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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

05
Mar18

Viajar com os miúdos e sobreviver para contar a história

Susana

Quando o meu marido me disse que ia estar ausente em Fevereiro, fiquei no meu modo habitual de sofrimento por antecipação e à beira de um ataque de nervos, (não que as ausências sejam uma novidade), mas porque esta ausência ia coincidir com o aniversário do meu marido, que perante o meu espernear lançou calmamente a bomba atómica:

 

- Já está tudo pensado, no dia do meu aniversário vens com os meninos ter comigo.

 

Juro que pensei que o meu marido me queria matar. Ele sabe que eu sofro dos nervos.

 

- Eu, que fico com as pernas a tremer só de trazer o carro para Lisboa, (suburbana forever), vou conduzir mais de 380 km sozinha com os miúdos? Nem pensar.

 

Eu explico. Eu adoro conduzir, não se enganem, poucas coisas me dão tanto prazer como pegar no carro e ir, conduzo bem, também não se enganem, mas tirei a carta há quatro anos depois de a minha filha nascer, nunca tinha feito uma viagem tão longa e já é difícil trazer os miúdos da escola para casa sem berrar vinte vezes quanto mais meter-me nesta viagem.

 

A verdade é que seria impensável não celebrarmos juntos os quarenta anos do meu marido e eu soube logo naquele momento que sim, que eu iria fazer aquela viagem com os miúdos. Por isso, depois do choque inicial, respirei fundo, fui ver o percurso, reservei a casa para o fim-de-semana e não pensei muito no assunto até ao próprio dia.

 

O dia chegou e a primeira aventura começou mal fechei a porta de casa. Eu, os miúdos, as malas e como é que raio vamos descer três andares sem elevador? Vocês sabem, sair à rua com os miúdos para ir ao parque já é o que é, agora imaginem a quantidade de roupa para três dias. E se o miúdo se suja dez vezes por dia como é habitual? E se estiver muito frio? Se calhar é melhor levar mais um casaco para cada um. A minha roupa, sapatos, fraldas, toalhitas, produtos de higiene, medicamentos, brinquedos, comida e água para a viagem. Seja o que Deus quiser e foi tudo arrastado pelas escadas abaixo.

 

Malas no porta-bagagens, miúdos nas cadeirinhas, o destino no GPS, as recomendações para se portarem bem e não me enervarem, e cá vamos nós. A gritaria começou ainda não estávamos na Ponte Vasco da Gama e durou toda a viagem. Toda. Ela queria o brinquedo que ele tinha, ele queria o brinquedo que estava no chão, ela não queria a música que estava a dar na rádio, ele queria que eu lhe desse a mão.

 

- A sério, filho, como é que eu te vou dar a mão?

 

Chegamos a Lisboa e o GPS dá cabo de tudo, manda-me para um sitio que não era aquele que eu estava a contar, dou umas voltas inesperadas com as pernas a tremer e a amaldiçoar a ideia de estar a fazer aquela viagem, mas quando dou por mim já estou onde quero, rodeada de trânsito selvagem, camiões e carrinhas por todo o lado, confiante que afinal vai correr tudo bem, enquanto ignoro a confusão que vai lá atrás.

 

Não fossem os gritos deles, as birras, as dores de barriga da minha filha, os pedidos para eu apanhar coisas do chão ou para meter o CD do Marco Paulo (a minha filha é fã) enquanto conduzo e a viagem tinha sido suave, sem percalços, mas quando fizemos a primeira paragem em Santarém a minha cabeça estalava e ainda faltavam mais de três horas daquilo.

 

À primeira paragem, outra dificuldade: irmos os três à casa de banho. Eu e o pânico de todas as mães numa casa de banho:

 

- Não toquem em nada!

 

Enfim, eles tocam em tudo. É esperar que não metam as mãos na boca ou nos olhos antes de as lavarmos. Primeiro foi ela, depois mudei-lhe a fralda a ele e finalmente eu e os miúdos enfiados no cubículo da casa de banho e a indignação da minha filha, como se em casa não passassem a vida enfiados na casa de banho comigo:

 

- Mas, agora temos que estar aqui a ver-te a fazer chichi?

 

Seguimos viagem. A minha filha finalmente adormeceu. O meu filho não dormiu um segundo. A viagem estava a correr bem, sem muito trânsito e eu penso em não fazer a segunda paragem, para aproveitar que ela estava a dormir e ele relativamente calmo, ou seja, sem gritar. Enquanto penso, o meu filho chama-me e vejo que tirou os braços do cinto. Raios partam o miúdo. Fiquei em pânico, a mais de 10 km da próxima estação de serviço e o miúdo sem cinto. Eu grito, digo-lhe para se encostar, para meter os braços dentro do cinto, eu grito cada vez mais, a irmã acorda e estamos as duas a gritar e ele a rir-se. Foram os 10 km mais longos de sempre. Quando parei em Estarreja, dei-lhe um raspanete, vulgo palmada, ele riu-se, apertei-lhe o cinto o mais que consegui, ele riu-se, respirei fundo e continuei a viagem.

