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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

30
Nov17

Sobreviver às ausências do pai

Susana

A profissão do meu marido obriga-o a algumas ausências, às vezes em Portugal, outras no estrangeiro, às vezes só um dia ou dois, outras vezes quinze dias. Ainda não recuperei da viagem que fez este ano à Índia e em que eu fiquei a enlouquecer quinze dias com os miúdos.

 

Podia falar-vos do amor, do meu coração adolescente que fica sempre amarfanhado de saudades, das camadas de nervos que apanho enquanto ele está a voar, da falta que me fez ter um adulto em casa para conversar e adormecer comigo no sofá, mas vou antes falar-vos de quanto me é difícil estar sozinha com os miúdos e o que faço para tentar sobreviver às ausências.

 

Nós não temos aquelas ajudas tão preciosas dos avós ou dos tios por perto, que podem dar uma ajuda ao final do dia ou numa emergência irem buscar os miúdos à escola. Quando estou sozinha com os miúdos significa que estou sozinha com os miúdos. E não é nada fácil.

 

(Um parêntesis para dizer que todas as mães solteiras, divorciadas, com maridos que trabalham no estrangeiro ou que por outro motivo qualquer navegam o barco sozinhas, são as minhas heroínas!)

 

Não é fácil não só pelas nossas rotinas, o meu marido faz o pequeno-almoço, lava-lhes a cara e os dentes, penteia o cabelo da mais velha, desce as escadas do terceiro andar com os dois ao colo, leva-me aos barcos e depois os miúdos à escola, vai às compras, vai buscar os miúdos à escola, vai buscar-me aos barcos e faz o jantar todos os dias, (sim, o meu marido é maravilhoso!), mas também porque os miúdos ficam doidos de saudades, fazem muito mais birras, estão muito mais impacientes e eu também confesso e é preciso uma calma que eu às vezes não tenho, para gerir as minhas emoções, as deles e ainda evitar que o barco vá ao fundo.

 

O que é que eu faço para sobreviver às ausências?

 

Penso em todas as refeições que vamos fazer, para comprar o que for preciso com antecedência e evitar idas ao supermercado com os miúdos, cozinho coisas simples para conseguir que jantem sempre cedo, para, claro, irem dormir cedo, a roupa deles é sempre preparada no dia anterior, desde as cuecas ao gancho que a mais velha vai meter no cabelo, não dou banhos desnecessários, se é sexta-feira só tomam banho no sábado, se não tiveram ginástica, passamos o banho para o dia a seguir, está frio e os miúdos são se sujam tanto como isso, adormeço os dois ao mesmo tempo na minha cama, de manhã peço ajuda à mais velha o que a faz sentir crescida, aos fins-de-semana tento esquecer que tenho a casa para arrumar, faço o indispensável e esforço-me para os entreter, vale tudo, filmes, aguarelas, plasticina ou bolas de sabão, se não estiver a chover, é obrigatório pegar neles e sair umas horas para gastarem energia e pararem de gritar um com o outro.

 

E agora o mais importante, tenho sempre vinho em casa, chocolate e pizzas congeladas. Depois de os deitar, sempre o mais cedo possível, despejo um pouco de vinho num copo (que isto não se pode abusar quando estamos sozinhas), meto uma pizza no forno e, com a televisão no silêncio, sento-me no sofá no meu momento zen à espera que a pizza faça. Depois de jantar, é a loucura total, procuro nas gravações automáticas uma série daquelas de que toda a gente fala e que eu nunca vi, deito-me no sofá cheia de boas intenções e adormeço no segundo a seguir.

 

E é isto, até que o meu marido regresse a casa, o lugar onde estamos completos e onde me faz o jantar todos os dias.

 

Em parceria com a Up to Kids.

23
Nov17

Estou sim, bom dia, daqui fala a mãe, em que posso ajudar?

Susana

Os filhos são muito parecidos com os clientes. Pensam que têm sempre razão e, quando os argumentos falham, fazem birras. Em desespero, usei com os meus filhos as técnicas de atendimento ao cliente que aprendi quando trabalhei num call-center. Continuou sem resultar, mas eu diverti-me. Deixo-vos alguns exemplos:

 

Autoridade

 - Lamentamos que as regras de adesão ao serviço Os Pais É Que Mandam não lhe tenham sido devidamente explicadas, mas podemos garantir que os beneficios associados ser-lhe-ão úteis a longo prazo.

