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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

06
Jul18

Férias com filhos: expectativa vs realidade

Susana

Como eu queria (e merecia, porra) que fossem as minhas férias

 

Não ter hora para acordar, uma praia paradisíaca com areia branca e água quente, o sol a queimar-me a pele, almoços com vista para o mar, uma pulseira de livre-trânsito para o bar no pulso e um cubano a servir-me daiquiris, massagens relaxantes no spa do hotel, jantares demorados, mergulhos na piscina fora de horas e sexo sem hora marcada, muito sexo.

 

Como vão ser as minhas férias

 

Os miúdos vão acordar antes das sete da manhã, eu e o meu marido vamos ver quem finge durante mais tempo que não os está a ouvir, não evitando o inevitável, levantamo-nos da cama, tomamos o pequeno-almoço, vestimos os fatos de banho, metemos protetor solar, agarramos em dois chapéus-de-sol e chegamos à praia quando ainda está aquele friozinho da madrugada, estendemos as toalhas, despimos os miúdos que vão gritar que está frio (eu não tinha reparado) enfiamos os chapéus naquelas cabeças e gritamos dezenas de vezes para que não os tirem, vamos estar em alerta constante para eles não correrem para a água sozinhos e para não falarem com desconhecidos, não nos podemos esquecer de reforçar o protetor solar enquanto os miúdos esperneiam que querem ir encher outra vez o balde com água e assim que começa a ficar aquele calor capaz de nos tirar a cor de lixívia das pernas, temos que pegar nas toalhas onde não sentámos o rabo, nos baldes e pás e ancinhos e o diabo que eles quiseram levar para a praia e regressar a casa a tempo de aturar várias birras de sono. Um faz o almoço, o outro dá os banhos, pomos a mesa, almoçamos com as birras a atingir o auge do cansaço e tiramos à sorte quem se vai deitar com eles a dormir a sesta até chegar a hora em que o sol já não queima para irmos para a praia outra vez, chegada a hora lanchamos, vestimos os fatos de banho, metemos protetor solar sabe Deus porquê, que a esta hora o sol já nem cócegas faz, pegamos num chapéu-de-sol e lá vamos nós, chegamos à praia cheia de miúdos a correr por todo o lado, encontramos por milagre um espaço para estender as toalhas, despimos os miúdos, enfiamos os chapéus naquelas cabeças e gritamos dezenas de vezes para que não os tirem (onde é que eu já li isto?), vamos estar em alerta constante para eles não correrem para a água sozinhos e para não falarem com desconhecidos, vamos estar de rabo para o ar a fazer piscinas à beira mar e com sorte damos um mergulho ou dois, quando até estamos a gostar de estar ali os miúdos vão estar a arrastar-se de sono e pegamos nas toalhas onde não nos deitámos a ler um livro, nas bolas, baldes, conchas e quilos de areia e regressamos a casa para mais um dose de banhos, birras e o Deus nos ajude do costume, jantamos, adormecemos os miúdos e com sorte vamos sentar-nos no terraço a beber uma bebida qualquer que comprámos no supermercado porque não, não temos um cubano a servir-nos daiquiris, enquanto deitamos conversa fora até admitirmos que estamos exaustos e irmos dormir sem termos sexo.

 

Faltam quinze dias para as minhas férias. Sim, estou a contar? Porquê? Porque sou parva, os pais não têm férias. A única diferença entre as férias e os dias normais é que aturamos os miúdos num lugar diferente.

 

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02
Jul18

A mãe está cansada

Susana

A mãe está cansada. As mães estão sempre cansadas. É normal, faz parte, dizem-nos. Ignora-se o cansaço da mãe, porque é normal, faz parte. É preciso aguentar, já se sabe como é, um dia melhora. Até que a mãe não aguenta, não melhora e não percebem porquê. As mães estão sempre cansadas, é normal, faz parte, porque raio ela não aguentou?

 
Um destes dias, numa consulta com o meu filho, conversava com o meu médico de família sobre o cansaço, o meu cansaço. Tem sido um ano filho da mãe. O meu médico sabe, vemo-nos com muita frequência, infelizmente. 
 
- Já sabe mãe, faz parte. 
 
