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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

20
Jun17

Que ninguém se cale!

Susana

Eu quero escrever, tenho tanto para escrever. Escrevo e apago, mas tudo me parece insignificante perante sessenta e quatro vidas perdidas. Os miúdos começaram a praia e o meu coração fica sempre pequeno. A morte está por todo o lado. As fotografias de famílias inteiras que se perderam para sempre. Tantas crianças. Passamos férias todos os anos em casas de turismo rural, podíamos ser nós numa estrada qualquer a tentar sobreviver. Daqui a pouco mais de um mês faço trinta e oito anos. Os últimos anos passaram a correr. Culpa dos filhos que crescem e nos fazem velhos sem darmos conta. A vida passa e nós presos na rotina dos dias. E para quê? Hoje o metro estava parado e eu tive de ir a pé dos barcos até ao Rossio. Lisboa é sempre mais bonita quando a vejo longe da correria do barco e dos encontrões do metro. Olhei o Tejo, a minha margem sul, o arco da Rua Augusta e o céu azul. Respirei fundo e pensei que os miúdos já deviam estar a caminho da praia. Alguém morreu hoje no metro e por isso eu vi Lisboa como não a vejo todos os outros dias. O ar está irrespirável. Ouvimos as notícias e é sempre mau demais, cada história de sobrevivência, cada história que não teve um final feliz. Só vejo fumo e labaredas. E as crianças. Estão a vender figos aqui na rua ao pé do meu trabalho, quase que comprei, mas olhei para eles e vi-me pequena a comer figos sentada à sombra da figueira do meu avô. Nunca mais comi figos tão doces. O meu avô morreu e a figueira morreu com ele. Que ninguém se cale perante esta tragédia. Estamos quase de férias.

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