 

 - Compreendemos o seu desagrado, mas o contrato que mantém com a empresa Pai & Mãe, Lda. tem a vigência mínima de 18 anos, durante os quais as condições do mesmo poderão ser alteradas sem aviso prévio. Caso pretenda, poderá encaminhar o seu pedido de esclarecimentos para o endereço de e-mail: naoqueremossaber@quemmandaaquisomosnos.pt.

 

Refeições

 - O que me está a indicar é que não vai comer os brócolos até que eu a obrigue, entendi bem?

 

 - Peço-lhe que não fale com a boca cheia, não consigo entender o que me está a indicar.

 

Hora do Banho

 - Infelizmente a campanha “Não tomar banho” encontra-se descontinuada, no entanto temos em vigor a campanha de última hora “Vai tomar banho já antes que eu te arraste por um braço”.

 

 - Compreendemos a sua insatisfação por ter de deixar de ver televisão para ir tomar banho, mas o nosso serviço não disponibiliza o jantar enquanto o banho não for tomado.

 

Dormir

 - Neste momento são 21 horas e não é possível aderir ao pacote “Não dormir e dar cabo da cabeça aos meus pais”. Pode, no entanto, escolher a opção “Adormecer com o pai em 5 minutos” ou, em alternativa, “Adormecer com a mãe em 3 horas e 15 minutos”.

 

 - Lamento informar que já esgotou o plafond de histórias, a partir deste momento as luzes serão apagadas e agradeço que durma uma noite descansada.

 

Birras

 - A Senhora M. é uma cliente muito importante da nossa empresa e temos como objetivo manter a sua satisfação. Garantimos que faremos o que estiver ao nosso alcance para ultrapassar os constrangimentos relacionados com o processo negocial em curso.

 

- Compreendo que esteja insatisfeito, mas os seus gritos impedem-me de perceber a totalidade dos seus argumentos.

 

Vestir

 - Peço-lhe que aguarde um momento, voltaremos a esta discussão sobre que sandálias vai levar para a escola dentro de 5 minutos.

 

 - Agradecemos desde já que tenha sujado pela terceira vez a camisola que tinha vestida, nada nos deixa mais satisfeitos que ter de lhe mudar a roupa quando estamos com pressa para sair de casa.

 

Os porquês

 - Trabalhamos constantemente para dar resposta aos seus porquês e procuramos melhorar os tempos de espera. Contamos desenvolver a capacidade de resposta a trinta porquês por minuto dentro de duas a três semanas.

 

 -  Terei de encaminhar a sua questão para o departamento técnico e dar-lhe-ei uma resposta ao seu porquê o mais breve possível.

 

 Doenças

 - Eu também preferia não ter de aspirar os macacos do seu nariz, mas se o deixar ir para a escola com o nariz cheio de ranho corro o risco de chamarem a Segurança Social.

 

- Agredecemos o seu empenho em vomitar na sanita e não no chão, para mostrar o nosso apreço, vamos oferecer-lhe uma Barbie. Esteja atenta à caixa do correio.

 

 Irmãos

 - Solicitamos que não puxe os cabelos do seu irmão, as penalidades por incumprimento desta claúsula incluem não ver televisão durantes dois dias.

 

- O periodo de garantia do boneco da sua irmã já foi ultrapassado, se lhe arrancar a cabeça o mesmo não será substituído.

 

 

As possibilidades são infinitas, tal como as birras. Os resultados, esses, são quase sempre os mesmos: uma enorme dor de cabeça.

 

20
Nov17

Dez coisas que eu gostava de dizer às grávidas

Susana

1- Esqueçam a porra da culpa, isto já é difícil o suficiente para ainda acrescentarem esse material explosivo.

 

2 - Sempre que alguém vos der uma opinião sem a terem pedido mandem essa pessoa à merda, se não for possível sorriam e mandem essa pessoa à merda na vossa cabeça; 

 

3 - Durmam muito enquanto conseguirem. Ou não durmam, para se irem habituando, o que sei eu? Só não durmo bem há mais de dois anos.

 

4 - Fujam de grupos de mães do Facebook, depois não digam que não vos avisei, quando vos apetecer matar todas as mães que sabem melhor que vocês como educar os vossos filhos.

 

5 - Não comprem muita roupa para os miúdos, eles crescem a um ritmo alucinante, comprem para vocês, vão sentir falta disso.

 

6 - Obriguem-se a uma escapadela com o vosso marido sempre que possível, acreditem que vão ter saudades do homem que dorme todas as noites ao vosso lado.

 

7 - Não se deixem apanhar pelas fundamentalistas da amamentação. As mamas são vossas, vocês é que decidem se amamentam ou não.

