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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

06
Jun18

Podem chamar-me princesa que eu deixo

Susana

Olho para a polémica em torno do anúncio da DGS de que as princesas não fumam e não sei se ria ou se chore, por um lado dá-me vontade de rir que uma mulher se incomode ou que se sinta diminuída por lhe chamarem princesa, é quase o mesmo que dizer que é menos respeitável por usar minissaia ou pintar os lábios com bâton vermelho, por outro dá-me vontade de chorar por não ver as mesmas mulheres se indignarem com questões realmente discriminatórias.

 

Pensem comigo, ganhamos menos que os homens, não progredimos na carreira de igual forma, somos discriminadas quando somos mães, gastamos mais horas que os homens nas tarefas domésticas e a cuidar dos filhos, os números da violência doméstica mostram-nos uma guerra civil, somos discriminadas nos cuidados de saúde, pensem em como a nossa dor é encarada em comparação à dor dos homens, somos vítimas de assédio sexual e moral no local de trabalho e a indignação passa por um anúncio, que por sinal se dirige a um grupo onde o consumo de tabaco continua a aumentar, porque se atreve a chamar a uma criança de princesa?

 

Como se uma mulher seja hoje condicionada por ter sido chamada de princesa, ter vestido saias, brincado com loiças, bonecas, usado folhos, laços no cabelo, por gostar de cor-de-rosa, dos saltos altos da mãe ou de brincos e maquilhagem. Que canseira.

 

Existem várias coisas que nos são mostradas neste anúncio, umas bem e outras não tão bem conseguidas: é um anúncio feito para mulheres, sobre a nossa saúde e não sobre pensos higiénicos, pensaram em nós para variar, as mulheres fumadoras continuam a aumentar e é preciso falar sobre isso, fumar em frente aos filhos é um mau exemplo e para explicar isso o pai também podia estar a fumar e explora a culpa materna e as mães são peritas em sentir culpa, não precisavam desta ajuda extra, mas se os meios justificarem os fins, por mim é passar o anúncio a toda a hora e falar sobre o assunto que realmente interessa: o tabagismo.

 

Mas, escolheu-se olhar para este anúncio e discutir questões de linguagem, optou-se pelo politicamente correto e pelo policiamento do que pode ou não ser dito, do que discrimina ou não uma mulher, pela indignação capaz de lápis azul na mão e pela queixa à CIG, que obviamente não deve ter mais nada que fazer e não se falou de saúde ou de tabagismo. Optou-se por ridicularizar o feminismo e tanto que é necessário um feminismo a sério na nossa vida.

 

Quanto a mim, podem chamar-me princesa que eu deixo, continuem a preocupar-se com a minha saúde e já agora façam com que me paguem um ordenado equivalente ao dos homens.

 

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05
Jun18

Estou farta de cocó na fralda!

Susana

Vou escrever sobre cocó, quem não aguentar o cheiro é melhor voltar mais tarde, não demora muito.

 

Agora nós, digam a verdade, a nossa vida não seria mais fácil se os miúdos viessem com o programa de desfralde incluído? Temos tanta coisa com que lidar, birras, viroses, respostas tortas, crises existenciais, noites sem dormir, paciência rebentada e ainda temos que limpar xixi e cocó do chão enquanto não aprendem a ir à sanita. O mundo não é justo para as mães.

 

Quando o meu filho nasceu a minha filha tinha dois anos e dois meses, eu estava de licença de maternidade e o que havia de melhor para fazer com um recém-nascido nos braços do que tirar as fraldas à miúda? Imensa coisa que não envolvia uma esfregona, mas felizmente, tirando uns xixis e cocós no chão precisamente quando eu estava a amamentar, a coisa deu-se e numa semana a miúda já não usava fraldas durante o dia e passado um mês de fralda seca à noite deixou as fraldas de vez.

