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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

28
Ago18

Dedicado às mães que estão de licença de maternidade

Susana

Há três anos estava de licença de maternidade do meu filho mais novo e como todas as mães que estão de licença de maternidade acordava com o sol a entrar pela janela, os passarinhos a chilrear lá fora e os sorrisos doces de um bebé pequenino. Dava-lhe de mamar, mudava-lhe a fralda, o bebé arrotava e voltava a dormir e eu aproveitava para tomar banho, lavar os dentes, passar um creme na cara e no corpo. Sentava-me à mesa posta com uma toalha imaculadamente branca, bebia um sumo com laranjas acabadas de espremer, enquanto me deliciava com uma fatia de bolo que tinha feito no dia anterior. Levantava a mesa, lavava a loiça, o bebé acordava, voltava a dar-lhe de mamar, mudava-lhe a fralda, dava-lhe banho e íamos dar um passeio pelas ruas da cidade. De tarde, o bebé dormia longas sestas e eu aproveitava para dormitar no sofá, ler um livro ou ver a minha série preferida na televisão. O bebé acordava, mamava e ficávamos como dois apaixonados a babar um pelo outro e a jurar amor eterno. À hora que o pai chegava a casa o jantar já estava feito, a mesa posta, havia pão fresco e uma variedade incrível de fruta comprada no mercado.

 

Só que não.

 

Há três anos estava de licença de maternidade do meu filho mais novo e as noites eram passadas a dar mama de duas em duas horas, acordava enremelada e a amaldiçoar a sorte dos homens em não amamentarem, lavava a cara a correr, enquanto o miúdo gritava que queria mamar e que tinha a fralda suja, metia a mama de fora, foda-se, estamos sempre com a mama de fora, mudava-lhe a fralda, fazia um esforço hercúleo para o adormecer, o raio do miúdo nunca gostou de dormir, bebia um café a correr e comia uma torrada com pão do dia anterior, despachava a mais velha entre birras e questões existenciais, ia levá-la à escola, passava no supermercado bem a tempo do miúdo acordar impaciente para mamar, chegava a casa, dava-lhe de mamar, mudava-lhe a fralda, mais uma maratona para o adormecer, arrumava as compras, fazia as camas, lavava a loiça do pequeno-almoço, metia roupa a lavar, o miúdo acordava, dava-lhe banho, de mamar, mudava-lhe a fralda outra vez, aproveitava que o miúdo estava acordado para aspirar e lavar o chão, fingia que almoçava qualquer coisa quase sempre pouco saudável, voltava a dar-lhe de mamar e a mudar-lhe a fralda, o miúdo adormecia desta vez sem esforço, eu estendia a roupa que estava à minha espera na máquina, metia mais roupa a lavar, tirava alguma coisa do congelador para o jantar, lembrava-me que ainda não tinha lavado os dentes, o miúdo acordava, voltava a dar-lhe de mamar e a mudar-lhe as fraldas mais cagadas que já vi na vida e quando dava por isso já era horas de ir buscar a mais velha à escola e eu ainda não tinha tomado banho, voltava para casa com os dois quando o mais novo já queria mamar outra vez, dava-lhe mama, mudava-lhe a fralda, metia-o na espreguiçadeira e aproveitava para dar banho à mais velha, sentava-me cinco segundos com eles no chão a brincar até me lembrar que ainda não tinha começado a fazer o jantar, que não tinha comprado fruta e que o pão não chegava para o pequeno-almoço do dia seguinte,  o pai chegava, o jantar ainda estava a meio, a mesa não estava posta e eu gritava foda-se vou finalmente tomar banho!

 

Estar de licença de maternidade é passar o dia com a mama de fora, a mudar fraldas, a desejar que os miúdos durmam para estendermos roupa e que acordem para aspirarmos o chão, é lavarmos os dentes a meio da tarde e tomarmos banho quando o pai chega a casa. Quando alguém vos disser para aproveitarem a de licença de maternidade para descansar sintam-se à vontade para mandar essa pessoa à merda. 

