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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

23
Ago17

Labirintos, princesas e indignações de três dias

Susana

Se a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género se dedicasse a analisar com seriedade aquilo que se passa nas empresas e deixasse os livros que são comprados pelos pais, sem que alguém lhes aponte uma arma à cabeça, é que fazia bem.

 

A Mariana tem um livro de colorir da Minnie e o Tiago tem um do Mickey. A Mariana tem um livro de actividades da Frozen, o Tiago tem um da Patrulha Pata. A Mariana tinha uma escova de dentes cor de rosa e o Tiago uma azul, agora a Mariana tem uma verde e o Tiago uma azul. Continuam a lavar os dentes como sempre lavaram. A Mariana tem vários Nenucos, o Tiago tem vários carrinhos. A Mariana gosta de ver o Ruca, o Tiago gosta de ver a Masha e o Urso. A Mariana gosta de pulseiras, relógios, fios, ganchos e de meter batom, o Tiago também. A Mariana gosta de brincar com os Nenucos, com puzzles, com os carrinhos, com os legos, gosta de pintar, de livros e de fazer bolas de sabão, o Tiago também. A Mariana sonha com o dia em que vai poder conduzir, o Tiago ainda não pensa no assunto, mas gosta de empurrar os carrinhos de bebé da irmã. A Mariana diz que vai ser médica, professora, mãe e que vai precisar de um pai para os filhos, o Tiago ainda não pensa sobre o assunto, mas gosta de vestir os Nenucos da irmã, de lhes dar comer e mudar a fralda. A igualdade de género não começa nos brinquedos de menina ou menino ou nos livros para menina ou menino. O problema está mais à frente. Está na forma como a sociedade olha para as mulheres e esse olhar é condicionado pela maternidade. Somos um empecilho nas empresas. Menstruamos, sofremos de tensão pré menstrual, (essa frescura de gajas), engravidamos, parimos e ficamos em casa com os filhos em casa quando estão doentes.

 

Nos dias de hoje falamos muito sobre machismo. Ou gritamos muito sobre machismo. Tudo é machismo. Tudo é um ataque brutal contra as mulheres, pobres coitadas de nós. Um elogio, um piropo, um livro de atividades com princesas e labirintos mais fáceis. Continuem a indignar-se com a falta de gosto das editoras e não procurem educar os vossos filhos pelo exemplo, não exijam mais de quem nos governa e de vocês próprios. Em vez de perderem o vosso tempo em indignações de três dias, perguntem-se onde estão as mulheres nas empresas, na administração pública, no governo. Perguntem-se quanto ganham os homens que trabalham ao vosso lado e quanto ganham vocês. Perguntem-se quantos degraus eles subiram na empresa e quantos degraus subiram vocês. Por muitas marias capazes que existam e por muito que gritem, enquanto não for compreendido pelas mulheres e pela sociedade em geral, que a condição da mulher está desde sempre ligada à maternidade nada vai mudar.

 

Eu sou mulher, mãe, trabalhadora e feminista e acredito que há muito por fazer pelas mulheres, não me parece é que estar a gritar a toda a hora lobo, vá fazer alguma coisa por nós. Mas se quiserem continuem a gritar.

 

A propósito da mais recente indignação a incendiar as redes sociais.

 

 

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