 

Demorou apenas uma semana, apesar de a meio da semana eu pensar que ia ficar maluca, na escola não fazia xixi nas cuecas e em casa até fazia cocó no chão. Nenhuma recompensa resultava, nem autocolantes, nem cuecas bonitas, nem palmas, nem abraços, nem o “viva és a maior", a coisa só se deu quando após cada cocó na sanita eu a deixava fazer um desenho nos azulejos da casa de banho. Não sei como me lembrei disto, mas resultou e antes limpar azulejos que cocó.

 

O meu filho já fez os três anos e eu já fiz três tentativas de lhe tirar as fraldas, mas o raio do miúdo não está a colaborar. Nem em casa, nem na escola, o que me faz sentir um pouco menos naba do desfralde. Não pede para ir à sanita, se perguntamos se quer ir diz que não, vai para um canto quando quer fazer cocó em paz, não diz quando tem a fralda suja, chega a dizer que não tem cocó quando o cheiro nos diz claramente que tem e detesta mudar a fralda, esperneia, vira-se, chora, parece que lhe estamos a tirar o bem mais precioso.

 

Estou tão farta de cocó na fralda, que tentei dar uma de parentalidade positiva aplicada ao cocó e conversei com ele, mostrei os benefícios de deixar as fraldas, dei o exemplo da irmã, comprei cuecas da Patrulha Pata e quando tudo falhou tentei suborná-lo com uma bicicleta e a verdade é que continuo a mudar fraldas cheias de cocó mal cheiroso.

 

Pausa para choramingar.

 

Esta conversa toda porque vamos dar início à quarta tentativa de desfraldada - quarta tentativa - e eu acendi uma vela aos deuses da paciência que eu já estou por tudo, até deixá-lo usar fraldas até à faculdade.

 

Desejem-me sorte e assim.

 

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28
Mai18

Filho surpresa

Susana

A vida chegou ao pé de mim e disse-me:

 

- Parabéns, está grávida!

 

Eu esperneei, raios partam a vida, eu não planeei nada disso, ela que fosse lá dar voltas para outro lado que o meu caminho era outro. A vida não foi em cantigas, agarrou-me com força e garantiu-me que eu não mandava nela.

 

Há três anos o meu filho nasceu e com ele eu nasci mãe outra vez.

 

Nasci mãe de um filho surpresa, de um filho que me tortura com sono, de um filho a vida é que sabe, de um filho não dou beijos, de um filho espalha brinquedos pelo chão, de um filho como é que é possível acordar tão bem disposto, de um filho medricas como a mãe, de um filho sorriso que afasta o sono, de um filho irmão tão amado, de um filho quer bolachas, de um filho menino do papá, de um filho canta e dança, de um filho sol, de um filho que testa os limites do meu piloto automático, de um filho mamãzinha linda do meu coração.

 

Têm sido três anos de uma viagem alucinante, o tempo passa a correr e eu não tenho a certeza de ter dado conta de tudo o que vivi, a verdade é que nunca me senti tão cansada, nunca tive tanto sono e nunca fui tão feliz.

10
Mai18

Ser mãe e este sabor amargo

Susana

Quando eu era miúda, um pouco mais velha que a minha filha, andei na ginástica rítmica, acho que era este o nome pomposo que se dava ao que fazíamos na velha coletividade do bairro. Faltava-me o jeito, os óculos escorregavam-me da cara e tinha o mesmo sentido de ritmo que um pinguim coxo e míope. Apesar de tudo, eu lá andava no meio das que tinham algum jeito, de olhos no chão a tentar passar despercebida, enquanto esperava que os óculos não caíssem e a música acabasse depressa para eu sair do palco. Aquilo era penoso, verdadeiramente penoso. Era impossível executar um passo de dança sem pensar no que estava a fazer, no que os outros estavam a ver, no que sentiam e no que eu sentia por me estarem a ver.

