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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

14
Set18

Breve inquérito a pais normais (1)

Susana

Hoje meti um homem a escrever por mim e trago-vos o primeiro breve inquérito a pais normais. E para começar o meu amigo Nuno Gonçalo Poças. Já tinha partilhado aqui alguns textos do Nuno, que são sempre uma visão crítica e lúcida da nossa sociedade. E rara. Precisamos de mais intervenções públicas assim, não deixem de o seguir. Voltando ao inquérito, diz o Nuno que desde que foi pai nunca mais tomou banho sozinho #estamosjuntos e que os homens que não estão dispostos a partilhar com as mulheres o lado negro da parentalidade deviam ficar quietos.

 

As respostas do Nuno.

 

Nuno Poças, 32 anos, cansado, advogado, casado e pai de uma filha de 16 meses.

 

Qual a coisa de que tens mais saudades de fazer desde que és pai?

De poder deitar-me tarde e dormir sem limites. De comer sem ter de partilhar tudo o que como. De poder tomar banho sem dedos a apontar para mim do lado de fora da banheira. De não estar sempre a apanhar coisas do chão. De não estar sempre a dizer “não”. De poder ir para qualquer lado só com uma mochila ou com a carteira no bolso.

 

O que mudou em ti com a paternidade?

A capacidade que ganhei de trabalhar um dia inteiro e chegar a casa sem saber o que estive a fazer porque estive cheio de sono o dia todo. Mudou muito a forma como olho para o futuro, sobretudo, e a forma como decido determinadas coisas na minha vida. Despedir-me por cansaço, por exemplo, deixou de ser uma opção e antes de ter filhos era.

 

És o pai que imaginaste?

Acho que sim, com os defeitos e tudo. Mas também sei que se é pai todos os dias e que todos os dias os miúdos mudam e nós com eles, todos os dias temos de estar à altura e há dias em que não estamos, por isso não sei bem. Sei que faço o melhor que sei e que posso, que já fiz coisas que nunca me tinha imaginado a fazer e que já fiz coisas de que me arrependi. Mas acho que sim, que sou o pai que imaginei. A minha filha vai para a escola e passa algum tempo a perguntar por mim, por isso acho que sim.

 

Que conselho darias a alguém que está a pensar em ser pai?

Primeiro que queiram mesmo ser pais e que saibam estar à altura da circunstância. Que se envolvam tanto como as mães, que não deixem o lado negro disto para elas. Que sejam Homens e percebam que é preciso mudar fraldas, dar banhos, acordar a meio da noite, preparar biberões, e que se podem continuar a fazer imensas coisas que se fazia sem filhos, mas de forma diferente ou mais reduzida. Se não estão para isso, é melhor estarem sossegados e pouparem uma mulher à tormenta que é criar uma criança sozinha.

 

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14
Set18

Gravidez não é doença? Às vezes se não é parece.

Susana

Gosto sempre das alminhas iluminadas e bem pequeninas que lá porque tiveram uma gravidez santa e abençoada pela Nossa Senhora da Gravidez Sem Sintomas e Riscos, se julgam no direito de dizer às outras que estão a exagerar, que faz parte, que a gravidez não é doença e que deviam ficar felizes e erguer as mãos aos céus e agradecer por terem a possibilidade de conceber. Sim, isso.

 

Pode ser difícil para algumas mulheres (e homens, porque caraças, como eles gostam de opinar sobre isto) entenderem que às vezes a gravidez é uma carga de trabalhos, mas a verdade é que é e se calhar essas mulheres é que deviam erguer as mãos aos céus e agradecer por terem tido uma gravidez tranquila.

 

Há quem tenha sintomas desde o momento em que o espermatozoide mais rápido que os outros fecundou o óvulo, há quem vomite a gravidez inteira sem que o São Nausefe lhe alivie os dias, há quem tenha dores em sítios do corpo que desconhecia que existiam, há quem desenvolva diabetes gestacional, há quem não seja imune há toxoplasmose, há quem tenha descolamento da placenta, há quem tenha perda de liquido amniótico, há quem tenha hipotiroidismo ou hipertiroidismo, há quem tenha que passar a gravidez inteira deitada, há quem tenha anemia, patologias cardíacas ou outras que nos dificultam a vida.

 

Resumindo, há um sem número de mulheres para quem efetivamente a gravidez mais parece uma puta de uma doença, por isso calem-se, sim? Não fazem ideia do que a grávida a quem dizem que a gravidez não é uma doença está a passar.

 

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14
Set18

Coisas imprescindíveis para uma mãe não enlouquecer:

Susana

- Sentido de humor;

- Dizer que se foda;

- Assumir que somos imperfeitas;

- Mandar à merda as opiniões dos outros;

- Existir para além dos filhos;

- Dar pontapés na culpa;

- Álcool.