 

Quando chegámos ao Porto senti-me a maior, caraças, eu tinha conseguido, estava quase. Para contrariar este meu sentimento maravilhoso, a minha filha começou a gritar com dores de barriga e o meu filho começou a enfiar os dedos na boca e, apesar de todos os meus pedidos, a viagem até à Póvoa de Varzim foi feita com esta banda sonora: a mais velha aos gritos e o mais novo a agoniar-se.

 

A minha vontade foi meter os quatro piscas, parar o carro, sair e dar uma palmada a cada um. Não o fiz. Ignorei o mais que consegui, o meu filho acabou por tirar os dedos na boca e a minha filha, bem, a minha filha, a duzentos metros de chegarmos ao destino, disse-me que não aguentava mais e vomitou o carro todo.

 

Cheguei ao pé do meu marido exausta, descabelada, com a cabeça a estalar, a paciência toda rebentada e com o carro vomitado, mas voltava a fazer esta viagem de doidos outra vez. Acho eu.

 

Texto em parceria com a Up to Kids.

22
Fev18

Detestei amamentar

Susana

Detestei amamentar. Começo assim o texto para não o lerem ao engano. Nunca pensei que a amamentação fosse um momento mágico em que ouvimos música celestial, enquanto as pequenas crias sugam o leite das nossas mamas e que o vínculo entre mães e filhos só se desse assim, ou que fosse imprescindível para as defesas dos nossos filhos, ou que todas as coisas que nos tentam enfiar na cabeça fossem a preto e branco, mas imbuída do espírito de sacrifício que toda a mãe deve ter, amamentei (ou tentei amamentar) os meus filhos.

 

Tive duas experiências diferentes e detestei cada uma delas.

 

Com a Mariana foi tudo difícil, ela nasceu antes das 38 semanas, era minúscula e fazia da mama uma chucha. Eu não o percebi e os enfermeiros que chamei trezentas vezes, enquanto estive na maternidade também não. O primeiro que me viu quando fomos para o quarto parecia uma criança maravilhada com um brinquedo novo, juro, mexeu-me nas mamas, espremeu os mamilos, eu tinha imenso leite disse-me radiante. Fiquei estupidamente contagiada com tanto entusiamo, só podia correr bem. Não correu. A Mariana passava horas na mama e quando eu os chamava todos me diziam o mesmo, que eu tinha muito leite, para experimentar dar mama deitada para um lado, depois para o outro, depois com a cabeça dela numa almofada, depois sentada no cadeirão, depois em pé, depois a fazer o pino e nada. Ralharam comigo, exigiram-me paciência. E eu tive. Eram eles que me davam as drogas para as dores e eu obedecia. Passava horas sentada num cadeirão e a minha filha passava horas irritada a tentar mamar e não se ouvia música celestial em lado nenhum. Piorou no dia em que devíamos ter alta. A pediatra informou-me que ela tinha perdido muito peso e que estava desidratada. O mundo desabou na minha cabeça. Vi-me inundada em culpa. A miúda só tem quatro dias e eu já estou a fazer tudo mal. Ainda na maternidade dávamos Leite Adaptado para ela ganhar peso e insistíamos na mama, mas a mama era o nosso momento de irritação, de frustração e de culpa. Continuava a não mamar e eu acabava por lhe enfiar um biberão cheio de LA goela abaixo. Ela ficava feliz e eu também.

 

Quando ela fez um mês desisti e passou exclusivamente a LA.

 

Com o Tiago foi tudo fácil. No recobro, assim que a enfermeira o meteu na minha mama, eu senti sem qualquer dúvida que ele estava a mamar. Aliás, aposto que se eu deixasse ele ainda hoje mamava. O meu filho nasceu de 41 semanas e três dias, era grande, e eu tal como da primeira vez, tinha muito leite e o meu pequeno bezerrito mamava de duas em duas horas. Era mamar, arrotar, mudar a fralda, mamar, arrotar, mudar a fralda, mas apesar da aparente facilidade, continuei a detestar com todas as minhas forças. Amamentar é muito doloroso, eu sei que depois melhora um pouco, mas enquanto não melhora dói, os mamilos estão gretados, sensíveis, as mamas estão sempre inchadas. Eu tinha leite para alimentar uma ninhada de gatos. Não havia discos de amamentação que aguentassem. Acordava sempre com o pijama molhado, cheguei a tomar banho durante a noite, nos intervalos em que ele me largava as mamas. Que era pouco tempo, porque acordava quatro e cinco vezes para mamar durante a noite. Era desconfortável. Sempre detestei amamentar fora de casa, sentia-me sem privacidade. E era uma prisão. A primeira vez que tirei leite com a bomba para poder sair, fui com o meu marido a um concerto, passei o concerto com as mamas a rebentar e quando cheguei a casa estavam cheias de caroços e eu chorei de dor. Eu detestava, mas o miúdo gostava e crescia e eu aceitei as condições. A única vantagem era ser grátis.

