecia puxá-la para um canto e lamber-lhe as feridas (que não tinha) como a mãe do Rei Leão.

 

Com o tempo percebi que os irmãos são irmãos e que a maior parte das vezes resolvem as desavenças sozinhos. Desentendem-se e entendem-se à velocidade da luz, mas que no fundo se amam. Quando o meu filho mais novo nasceu já não havia novidade, quando os ciúmes vieram foram chutados para canto e ignorados. Agora são só três irmãos a serem irmãos, máquinas de fazer barulho, que nos dão cabo da paciência em igual medida.

 

Ser madrasta

 

Quando pensei em escrever este texto pensei que sabia perfeitamente o que é ser madrasta, mas à medida que fui pensando e escrevendo, apercebi-me que não. Percebi que com o G. também fui aprendendo a ser mãe. Com ele passámos pelas coisas pela primeira vez, as férias a três, a ida para a primária, os trabalhos de casa, estudar para os testes, o orgulho com as boas notas, os ciúmes quando a irmã nasceu, corrigir comportamentos, ensinar a atar os ténis, a ida para o ciclo, a terrível pré-adolescência. Com ele sou exigente como sou com os meus filhos e também erro e exagero como com os meus filhos. E se com os meus filhos tenho todos os dias para me redimir dos meus erros, com o G. não tenho e talvez seja essa a maior frustração. A minha impaciência e a falta de tempo para dar mimo a seguir. A minha filha diz que eu também sou um bocadinho mãe do mano crescido, mas ser madrasta não é o mesmo que ser mãe. Temos de o dizer sem receios. O amor entre pais e filhos é um amor diferente, visceral e para esse amor existem os pais e os filhos. O amor entre madrasta e enteado é um amor que se vai construindo, como uma casa e se os alicerces forem sólidos é um amor que dura para sempre. Assim o desejo.

 

Texto publicado originalmente no blog Amãezónia.

 

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