 

Fico sempre com o olho direito a palpitar quando vejo a dificuldade de algumas mães em se libertarem do papel mãe perfeita. Eu percebo, é fodido. Quando assumimos que somos imperfeitas estamos a assumir que erramos e se é difícil assumirmos para nós mesmas que erramos, é ainda mais difícil assumir perante os outros que estão sempre prontos a julgar uma mãe, que somos de facto imperfeitas. Mas, os outros que se fodam. Somos todas imperfeitas e estamos todas à beira de um ataque de nervos, só que umas escondem melhor que outras, mas no final do dia, quando deitamos os miúdos e nos sentamos no silêncio, todas, todinhas, pensamos que não vamos aguentar, que os miúdos rebentam com a nossa paciência e que era tão bom que os filhos da mãe fizessem o que lhes dizemos à primeira.

 

Não se levem demasiado a sério, digam mais vezes que se foda, riam de vocês e desta loucura que é a maternidade e não tenham medo de assumir que são imperfeitas. É que fica tudo (um bocadinho) mais fácil.

 

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14
Set18

Se não têm nada de bom para dizer fiquem caladinhas, sim?

Susana

- Se não têm paciência para ter filhos não os tenham.

 

Há coisas que são ditas com demasiada frequência e em que eu hesito em mandar as pessoas diretamente à merda sem passar pela casa de partida ou em desatar aos pontapés contra todos os meus princípios de não-violência.

 

Esta frase ou variantes dela, podem ser ditas por quem não tem filhos e aí até dou um desconto, porque eu antes de ter filhos também era a mãe perfeita, mas também é dita por quem tem filhos e aí não há desconto que lhes valha. Não sei que porra estas pessoas têm na cabeça e porque lhes é tão fácil julgar as outras mães, não sei se tomam alguma merda que as faça estar sempre em modo mãe perfeita fora de casa e em casa partem a loiça toda contra a parede, não sei se é apenas o prazer de foder a cabeça às outras ou se são mesmo assim parvas, o que sei é que não é aceitável dizer aos outros o que os qualifica para ter filhos e de que forma devem exercer a sua parentalidade.

 

Não é aceitável dizer que quem perde a paciência, dá um grito ou uma palmada aos filhos não é bom pai e não devia ter filhos. Não é mesmo e estou cansada desta merda das mães perfeitas, zen e com a mania que sabem tudo, que vivem para apontar o dedo e tentar encher os outros de culpa. Se não têm nada de bom para dizer fiquem caladinhas, sim?

 

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14
Set18

O pós-parto

Susana

O pós-parto, Deus e todos os santos nos ajudem, haverá fase mais filha da puta?

 

Começa naquele momento aterrador em que nos deixam sozinhas com o bebé. O bebé já nasceu, correu tudo bem (ou menos bem), estamos inebriadas com o efeito da adrenalina, das drogas, do cansaço, da confusão da maternidade e eis que a hora da visita do pai acaba e nos deixam sozinhas com aquela criatura que ainda agora estava dentro da nossa barriga e que agora está ali, minúscula e frágil.

 

Dizem-nos que temos que proteger aquela criatura e tudo o que queremos é que nos protejam a nós daquele vendaval de emoções, que nos deem colo e que nos digam ao ouvido que vai correr tudo bem. Temos que cuidar e saber cuidar, sem hesitações, dar banho, mudar as fraldas, tratar do cordão umbilical, amamentar, temos que saber tudo, logo, sem erros, uma mãe sabe, não sabias? E temos que amar, amar instantaneamente, ao primeiro cheiro e ao primeiro toque, temos que amar imediatamente e loucamente aquela criatura minúscula e frágil que ainda agora chegou à nossa vida.

 

Que merda é esta que nos está a acontecer? Parece que fomos atiradas para dentro de um filme e ninguém nos deu a porra de um guião.

 

Regressamos a casa e já não somos nós, nascemos de novo e somos a mãe. E a mãe que pariu um pequeno milagre só pode estar feliz, eufórica, não pode chorar, nem sentir-se confusa. As hormonas que se fodam, a mãe que se recomponha, que meta um sorriso no rosto e que amamente a criança que já está com fome outra vez. Os dias passam iguais e a mãe que sorri nunca se sentiu tão sozinha, vê outras mães que também sorriem e não percebe, algumas já voltaram ao ginásio, mostram a barriga lisa, juram que amaram os filhos ao primeiro olhar e garantem que é tudo fácil, as amigas estão a trabalhar, o marido chega ao final do dia e a mãe sente-se culpada por ainda olhar com desconfiança para aquela criatura que lhe meteram nos braços e de não conseguir estar à altura das expectativas dos outros.

 

O pós-parto é um lugar estranho, solitário e onde as expectativas dos outros em relação ao que devemos sentir e fazer nos fodem o juízo. O pós-parto não tem dia marcado para acabar, não sabemos quando vamos sentir aquele amor avassalador, pode demorar um dia ou vários, a barriga pode demorar meses a ir ao lugar e as putas das hormonas vão ficar descontroladas muito tempo, podemos chorar, podemos pedir ajuda, podemos não saber tudo. E está tudo bem. Vai correr tudo bem.

 

Os outros que se fodam.

 
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