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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

13
Mar17

E quando somos umas bestas para os nossos filhos?

Susana

O episódio que vos vou relatar é uma ode à besta que vive dentro de mim e tudo o que posso dizer em minha defesa é que tenho muito sono, o meu marido está fora do país em trabalho e a minha filha fez quatro anos esta semana.

 

Se pensam que os três anos são terríveis, são tão parvos como eu fui, os quatro anos vão rebentar com a vossa sanidade mental.

 

As birras dos quatros anos têm um turbilhão de emoções, questões existenciais, gritos de “eu já sou crescida”, pedidos de desculpa entre abraços e soluços, pontapés no ar, ainda mais gritos de “eu é que sei o que quero” e muitos “não sei porque estou triste”. Esta merda não devia chegar só na adolescência?

 

A verdade é que levei com os quatro anos em cheio na tromba e fiz merda.

 

A tempestade começou a formar-se no dia em o pai viajou, mas atingiu o auge no sábado de manhã. A miúda estava a ver televisão e eu fui incomodá-la com intenções de lhe dar banho. Para quê? O cabelo ainda cheirava bem e tinha começado naquele momento a ver a Masha e o Urso. Eu devia ter percebido que ia dar merda. Gritos, porquês, lágrimas, só à força a enfiei no poliban. Lixada da vida, depois do banho foi embirrar com o irmão. Dois irmãos sentados a partilhar os brinquedos, que sonho lindo. Os brinquedos eram os dele, mas ela chegou primeiro e até sabe que ele quer brincar com outra coisa. Não quer. Mais gritos, choros, brinquedos a voar e juras de também nunca mais te vou emprestar os meus brinquedos. O dia ainda nem estava a meio.

 

Pausa para respirar.

 

Almoçou relativamente tranquila, ficou quase tudo no prato, mas a minha cabeça já estava a estalar e ignorei. Nada de sesta porque já é muito crescida para essas merdas de dormir ao fim-de-semana e a minha cabeça a querer bater na parede de tanto os ouvir gritar um com o outro. Porque raio não há escola ao fim-de-semana? Chegámos à noite. Vão jantar e dormir, o pior já passou. Ingénua. A minha filha estava a ver qualquer coisa no youtube em inglês e pergunta-me se é em brasileiro, eu digo que não, ela insiste que é brasileiro, eu digo outra vez que não e ela grita, eu digo-lhe para não gritar e ela diz que faz o que quiser, eu volto a dizer para não gritar e ao mesmo tempo o irmão ri-se enquanto despeja no chão o copo de água que estava a beber.

 

A besta que há em mim não aguentou e deixou saltar cá para fora um enorme merda que já me estou a passar com isto tudo e vão-se embora daqui imediatamente para eu limpar isto.

 

Nem tive tempo para me arrepender.

 

- Mãe, não é assim que se fala com os filhos.

 

Puta que pariu, eu fiz merda e a miúda reparou. Era para isto que ela queria fazer quatro anos? Abracei-a, pedi-lhe desculpa e chorei. Pela primeira vez chorei à frente dos meus filhos. Sou uma besta. A minha filha consolou-me, disse-me que não faz mal, que às vezes dizemos coisas que não sentimos. Eu voltei a pedir desculpa.

 

- Não te enerves mais comigo e com o mano, prometes mãe?

 

Onde raio foi ela buscar tanta calma? Ainda há bocado estava aos gritos comigo e agora nem uma lágrima. Esta merda só pode ter sido uma armadilha. Eu envergonhada e sem o dom de voltar atrás e apagar da memória dela aquele minuto infeliz, disse que sim a tudo, prometi tudo.

 

Será que era isto que ela queria?

 

Este texto repete muitas vezes a palavra merda, peço desculpa, mas a verdade é que as merdas são para serem ditas.

 

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