 

No outro dia a minha filha teve um sarau. Nos dias anteriores percebi-lhe o nervosismo. As birras ao final do dia, o choro fácil, a voz a tremelicar enquanto me perguntava se já tinha comprado a saia de tule amarelo. Conheço-a de cor. Quando o dia do sarau chegou, a primeira coisa que me disse foi que não queria ir. Ainda na cama, de braços cruzados e de lágrimas nos olhos, tudo o que ela queria era ficar longe dos olhares dos outros. Protegida. Chorou para sair da cama, chorou a tomar o pequeno-almoço, chorou a lavar os dentes, chorou a vestir-se, chorou a pentear-se. Eu conversei com ela, o pai também. Contei-lhe a minha experiência de pinguim, o pai contou-lhe a experiência de guarda-redes falhado, falámos sobre responsabilidade, sobre desiludir os outros, porque o par dela da dança ia ficar triste por não dançar, sobre não ter medo de errar e que basta fazer sempre o nosso melhor e, ainda assim, ela não parou de chorar, de dizer que não ia. Disse-o tantas vezes. Sentimo-nos frustrados por a ver nervosa, por não a conseguirmos acalmar e fazê-la compreender apenas com o dom das nossas palavras que era só um sarau. Confesso que o meu coração de mãe teve vontade de a abraçar e de lhe dizer que não ia, que ia ficar em casa protegida do medo de falhar, que ficava na redoma onde não entra essa consciência dela e dos outros, onde não se sente nervosa por ser o centro das atenções. Foi por muito pouco. Mas, abracei-a com força, disse-lhe que tinha que ir, que estavam a contar com ela. Ela continuou a chorar. Chorou a sair de casa, chorou no caminho até lá, chorou lá, não fez uma das apresentações, conseguiu acalmar-se e dançou com a sua saia de tule amarelo.

 

Senti cada lágrima da minha filha, estava a vê-la e a ver-me a mim de olhos no chão, sei exatamente o que ela estava a sentir, reconheço aquela incapacidade de se soltar por completo, de ser ela por inteiro, sei que a balança pendeu mais para o lado do sofrimento do que para o do divertimento, sei que podia tê-la abraçado e ficado em casa – não tinha importância, era só um sarau, ela é só uma criança, mas eu também sou só uma mãe a aprender a ser mãe, a fazer escolhas pelos meus filhos. E se de um lado estava a mãe-galinha a querer tê-la debaixo da asa, do outro estava a mãe racional a querer ensinar a filha a não fugir.

 

E ser mãe também é este sabor amargo na boca, este orgulho de a ver enfrentar os medos e esta dor de a ver sofrer com isso.

 

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26
Mar18

Breve inquérito a mães normais (9)

Susana

Já vos tinha trazido as respostas da Diana e estavam em falta as respostas da Rita. A minha cabeça anda ao sabor das horas que durmo e ao mesmo tempo que pensava que tinha que pedir as respostas à Rita também me esquecia de o fazer. A Rita sabe bem o que é isto da privação do sono e, também por isso, resolveu com a Diana criar o Amãezónia, que é só a selva mais fixe onde se fala de maternidade sem paninhos quentes. A Rita é uma miúda selvagem que escreve maravilhosamente e que desenha ainda melhor. A selva não seria a mesma sem as ilustrações dela. Deixo-vos as respostas da Rita e se souberem o que é bom podem continuar a seguir o trabalho dela aqui.

 

Rita, sou designer e ilustradora, tenho 36 anos e uma filha com 5 anos

 

Qual a coisa de que tens mais saudades de fazer desde que és mãe?

Tenho saudades de ter muito tempo livre. Não falo do tempo para procrastinar mas do tempo para fazer coisas de que gosto realmente, extra trabalho: sair de noite, ir ver um concerto sem ter de pedir a alguém que fique com a minha filha, ir ao cinema de repente, só porque sim, ir à praia sem hora de regresso para jantar porque se passar das 20h e não houver nada preparado vem birra na certa.

