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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

08
Mai17

Questões existenciais

Susana

A ver uma fotografia minha e do pai:

 

- Onde é que eu estava quando tiraram aquela fotografia?
- Ainda não tinhas nascido.
- Estava na tua barriga?
- Ainda não.
- Então onde é que eu estava?

 

As questões existenciais têm sido uma constante. Onde é que ela estava quando eu nasci, para onde foi o gato que estava morto na rua, onde é que o irmão estava antes de estar na minha barriga, se há vida nos outros planetas ou só no nosso e porque é que o tempo passa. Diz também que a lua é o sitio onde está a avó do pai e que nunca vai querer morrer porque quer ficar com a família dela para sempre. Pede muitas vezes para eu a abraçar e prometer que a vou proteger de tudo. E eu digo que sim.

 

Ela ainda não sabe, mas eu sei que não a vou conseguir proteger de tudo, nem vou ter resposta para as questões que hoje vou respondendo como se estivéssemos num conto de fadas. A vida não é um conto de fadas, mas aos quatro anos ela ainda pode acreditar em sapatinhos de cristal, em princesas que com um beijo transformam sapos em príncipes, em bruxas más e meias-irmãs feias e malvadas.

 

Eu é que já não posso acreditar e penso muitas vezes naquele momento em que perdemos a inocência e a ideia da morte passa a viver connosco para sempre. Ainda me lembro da dor terrível e do desespero que senti da primeira vez que tomei consciência do fim, do meu e dos que amo. Um sentimento que só aliviou com o nascimento dos meus filhos e que me invade novamente com as perguntas feitas pela minha filha.

 

Eu não acredito em Deus, em igrejas ou religiões e talvez para quem não crê seja ainda mais difícil acalmar essa dor em nós e nos nossos filhos porque não tenho histórias bíblicas e paraísos para lhes oferecer. Talvez a religião sirva como um ansiolítico que nos acalma as angústias e torna o mundo um lugar mais fácil. Não sei, nunca experimentei esse sentimento porque, por muito que tente, não vejo mais do que aquilo que os meus olhos alcançam.

 

Um dia as perguntas dos meus filhos deixarão de poder ter respostas inocentes, o gato morto continuará morto para sempre e vai doer-lhes, como me doeu a mim e eu não poderei fazer mais que os amar e abraçar, como a minha mãe o fez a mim tantas vezes. O amor não cura tudo, mas é a melhor ferramenta que tenho.

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