 

Quando ele fez cinco meses precisei de começar a tomar uma medicação e não pensei duas vezes, comecei imediatamente a dar LA em exclusivo. Como castigo, o meu filho não me deixa dormir bem até hoje.

 

Das duas vezes tomei a decisão de deixar de amamentar de forma consciente e sem culpa, sabendo que não estava a prejudicar os meus filhos. A amamentação está sobrevalorizada. Amamentar é alimentar e não tem que ser necessariamente com as nossas mamas. Este é um tema que gera muita discussão, não raras vezes acéfala, acusadora e fundamentalista. Existe muita pressão dos médicos, dos enfermeiros, da família e dos amigos, para que a mãe amamente, chega a ser terrorismo psicológico e pode ser demolidor para quem não souber lidar com isso. Como toda a gente sabe, ser mãe é uma condição cheia de sacrifício e se tu não sacrificas as tuas mamas pelos teus filhos, não podes ser boa mãe.

 

Detestei amamentar e esta é a minha experiência, não é um manifesto contra a amamentação, o que desejo é que cada mãe possa ter a sua experiência, fazendo as suas escolhas, sem culpa, sabendo que não é a amamentação que a define enquanto mãe.

 

Em parceria com Up to Kids.

16
Fev18

Deixem as mães em paz, porra!

Susana

Estava no hospital à espera da minha vez para uma consulta, a sala cheia, pessoas sentadas, pessoas em pé, umas a conversar, outras a tossir, outras a reclamar, o placard a anunciar o número das senhas e de repente o choro de uma criança fez parar o barulho ensurdecedor da sala. Estremeci. Reconheço de cor o som de uma birra. Olhei e vi uma mãe com olheiras até ao chão, cabelo apanhado à pressa, um ar que tanto podia ser de desespero, como de exaustão, como de loucura. Era a vez dela, senha quinze, guichet número cinco. A miúda a fincar os pés no chão, a mãe a arrastar a miúda pelo braço e o choro cada vez mais alto. O placard anuncia outra vez a senha quinze, guichet número cinco. A mãe chega finalmente ao guichet, pede desculpa, um sorriso amarelo, a miúda senta-se no chão, a mãe tenta tirar papéis de dentro da mala, a miúda deita-se no chão a chorar, a mãe entrega o cartão de cidadão, a miúda puxa o casaco da mãe, a mãe não aguenta mais e dá um berro:

 

- Estás a fazer birras deste que acordaste, acaba já com isso ou levas uma palmada no rabo!

 

A mãe olhou à volta, pegou na filha ao colo, baixou a cabeça e saiu da sala.

 

Tive vontade de me levantar e ir abraçar aquela mãe. Podia ser eu. Podia ter sido eu o alvo daqueles olhares reprovadores. Aquele cansaço e aquele desespero podia ser meu.

 

Dias mais tarde, novamente numa sala de espera, desta vez nas urgências do centro de saúde com o meu filho, enquanto esperava que o chamassem, uma miúda choramingou o tempo todo. Todo. Passava do colo da mãe para o colo do pai, levantava-se, sentava-se no chão, deitava a cabeça nas cadeiras, fugia para os gabinetes das enfermeiras, dava pontapés no caixote do lixo, o pai levou-a a apanhar ar, voltou para o colo da mãe, atirou o telemóvel da mãe ao chão, a mãe deu-lhe uma palmada no rabo, ela chorou ainda amais alto e a mãe saiu da sala com as lágrimas nos olhos perante o abanar de cabeça de quem lá estava.

 

Tive vontade de me levantar e ir abraçar aquela mãe. Podia ser eu. Podia ter sido eu o alvo daqueles olhares reprovadores. Aquele cansaço e aquele desespero podia ser meu.

 

Aquela mãe precisava de um abraço, de colo, de alguém que lhe dissesse que não é má mãe, que os miúdos fazem birras sabe Deus porquê e que a culpa não é nossa. Mas, tudo o que esta mãe e a outra mãe e todas as mães recebem quase sempre, é aquele terrível olhar reprovador que diz sem dizer que estamos a fazer tudo mal, que não prestamos neste trabalho de sermos mães dos nossos filhos, que os miúdos são mal-educados e a culpa é nossa. Não impomos respeito, não sabemos educar e não definimos limites.