 

O que mudou em ti com a maternidade?

A criança nasce e quando no hospital nos perguntam se temos o ovinho para a levar para casa, é o momento-chave em que percebemos que a criança e o ovinho, a partir de agora, vão estar sempre mas sempre connosco. Nesse momento cresci porque as responsabilidades nunca mais me largaram. 

Depois vai variando de dia para dia: chega o dia em que conheces o verdadeiro orgulho por algo que a tua filha fez, chega a hora em que te deparas com a verdadeira frustração por algo que a tua filha não fez, enfim, parece-me que todas as emoções sofreram um aumento significativo de intensidade desde que ela nasceu. E nunca mais consegui viajar com uma mochila pequena.

 

És a mãe que imaginaste?

Nada. Sempre fui ingénua em relação ao assunto e também nunca fiz grandes expectativas. Achava que ia ser uma coisa muito natural e fácil, mas só uma ingénua pode pensar assim, não é? ahahaha De repente, zás, uma chapada de realidade. 

 

Que conselho darias a alguém que está a pensar em ser mãe?

Ora bem, 3 dicas para quem nunca foi mãe e está a fazer planos: 

1 - Pensem se é mesmo isso que querem antes. Depois o bebé vem mesmo para nossa casa. E chora. E não se pode devolver. ahahah

2 - A minha bebé não dormia. Eu não sabia nada de bebés que não dormem. Informem-se sobre todas as possibilidades reais no Amãezónia e aqui no Ser Super Mãe é Uma Treta.

3 - Esquece a quantidade incrível de opiniões que as outras pessoas dão sobre como cuidar do bebé. O que é melhor para algumas pessoas simplesmente não dá para nós. Sim, eles vão continuar a achar que estás a fazer tudo mal, não te importes.

 

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21
Mar18

A prática do marmitar estava a precisar de regras

Susana

Quando comecei a trabalhar corria o ano 2000 e eu levava o meu almoço num termo e almoçava no armazém da empresa meio às escondidas, mas nos dias de hoje levar a marmita para o trabalho é uma coisa banal.

 

Deixou também de ser uma coisa (quase) exclusivamente de mulheres e passou a ser uma cena fixe que os homens inteligentes, poupados e a quem as mulheres preparam a marmita também passaram a fazer. 

 

E há marmiteiros para todos os gostos.

 

Há os que usam as malas/sacos/mochilas ou o raio xpto que custa os olhos da cara para levar a marmita, há os que levam a marmita nos sacos de papel da última loja onde fizeram compras e se rasgam pelo caminho, há os que usam tupperwares de vidro porque como toda a gente sabe o plástico é cancerígeno, há os que usam tupperwares de plástico do take-away do chinês que como toda a gente sabe derretem no micro-ondas, há os que usam individual, guardanapo de pano, prato e talheres de prata, há os que comem com as mãos e limpam a boca às mangas, há os que gostam de marmitar sozinhos enquanto vêm séries no tablet, há os que gostam de marmitar acompanhados por todo o departamento, há os que gostam de marmitar sozinhos porque não têm paciência para as conversas dos outros e não largam o telemóvel, há os marmiteiros vegan, há os marmiteiros da feijoada, há os marmiteiros do peixe cozido e há os marmiteiros das saladas, o que não há minha gente, são regras!

 

Eu confesso que não sou uma marmiteira fundamentalista. Às vezes marmito, outras vezes não, se tiver sobrado alguma coisa do jantar e eu não me esquecer de trazer lá vou eu para a marmitagem, se me esquecer de trazer há sempre uma sopa à minha espera em qualquer lado, mas quando marmito, sinto falta da porra das regras para a sã convivência no espaço onde todos marmitam.

 

Então:

 

Regra 1 – Os micro-ondas não são para cozinhar a comida, são para a-q-u-e-c-e-r e para a-q-u-e-c-e-r bastam, vá na loucura, dois minutos! Dois minutos e a comida está no ponto. Não usem o micro-ondas para cozinhar lasanhas, batatas assadas, bolos da caneca, o diabo.