 

8 - Não existe parentalidade negativa em oposição à parentalidade positiva, fazemos sempre o melhor que conseguimos com as condições que temos, que ninguém vos diga o contrário.

 

9 - Digam muitas vezes que se foda, poucas coisas que nos rebentam os nervos são assim tão importantes.

 

10 - Pensem em vocês, existam para além dos filhos, eles não precisam de uma super mãe, precisam de uma mãe feliz, amada, realizada e com o sono em dia. A vida não começa, nem acaba nos filhos.

 

11 - Afinal são onze, esta é de borla. A mãe que idealizaram vai ter um choque frontal com a realidade, os miúdos vão fazer birras demoníacas e são teimosos como o raio, vocês vão gritar, vão perder a paciência e não vão ser más mães por isso.

 

12 - Mais uma, a licença de maternidade não é esse tempo magnífico para descansar e babar por esse ser magnífico que temos em casa. Em vez disso, vão passar o dia a dar de mamar e a mudar fraldas, a desejar que a cria adormeça para irem estender roupa e que acorde para poderem aspirar o chão, vão lavar os dentes a meio da tarde e tomar banho só quando o pai chegar a casa. 

 

Digam que se foda muitas vezes e vai correr tudo bem.

17
Nov17

Eu só só uma mãe normal

Susana

Hoje dei por mim a pensar porque raio criei o blog, quando muitas vezes não o consigo manter como imaginei. Imaginei-me a ser obrigada a escrever mais do que escrevia, a ter uma rotina e a ser disciplinada. Era impossível ter sido mais ingénua que isto.

 

Na outra noite tinha um texto para escrever, parte dele estava escrito na cabeça, tinha umas notas soltas no telemóvel, mas precisava de um pouco de silêncio, (esse luxo quando somos pais) e de me sentar com o portátil à frente. O meu marido e os miúdos foram buscar-me aos barcos, como sempre e no carro a minha filha já antecipava uma puta de uma birra capaz de fazer cair o céu. Cheguei a casa, acabei de separar umas roupas, sai de casa, fui dar a roupa, voltei a casa e reparei que não havia fraldas para o mais novo, (garanto que o miúdo vai casar de fraldas, mas que se foda), voltei a sair para comprar fraldas, voltei a casa e a puta da birra da minha filha já tinha feito estremecer o prédio.

 

Ela estava exausta, cheia de sono e queria ser a primeira a adormecer. Eu explico. Temos um acordo, eu e ela. Eu adormeço o mais novo desde sempre, o raio do miúdo acha que quando o pai o vai adormecer é para brincar e a coisa corre mal, porque o menino do papá é um menino da mamã na hora de dormir. Adiante, para compensar quem adormecia todos os dias a minha filha era o pai, mas há uns tempos deu-lhe uma crise de ciúmes tal que me obrigou, contra todos os meus princípios, a uma negociação, ou seja, noite sim noite não, eu adormeço os dois. Adormeço primeiro o mais novo porque regra geral é mais rápido e a seguir vou adormecê-la, mas naquela noite ela queria ser a primeira, porque nunca é a primeira e o mundo é injusto para as irmãs mais velhas cansadas e cheias de sono. Bom, peguei nos dois, levei-os para a minha cama e adormeci-os ao mesmo tempo. Acho eu, porque eu adormeci também.

Acordei às onze da noite, fui deitá-los nas camas deles, jantei uma taça de cereais, olhei para o portátil em cima da mesa, ignorei-o e adormeci no sofá onde o meu marido já dormia.

 

O texto ficou por escrever, ficou a massacrar-me a cabeça juntamente com os outros que ainda não escrevi. Os textos por escrever vão-se acumulando até que consiga a disponibilidade mental e o silêncio para os escrever e isso às vezes enerva-me, mas também tudo me enerva, desde as birras dos meus filhos, à máquina de secar roupa que decidiu avariar, à porra do metro que está sempre com perturbações, às pessoas no geral.

 

Mas e este é um grande mas, depois percebo que o raio do blog é isto, o blog é feito por uma mãe normal, tão normal que não faz vídeos a abrir presentes, uma mãe suburbana, nem sempre fotografável, com dois filhos que lhe sugam a maior parte da energia, uma mãe que tem sempre sono e que desespera tantas vezes por um pouco de silêncio e um copo de gin.

 

Por isso o blog é isto mesmo, tal e qual como não imaginei, os textos que escrevi e os textos que gostaria de já ter escrito. 