 

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16
Ago18

Stop Body Shaming

Susana

Quando eu tinha vinte e poucos anos pesava sessenta quilos, tinha um longo cabelo liso, não tinha barriga, usava um piercing no umbigo, tinha a confiança de uma anémona e dizia que a única coisa que gostava em mim era das pestanas. 

 
Hoje tenho trinta e nove anos, peso a mais, tenho olheiras, cabelos brancos, sardas como nunca, manchas na testa, uso óculos e aparelho nos dentes, tenho mais mamas do que gostaria e a gravidade não foi minha amiga, tenho estrias, derrames e varizes nas pernas, os meus braços há muito que ganharam flacidez, tenho barriga, um rabo grande, celulite, coxas largas e porra, nunca gostei tanto de mim. 
 
O meu corpo não é perfeito, mas é o meu e aprendi a olhar para mim para lá do corpo. Vejo a mulher, a personalidade, a confiança e a força, o mau feitio e o sentido de humor. Ainda vejo o corpo com todos os seus defeitos, mas vejo-o através dos meus olhos e não através dos olhos dos outros. E aceito-o.
 
A aceitação começa em nós. Se o fizermos dificilmente cedemos ao que os outros esperam de nós, ao que a sociedade diz que é bonito ou perfeito. A sociedade que se foda. 
 
É um lugar comum, mas não adianta ter um pacote do tamanho perfeito, embrulhado com um papel bonito e com um laço espetado, se lá dentro não está merda nenhuma. 
 
#stopbodyshaming
 
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13
Ago18

Parir é parir

Susana

- Os meus filhos nasceram de cesariana. 

- Isso é mais fácil, não é? 

 

- O meu filho nasceu de parto natural e recusei levar epidural. 

- És corajosa!

 

Foda-se, corajosas foram as nossas avós que, quase sempre sem alternativa, pariram em casa. Corajosa foi a minha avó que teve treze filhos e quase todos nasceram em casa, sabe Deus e a sorte como. Nós somos só parvas que, a dada altura, cansadas de ter acesso aos melhores cuidados de saúde, resolvemos entrar no campeonato do sofrimento e do sacrifício, como se no final do dia isso fizesse de nós melhores mães. E adivinhem? Não faz. Impressionante, não é? 

 

Não sei em que momento as mães se deixaram levar para dentro deste campeonato, mas não foi numa hora muito inteligente. Uma mulher engravida, se tudo correr bem a criança passa nove meses dentro da nossa barriga e quando chega a hora, que se quer pequenina, a única coisa que realmente importa é que a criança nasça da forma mais segura possível para ela e para a mãe. Não me parece muito difícil de entender, não me parece minimamente razoável que disto se faça um pódio e matéria prima para se foder a cabeça umas às outras. 

 

Há muitas maneiras de parir: parto natural, com ou sem epidural, de cesariana, dentro de água, em casa e há quem nasça em ambulâncias e até aviões. Há partos mais fáceis, partos mais difíceis, há partos com muito ou pouco sofrimento e nenhum confere às mulheres uma medalha de bom comportamento. Há quem chore, quem grite, quem implore pela epidural, quem não tenha tempo para a levar e quem a recuse, há quem passe vinte e quatro horas em trabalho de parto, há quem chegue ao hospital com a criança prestes a nascer, há quem tenha o parto que planeou e há quem se veja a caminho de uma cesariana de emergência. 

 

Chamamos corajosa a quem opta pela dor e chamamos maluco a alguém que pede para lhe arrancarem um dente sem anestesia. A mim nada me parece mais estúpido que recusar aquilo que a ciência nos trouxe, menos sofrimento, melhores cuidados de saúde e mais segurança a troco de uma superioridade moral que interessa muito pouco. Mas, cada uma faz as suas escolhas, segue satisfeita consigo e, se não foder a cabeça a ninguém, continuamos amigas como antes.

 

Nenhuma escolha relacionada com o parto faz de umas corajosas e de outras fracas, porque a verdade é que cada uma fez aquilo que foi necessário para os ter ali. Naquele momento mágico em que nascemos outra vez e começa esta louca viagem pela maternidade, não precisamos que nos fodam a cabeça com campeonatos, pódios e medalhas. A única medalha que nos deve realmente importar está nos nossos braços. 

 

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