 

Regra 2 – Ainda o micro-ondas, sabem as tampas dos vossos tupperwares? Metam-nas em cima dos ditos enquanto aquecem a comida para os micro-ondas não ficarem todos cagados, convenhamos que é um bocado nojento aquecer a comida em micro-ondas todos salpicados do molho da comida alheia.

 

Regra 3 – Estão a ver as pessoas em pé à espera de lugar para se sentarem? Pois, quando acabarem de marmitar, levantem a porra do rabo da cadeira e vão beber café e deitar conversa fora para outro sitio. Na rua, por exemplo, faz bem esticar as pernas. Vá, levantem-se!

 

Regra 4 – É muito fixe chegar à mesa onde vamos marmitar e ela estar limpa, sei lá, sem migalhas, restos de gordura, guardanapos sujos, pedaços de comida. É só passar um guardanapo na mesa, não custa nada.

 

Regra 5 – Não tenho uma regra número cinco, mas quatro parecia-me pouco, por isso a regra número cinco é, sei lá, falem baixo, pronto, falem baixo enquanto marmitam.

 

É isto.

 

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13
Mar18

Hoje o Ser Super Mãe é Uma Treta faz um ano!

Susana

Hoje o Ser Super Mãe é Uma Treta faz um ano.

 

Durante este ano o blog não foi tudo o que eu queria, mas foi tudo o que eu sou. Sem máscaras, sem rodeios, sem meias palavras, com os nervos à flor da pele e sem receio de mostrar as minhas virtudes (que caraças também as tenho) e as minhas falhas (que também são muitas).

 

O blog nasceu pela insistência do meu marido e da necessidade de exorcizar o meu cansaço, nasceu da inspiração que os meus filhos e o mundo cheio de opiniões depois dos filhos me trouxe e pela vontade constante de dar um pontapé na culpa e em todos os que nos fazem sentir culpados. E, acima de tudo, porque a maternidade não é fofinha o tempo todo, tem muitos lados negros, fases que nos fazem duvidar da nossa sanidade mental, muitas birras dos filhos e no meu caso também envolve muito sono e eu não queria viver esta merda toda sozinha.

 

O blog faz um ano, mas fazer um ano e não vos ter desse lado não fazia qualquer sentido, por isso, obrigada a vocês por este ano de partilha!

 

E um viva a nós, as mães normais, as que dão pontapés na culpa, as que mandam as opiniões dos outros à merda e as que dizem que se foda muitas vezes!

 

(E agora vou ali ver como está o miúdo, que cá por casa estamos a chafurdar nas viroses, para variar!)

 

Também ando pelo Facebook.

08
Mar18

O nascimento de uma mãe

Susana

No dia em que a minha filha nasceu, eu nasci outra vez. A mulher que eu era ficou na confusão do bloco de partos, esquecida entre as conversas dos médicos e a música que estava a tocar e nasceu outra mulher: a mãe.

 

Naquele dia, que recordo como um filme que vemos muitas vezes, nascemos as duas e temos vindo a crescer as duas. Sempre de mãos dadas. Eu dou-lhe a mão, enquanto lhe mostro os caminhos possíveis e ela aperta a minha mão com força e ajuda-me a ser a mãe que sou.

 

Nunca pensei que mãe iria ser, nem durante a gravidez, nem depois, não fiz planos, nem tinha certezas absolutas, não li livros, nem procurei teorias. A minha filha nasceu e eu, tal como ela, era um bebé recém-nascido a respirar pela primeira vez e tenho vindo a aprender a viver a maternidade por instinto e guiada pelo amor.

 

E que mãe sou eu?

 

Sou uma mãe imperfeita, que se assume imperfeita e que rejeita a culpa com todas as forças, faço sempre o melhor que consigo e às vezes o melhor que consigo é mesmo errar. E ajustar as velas e voltar a tentar.