Eu que já não sou a Susana, sou a mãe, deveria saber que faz parte. O cansaço, a exaustão, o sono constante, os braços que carregam colos e as costas que teimam em doer, o cérebro que não quer funcionar e o stress acumulado faz parte. Embrulha o pacote e aceita como um presente da vida. Filhos e cansaço de mãos dadas. 
 
Já tive várias conversas destas com médicos, amigas, com a minha mãe, com desconhecidas e o cansaço faz sempre parte. Ponto final nesta conversa. 
 
As mães trabalham fora de casa e dentro de casa, regra geral muito mais horas que os homens, as mães guardam para si a tarefa de cuidar dos filhos quando estão doentes, da lida da casa que nunca acaba, da roupa que parece procriar no cesto da roupa suja, das compras que alimentam a família, que acodem a todos os gritos pela "Mãe!", consomem-se em mil e uma birras por mil um motivos, são saco de pancada dos filhos e as mães não podem dizer um ai, não podem dizer que estão cansadas, esgotadas, porque faz parte.
 
Calem-se! 
 
As mães sabem que faz parte, mas é imperativo que em vez do óbvio nos digam o que podem fazer para nos ajudar, do que precisamos, que nos digam para não nos esquecermos de nós, que cinco minutos sentadas no sofá não conta como descanso, que precisamos de existir e de vez em quando mandar tudo mais alto que as estrelas e gritar:
 
- Eu não sou só a mãe, o meu nome é Susana.
 
(Os pais também estão cansados, o meu marido está tão exausto como eu, somos uma equipa e nem consigo imaginar o cansaço de quem não funciona em equipa, mas como em tudo, falo por mim, pelas mães, os pais que comecem a escrever e a falar sobre isto, gritem ao mundo que também fazem parte desta loucura de ter filhos.)
 
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02
Jul18

Não, eu não educo os meus filhos para o feminismo.

Susana

“- Mãe, estás a fazer o jantar porquê? É o pai que costuma fazer o jantar.”

 

Quando alguém diz que os rapazes devem ser educados para o feminismo eu hesito entre bater com a cabeça na parede ou respirar fundo e perguntar como é que funcionam as coisas lá em casa.

 

Eu explico, sou mãe de um rapaz e de uma rapariga e ambos recebem a mesma educação e o mesmo exemplo. E o exemplo começa pela igualdade e o respeito entre o pai e a mãe. Em nossa casa o aspirador e o pano do pó não são propriedade da mãe, o pai lava a loiça, faz o jantar, vai às compras, leva os miúdos à escola e ao médico e trabalha, como a mãe. Não existem tarefas da mãe e tarefas do pai. Não existe a figura autoritária do pai e a figura permissiva da mãe. Não existem ameaças físicas nem psicológicas, não existe violência física nem verbal. Nunca é demais lembrar que filhos que crescem em ambientes abusivos têm grande probabilidade de se tornarem adultos agressores.

 

As crianças são esponjas e o respeito pelos outros e por si mesmas ensina-se pelo exemplo, por terem uma mãe que trabalha, que é independente, que se respeita e é respeitada e por terem um pai que se rege pelos mesmos princípios.

 

Recuso-me a educar o meu filho como futuro agressor e a minha filha como futura vítima.

 

Eu educo-os para serem corajosos, independentes, honestos e para que se respeitem e respeitem os outros. E estes não são princípios exclusivos do feminismo, são pilares básicos para uma sã convivência em sociedade, sem discriminações ou abusos de qualquer género.

 

Hoje são crianças de três e cinco anos, cujas questões nos aparecem na medida da idade que têm. Outras irão surgir com o tempo, como o valor do seu corpo, a não discriminação das mulheres no local de trabalho, a violência, o assédio, mas se as bases estiverem lá tenho esperança de que se irão tornar em adultos responsáveis e respeitadores dos outros. E a esperança também entra nestas contas. Os pais fazem a sua parte, esforçam-se para serem um bom exemplo, com ações e não apenas com palavras, e o resultado será uma mistura desse exemplo, da personalidade dos filhos e de uma boa dose de sorte.

 

Por isso, não, não educo os meus filhos para o feminismo. Educo-os para o humanismo.

 

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