10
Nov17

Estudo sobre a Parentalidade na Adversidade

Susana

A  Ana Tavares é investigadora da Faculdade de Psicologia estando atualmente a realizar o Doutoramento Inter-Universitário em Psicologia Clínica, Especialidade de Psicologia da Família e Intervenções Familiares desenvolvido pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e contactou-me com um pedido sobre um assunto que me diz muito, a Alienação Parental.

 

O pedido era simples, ajudar a divulgar um estudo para recolher informação que possa, futuramente, contribuir para uma melhoria da intervenção junto das famílias. 

 

Abaixo um texto explicativo e o link para o estudo. Caso tenham interesse participem ou se conhecerem alguém que possa dar o seu contributo, não hesitem em partilhar.

 

Quem pode participar?

  • Pessoas com filhos com idades compreendidas entre os 3 e os 18 anos,
  • Pessoas que se identificam com a seguinte situação: “O outro progenitor realiza ações para me distanciar do meu filho (ou filhos)”. Esta distância pode ser física e /ou psicológica. Esta situação é comummente conhecida como alienação parental.

 

A Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa está atualmente a realizar um estudo com a finalidade de caracterizar e compreender a vivência da parentalidade em pais que se identifiquem como estando atualmente a experienciar uma situação de alienação parental. Pretendemos com esta investigação recolher informação que possa, futuramente, contribuir para uma melhoria da intervenção junto das famílias. 

 

Sabemos à partida que pais que não vivem a parentalidade em pleno podem ver o seu bem-estar comprometido, o que afeta não só o relacionamento com os filhos como também o seu quotidiano.

 

Deste modo, caso se identifique com esta situação pedimos a sua colaboração no presente estudo, que está a ser realizado via online. Todos os dados serão confidenciais e, em qualquer momento e por qualquer motivo pode negar responder a qualquer pergunta e/ou desistir de colaborar sem qualquer prejuízo.

 

Caso pretenda colaborar ou conhecer mais informação cliquem no seguinte link: Participação em estudo sobre alienação parental

09
Nov17

Filhos, cresçam devagarinho!

Susana
Quando o Tiago nasceu, a Mariana tinha dois anos e dois meses.
 

Tem sido uma loucura ser mãe de dois filhos pequenos e com uma diferença de idades tão pequena. Há dias em que só o piloto automático me salva e em que basta só mais uma birra para começar a bater com a cabeça na parede, mas apesar do cansaço, do sono, da vontade constante de me atirar para o chão e por trás de uma mãe que às vezes é uma besta, existe um coração que ainda por cima é mole e no outro dia dei por mim de lágrimas nos olhos a ver os meus filhos a brincar um com o outro.

 

Ela do alto dos seus quatro anos dizia ao irmão ao que iam brincar e ele nos seus bem-dispostos dois anos respondia que sim. Ele era o médico, sentado na secretária pequenina, com o portátil do Ruca que nunca funcionou e ela era uma mãe que levava o seu bebé ao hospital. Ela dizia-lhe os sintomas, enquanto ele fingia que escrevia no portátil, depois examinou a bebé e no fim da consulta rabiscou um papel com a receita.

 

- Mano, agora sou eu a médica!

 

Estou a vê-los a brincar e de repente apercebo-me que já não são bebés.Como é que isto aconteceu? Os meus filhos cresceram e eu receio não ter reparado.  Este ano foi particularmente difícil, viroses a dobrar, fucking four em força, mudança de escola, birras e crises existenciais, noites sem dormir, eu a pedir socorro a toda a hora, mas o tempo não teve piedade de mim e os meus filhos cresceram.

 

E este sabor doce de os ver crescer, mistura-se com o sabor amargo de os ver crescer. De saber que um dia vou ter saudades do que hoje me enche de cansaço. Que a minha filha um dia já não vai fazer birras porque quer que seja sempre eu a adormecê-la ou que o meu filho já não vai acordar a meio da noite para vir para a nossa cama. Mistura-se o alívio de os ver crescer, com a tristeza de os ver sair devagarinho debaixo da minha asa até ao dia em que vão sair do ninho e voar.

 

Eu sei que estou a ser dramática, o meu filho ainda usa fraldas e a minha filha ainda precisa de ajuda para limpar o rabo, eles não vão já para a faculdade, nem me estão a pedir as chaves do carro para irem sair à noite, mas o tempo não tem piedade das mães e os filhos crescem sem darmos por isso.

 

Os meus filhos estão a crescer, juntos, ao ritmo das brincadeiras que me fazem chorar.

 

Cresçam devagarinho meus amores.

 

Texto em parceria com a Up to Kids.

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