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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

07
Jun17

Há dias em que os filhos nos abrem buracos no peito

Susana

Há dias em que os filhos nos abrem buracos no peito e ficamos com o coração à mostra.

 

Consigo lidar relativamente bem com as doenças deles, sendo hipocondríaca acho que desenvolvi um qualquer mecanismo de defesa, para não ficar (ainda mais) à beira da loucura, mas o que me derruba de imediato é sentir que estão tristes. 

 

A impotência de sentir essa tristeza e que alguma coisa ou alguém os magoa, é dos sentimentos mais terríveis que já senti enquanto mãe. E o mais difícil de lidar.

 

A alegria e a tristeza fazem parte da vida e que eles aprendam a lidar com as frustrações, com as contrariedades e com as opiniões dos outros, é essencial para sobreviver neste mundo. Não quero de maneira alguma, que os meus filhos vivam numa bolha, mas ver que aos quatro anos a minha filha está preocupada com o que as amigas vão pensar da roupa que leva vestida, faz-me pensar nos valores que andamos a passar aos miúdos.

 

Quando eu tinha quatro anos vestia o que a minha mãe queria, tinha o corte de cabelo que ela achava melhor e brincava com os brinquedos que ela me podia comprar. Hoje as crianças de quatro anos levam tablets para a escola, sabem se os ténis que as amigas calçam são de marca ou não, se as Barbies são originais, se passam férias no Algarve ou na Costa da Caparica e se os pais têm muito ou pouco dinheiro na conta bancária.

 

As miúdas de quatro anos dizem às outras que os cabelos são feios, que a roupa que elas vestem é feia, que elas são feias, brincam em grupinhos, excluem e são interesseiras, e se por um lado, todos sabemos que as crianças podem ser cruéis, porque não têm filtro, por outro também sabemos que muitos destes comportamentos são fruto da educação, das conversas que ouvem em casa e da forma materialista como muitos escolhem viver a vida. As crianças são esponjas.

 

Hoje a minha filha não quis levar para a escola um vestido que lhe ofereceram e que adorou, porque sabia que as amigas iam falar sobre isso e dizer que era feio. Eu queria que ela o levasse, que não fugisse desse confronto, expliquei que não é importante o que os outros pensam, quando com a minha habitual paciência para os outros o que queria mesmo era dizer-lhe que as amigas são umas estúpidas e que vai encontrar muitas assim ao longo da vida. Que se habitue a mandá-las já à fava! Mas olhei para ela, uma menina de quatro anos que devia estar só preocupada em brincar e aprender e perguntei-lhe mais uma vez se queria levar o vestido. Respondeu que não. Mudámos a roupa para uma saia e uma blusa, ela viu-se ao espelho, sorriu e disse que estava linda.

 

- Estás sempre linda filha, com qualquer roupa ou penteado.

- Eu sei mãe, mas hoje não queria mesmo levar o vestido.

 

A maternidade começa quando sabemos que carregamos um filho na barriga e ainda com eles na nossa barriga temos já todos os cuidados e preocupações, eles nascem e os cuidados e as preocupações continuam, eles vão crescendo e os cuidados e as preocupações continuam. Eles crescem e o nosso coração vai ficando à mostra, desprotegido. Eu sei que mais tarde ou mais cedo ela vai saber defender-se, mas enquanto esse mais tarde ou mais cedo não chega, eu estou assim, com o coração à mostra.

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