 

Sou uma mãe corajosa e eu não era uma mulher corajosa, transformei-me no preciso momento em que entrei na sala de partos e me senti estupidamente calma.

 

Sou uma mãe meio bipolar, uma mãe que grita e abraça e ralha e dá mimo e se enerva e que pede desculpa enquanto se volta a enervar.

 

A minha filha confia em mim cegamente para a proteger de todos os males, reais e imaginários, para a fazer sentir segura, confiante, para lhe explicar o mundo e os outros. E eu sou uma mãe leoa, galinha, ursa, loba e todos os bichos do planeta só para a proteger.

 

Sou a mãe a quem a minha filha abre buracos no peito quando me confidencia os segredos, as angústias, as questões existenciais e as dores de crescimento e com isso me faz crescer também.

 

A minha filha obriga-me a confrontar com a minha impaciência, com o meu cansaço, obriga-me a reconhecer os meus erros, quando falho e quando lhe exijo demais, mas aceita a minha imperfeição, amando-me. Aos olhos dela sou a melhor mãe do mundo e a mais bonita. A mãe a quem pede desculpa quando erra, a quem sussurra ao ouvido que a adora.

 

No dia em que a minha filha nasceu, fui abençoada com o milagre da vida e tenho vindo a ser abençoada com a beleza da presença dela nas nossas vidas, abençoada com o amor que transborda do seu pequeno coração.

 

Ainda hoje, cinco anos depois, olho para ela com o mesmo espanto com que a olhei pela primeira vez, acabada de sair da minha barriga, suja, inchada e cinzenta e eu a dizer-lhe:

 

- Olá, eu sou a tua mãe.

07
Mar18

Breve inquérito a mães normais (8)

Susana

Continuando os breves inquéritos a mães normais, desta vez trago-vos a minha amiga Ana Rute. Conhecem aquela teoria de que temos apenas seis pessoas a separar-nos de qualquer pessoa do mundo? Da Ana Rute, para qualquer lado que olhe tenho apenas uma pessoa a separar-me dela e a realidade é que não nos conhecemos pessoalmente. É verdade, conheço-a há imenso tempo, os nossos maridos conhecem-se, temos vários amigos em comum e ainda não tive a oportunidade de lhe dar um abraço, mais que não seja pela sensibilidade das palavras de tranquilidade que me envia nos momentos em que estou quase a arrancar os cabelos. A Ana Rute é mãe de quatro filhos e confessa que era a mãe perfeita antes de os ter. Deixo-vos as respostas e convido-vos a segui-la por aqui e por ali, garanto-vos que não vão dar o tempo como perdido.

 

Ana Rute Cavaco, 40 anos, mãe a tempo inteiro, quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas, junto com o Tiago - marido - serve na Igreja da Lapa, em Lisboa.

 

Qual a coisa de que tens mais saudades de fazer desde que és mãe?

O que sinto mais saudades é a leveza de não ter responsabilidades de maior, de estar com tempo a fazer o que me apetecia sem ter sempre aquela voz a lembrar: tens gente que depende de

 

O que mudou em ti com a maternidade?

Mudou a forma como uso o tempo livre que tenho para mim, é pouco, mas tem a ver com a resposta anterior. Nunca mais fiz nada sem ter em mente que as minhas escolhas não me afectariam só a mim. A rigor, isso acontece toda a nossa vida, porque vivemos em sociedade, mas neste caso são pessoas que nasceram porque nós existimos também.

 

És a mãe que imaginaste?

Não sou a mãe que imaginava. Antes de ter filhos era a mãe perfeita (risos).

 

Que conselho darias a alguém que está a pensar em ser mãe?

Que aceite o dom da maternidade com gratidão e humildade. Nada se faz sem ajuda e sem um espírito pronto a mudar e a crescer. Nunca dizer nunca e seguir em frente.

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