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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

24
Mai17

Desculpa filho, não foste planeado

Susana

Já estava doente há duas semanas. Todos os dias tinha diarreia. Hipocondríaca como sou, sabia que estava à beira da morte, só era preciso descobrir qual a doença que me iria matar. Farta de estar à espera, numa segunda-feira de manhã, depois de chegar ao trabalho e de me sentir cada vez mais fraca, fui às urgências do Hospital da Luz. 

 

Fui atendida por uma médica que, entre várias perguntas, quis saber se eu poderia estar grávida. Respondi logo que não, acho até que gritei. Nem pensar, eu tomava a pílula. Notei-lhe um ligeiro ar de gozo. Imagino que já tivesse ouvido a mesma resposta centenas de vezes. Fiquei irritadíssima, não sou uma adolescente, caraças, eu sei o que é o planeamento familiar, tomo a pílula desde que me conheço mulher.

 

A minha indignação não durou as três horas que esperei pelos resultados das análises que a médica me tinha mandado fazer. Quando me recebeu no gabinete com um sorriso de orelha a orelha, já eu tinha esquecido a pergunta que me tinha feito. Mas ela não. Como não tinha ficado convencida da minha certeza absoluta e como poderia ser preciso fazer mais exames, entre as várias análises que pediu, estava um teste de gravidez.

 

- Parabéns, está grávida!

 

Raio da médica, eu estive três horas na sala de espera a ler revistas cor de rosa e ela esteve três horas nos copos.

 

Eu tomava a pílula, que parte é que ela não percebeu? Ela insistiu que o resultado era aquele e eu insisti que não podia ser. Farta de mim, ligou para a obstetrícia para confirmar se o que ela estava a ver era mesmo o que ela estava a ver, disseram-lhe que sim, ela deu-me as análises e, novamente com aquele ar de gozo, mandou-me ir à obstetrícia que já estavam à minha espera.

 

Enquanto eu pensava se devia ir ou fugir daquele manicómio, uma assistente segurou-me o braço e, com um sorriso típico dos hospitais privados, levou-me à obstetrícia.

 

Lá se tinha ido a minha hipótese de fuga.

 

Na obstetrícia, para não restarem dúvidas, fizeram-me uma ecografia e lá estava a confirmação: um saquinho bem redondinho dentro do meu útero. A minha cara de felicidade devia ser tão evidente que a médica me disse para ter calma, que ainda estava no início e que a decisão de continuar com a gravidez seria minha.

 

Eu estava calmíssima, ou pelo menos fingi bem o suficiente para me deixarem sair do hospital rapidamente.

 

A primeira coisa que fiz foi ligar para o meu marido. Pouco tempo antes tínhamos falado sobre ter mais filhos e ambos concluímos que dificilmente isso iria acontecer. Gostávamos de dar mais um irmão à nossa filha, (ela já tinha o mano mais velho, o meu enteado), mas ter filhos é caro, a mensalidade da creche, as fraldas, as vacinas, o pediatra, a renda da casa, a pensão de alimentos, bla, bla, bla, bla. Tomem lá e embrulhem.

 

O meu estado de espirito era o de quem estava a comunicar uma fatalidade, um olha não sei como é que esta merda aconteceu, desculpa lá qualquer coisinha e o meu marido do outro lado a rir, genuinamente feliz, que venha com saúde, disse ele. Também esteve a beber com a médica, só pode. Então e as contas? Nós fizemos contas, como é que vamos conseguir?

 

Quando desligámos, liguei para a minha mãe e chorei, chorei, chorei, chorei tanto. Só pensava na minha filha. Era tão pequenina, ainda era tão bebé. O que é que eu lhe fui fazer? E a minha mãe ria, genuinamente feliz e eu só me lembro de andar dentro do Colombo às voltas a chorar e a dizer-lhe para não estar feliz.

 

Nesse dia senti-me atropelada pela vida. Não era nada disto que eu tinha planeado, mas desde esse dia, em que a vida mandou as minhas certezas absolutas para as urtigas e escolheu outro caminho, que eu sou ainda mais feliz.

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