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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

01
Jun17

Parto 1 Vs Parto 2

Susana

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Esta fotografia foi tirada há dois anos, no dia em que deixei o hospital e vim para casa com o meu filho.

 

Era o quarto dia depois da cesariana e eu não estava preparada para as dores horríveis que ainda sentia. O parto da minha filha também tinha sido de cesariana e eu guardava dele memórias que não incluíam dores insuportáveis.

 

A cesariana não foi por opção, nem uma nem outra. A minha filha não deu a volta, estava atravessada (ainda hoje é meio atravessada) e o meu filho, apesar de ter dado a volta, não encaixou, (estava já a mostrar mau feitio).

 

Parece estranho, mas na primeira cesariana estava estupidamente calma. Quando o meu obstetra me disse que ela já não ia dar a volta e era preciso marcar a cesariana eu entrei em pânico, nem o estava a ouvir bem, enquanto ele ligava para o hospital para ver se o bloco de partos tinha disponibilidade para o dia em causa. Quando fui para casa e nos dias a seguir, li tudo o que havia na Internet sobre cesarianas (malucos fundamentalistas não faltam, de um lado e de outro). Quando achei que já sabia tudo o que ia acontecer e todos os riscos parei de ler.

 

A minha filha nasceu às 38 semanas. 

 

No dia o meu marido estava mais nervoso que eu e ia disfarçando enquanto tirava as últimas fotografias à minha barriga. Só me senti estremecer quando me levaram do quarto para o bloco de partos, mas assim que o anestesista começou a explicar-me o que ia acontecer e o que eu ia sentir, voltei ao meu estado estupidamente calmo.

 

Fui anestesiada sem ter sentido dores insuportáveis, durante o parto estive sempre a olhar para o monitor a ver as minhas pulsações, senti impressão quando me estavam a abrir a barriga, senti-me dentro de uma máquina de lavar roupa, enquanto tiravam a minha filha de dentro de mim e tirei os olhos do monitor apenas para a ver nascer ao som dos Coldplay (não tive coragem para dizer ao anestesista que detesto Coldplay, não era hora de fazer inimigos). Ela chorou muito e pouco depois foi-me trazida para eu ver como era igual ao pai. O anestesista pediu-me permissão para ir dizer à minha família que a princesa já tinha nascido e eu fiquei ali deitada a ser cosida e a ouvir os médicos a conversar como se eu não estivesse ali, no que me pareceu uma eternidade.

 

Quando finalmente fui para o recobro só sentia frio, quando a trouxeram para junto de mim eu não sentia qualquer dor, nem quando as enfermeiras me carregavam na barriga para contrair o útero, nem depois quando nos levaram para o quarto. Nunca senti uma dor que não conseguisse suportar e mal começava a sentir uma moinha, já estava na hora de me darem mais drogas. O levante foi feito sem esforço, no dia seguinte levei um ralhete do médico por já estar em pé, ao terceiro dia já dava banho à minha filha sozinha, recebi várias visitas de família e amigos e estava desejosa de ir para casa curtir a minha filha.

 

O parto do meu filho foi um balde de água fria.

 

Como ele deu a volta, os planos passavam por um parto natural. Esperámos o mais possível que o miúdo se metesse a jeito, mas às 41 semanas e 3 dias, lá estava eu para mais uma cesariana.

 

Estava nervosa, como se nunca tivesse passado por aquilo. Mal cheguei ao hospital começaram a preparar-me, porque o bloco de partos ia estar muito concorrido e o meu obstetra não queria ser surpreendido por alguma grávida em trabalho de parto. Ele queria que o meu filho fosse o primeiro a nascer e eu cada vez mais nervosa com tanta pressa. Levaram-me para o bloco e toda eu tremia, era incontrolável.

 

O anestesista demorou imenso para conseguir dar-me a epidural e doeu-me horrores. Durante o parto estive mais uma vez sempre a olhar para o monitor, a mesma impressão na barriga, a mesma sensação de estar no programa de centrifugação de uma máquina de lavar e a mesma emoção quando vi o meu filho nascer, desta vez sem banda sonora. Quando o trouxeram para eu o ver pareceu-me enorme. O anestesista lá foi no seu ritual dar a notícia do nascimento do príncipe e devolveu-me notícias de um pai e uma avó a chorar de emoção.

 

Desde a hora a que ele nasceu até irmos para o recobro demorou a mesma eternidade. No recobro, mais uma vez eu estava a sentir dores que não tinha sentido da primeira vez, quando me carregavam no útero ou quando me tentava mexer para amamentar. Tremia de frio e de nervos. Só queria dormir. O levante foi terrível, passos minúsculos até à casa de banho e para eu não desmaiar as enfermeiras sentaram-me no bidé e molharam-me com o chuveiro. Pensava que morria ali. Voltei para a cama e ao terceiro dia ainda era tudo difícil. Dormir, virar-me, sentar-me, levantar-me, pegar no meu filho, amamentar. Estava sempre a gemer. Tinha de pedir para o deitarem ao meu lado e só estava bem na primeira hora a seguir às drogas. Desta vez não tive visitas, era impossível. Quando a minha filha foi com o pai e a minha sogra ao hospital, eu tinha tantas dores que tive de pedir para se irem embora, porque não queria chorar ao pé da minha filha, que tinha levado gelado para me animar.

 

Não consegui dar banho ao meu filho uma única vez e, no dia em que sai do hospital, queria implorar para que me deixassem levar para casa toda a droga do hospital, mas contive-me. Em casa também demorei mais tempo a conseguir fazer alguma coisa. Se, da primeira vez, no dia seguinte já andava a fazer camas e a meter roupa a lavar, da segunda vez o meu marido estendeu muita roupa e cuidou ainda mais de mim e dos miúdos.

 

Não há dois filhos iguais, nem dois partos iguais e sinceramente, não vale a pena ter muitos planos, como eu tive, porque o corpo é que manda. Muito por culpa desta última experiência, sabendo que teria obrigatoriamente de fazer outra cesariana, não tenho coragem para ter o terceiro filho. Por isso e também porque tenho muito sono e anseio por dormir uma noite inteira daqui a uns anos.

 

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