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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

21
Mar17

"Mãe, achas que é justo brincar sozinha?"

Susana

– Mãe, achas que é justo brincar sozinha?

 

Ontem na hora da história para dormir, (uma história da minha boca e não dos livros, como ela me pediu), de luz apagada, as duas de mãos dadas deitadas na cama dela e esta frase que se espetou no meu coração.

 

– Não, filha, não é justo.

 

As lágrimas começaram a escorrer pela minha cara.

 

– Quando as minhas amigas levam brinquedos para a escola não me deixam brincar com elas.

 

Estúpidas! Não querem brincar com a minha filha porquê?

 

– Não brincam comigo e eu tenho que brincar sozinha.

 

Egoístas! Será que lhes posso bater? Ou nas mães delas? Posso bater em alguém?

 

Abracei-a com força, expliquei-lhe que, às vezes, as amigas fazem coisas que nos deixam tristes, mas continuam a ser nossas amigas. Brinca com as outras meninas, não dês importância. Pediu-me para acabar de contar a história e adormeceu tranquilamente.

 

Eu chorei até adormecer. Imaginei todos os cenários. A minha filha triste, a sentir-se de parte, a brincar sozinha a um canto. Pareceu-me mais pequenina, a minha bebé. O que posso fazer? Ficar com ela em casa para sempre? Mudá-la de escola? Ensinar-lhe uma arte marcial?

 

Pela primeira vez senti-me impotente, uma péssima mãe. A minha filha está a sofrer e eu não dei por nada. Alguém que me bata. Nem quando eles estão doentes eu me sinto assim. Estas desilusões não se curam com antibióticos ou xaropes para a tosse, como é que a vou proteger?

 

De manhã falei com a educadora: a minha filha não passa o dia sozinha e triste, ela brinca com as amigas que não quiseram brincar com ela naquele dia, brinca com os outros, brinca com a educadora, brinca sozinha. Ao que parece a minha filha é tão dramática como eu. Está tudo bem.

 

Está tudo bem, está tudo bem, é o que continuo a repetir, mas o meu coração de mãe mudou. Os meus filhos vão sofrer desilusões ao longo da vida e eu não os vou conseguir proteger. O meu amor não vai ser suficiente. Esta certeza terrível chegou aos três anos e meio da minha filha e é esta certeza que me dói, a certeza de que muitas vezes não vou poder fazer mais que os abraçar.

 

– Filha, achas que é justo eu sentir esta dor?

 

Texto publicado originalmente no blog Amãezónia.

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