 

Vejo isto a toda a hora e em todo o lado. Nas salas de espera das urgências, nas filas de supermercado, nas lojas, no cinema, na praia, nos parques infantis, nos transportes públicos, nos restaurantes, em nossa casa. Que os miúdos se livrem de se mexerem na cadeira do restaurante, de se rirem alto, de se meterem nas nossas conversas, que se livrem de chorar de aborrecimento, de cansaço ou de dor, que se livrem de fazer uma qualquer birra estúpida, que se livrem de serem pessoas em construção, com vontades, frustrações e tentativas manhosas de nos manipular. Que se livrem de serem crianças, porque se o fizerem a culpa é nossa. Das mães que aos olhos dos outros não sabem ser mães.

 

Texto em parceria com a Up to Kids.

12
Fev18

Breve inquérito a mães normais (7)

Susana

A próxima mãe a responder ao inquérito é a minha amiga Sara. A Sara começa por me perguntar se eu acho mesmo que ela é uma mãe normal e a verdade é que não acho, a Sara é uma mãe extraordinária. Penso imensas vezes nela quando me sinto cansada e sinto-me minúscula perante tanta coragem. A Sara é mãe de cinco filhos, ela e o Nuno, o marido, decidiram deixar Portugal e emigrar para Praga. Vivem longe da família e dos amigos, mas mais perto do que possam imaginar. Vivem no meio da floresta, a Sara é mãe, professora dos filhos e ainda uma fonte de inspiração. Prometo que ainda vos volto a falar da Sara e do Nuno outra vez.

 

Sara, 40 anos, ex-professora de Educação Física, de há cinco anos para cá, mãe a tempo inteiro. Cinco filhos - 4 miúdas, com 12, 9, 5 e 2 anos + 1 miúdo com 4 anos. Passei a ser mãe a tempo inteiro quando optámos pelo Ensino Doméstico, portanto posso dizer que as minhas funções de mãe abrangem o ensino escolar dos meus filhos.

 

Qual a coisa de que tens mais saudades de fazer desde que és mãe?

Dos hobbies. Esses ficaram um pouco esquecidos nos últimos anos, mas aos poucos vou recuperando, especialmente em tempo de férias.

 

O que mudou em ti com a maternidade?

Algumas coisas mudaram. Conhecer uma outra forma de amor - abnegado, que dá sem questionar, com prazer, de forma sacrificial (sem que seja um sacrifício). Menos ego. A minha certeza de que eu era uma pessoa muito paciente, que dificilmente se irritava. Afinal não era verdade. Compreender melhor os outros pais (e os meus próprios!). Não compreender os outros pais (sim, isto dá para os dois lados). Preocupação. Preocupo-me mais.

 

És a mãe que imaginaste?

Não tenho certeza, não me lembro exatamente do que imaginava. Se te referes a ser exatamente como gostaria..., há coisas (várias!) a melhorar e a aprender. Contudo, também há áreas na maternidade em que fui além do que alguma vez imaginei. Por exemplo, nunca pensei vir a ficar em casa, dedicada aos miúdos - isso seria impensável -, e, afinal, faço-o com gosto!

 

Que conselho darias a alguém que está a pensar em ser mãe?

Um conselho... Avança! Sem medos. É uma das viagens mais bonitas da nossa vida.

08
Fev18

Detesto o Carnaval

Susana

Não sei que idade tinha, uns sete ou oito anos talvez, porque já andava na escola primária. Pedi à minha mãe para me mascarar e a única máscara que arranjou foi uma de criada que alguém lhe emprestou. Coitada da criança que a vestiu antes de mim. A máscara era ho-rro-ro-sa. Um vestido curto preto, um avental branco com folhos e uma espécie de espanador. Se os meus pais fossem ricos, eu devia ter feito terapia depois desse Carnaval. Não fiz.

 

Adiante, vou para a escola com a máscara mais feia de sempre e dou de caras com a minha arqui-inimiga. A estúpida também se chamava Susana, era loirinha, de olhos azuis (não é sempre assim?), boa aluna como eu, queridinha da professora, nova riquinha dos subúrbios, sonsa como tudo. Lá estava ela, no recreio da escola, com a sua máscara espampanante de dama antiga. Caraças, fecho os olhos e ainda a vejo naquele vestido lindíssimo cor-de-rosa, com direito a peruca loira com canudos, maquilhagem, sapatos de salto e uma bolsa com brilhantes. Eu nem pintada estava. Ela estava giríssima e eu era literalmente a criada.

 

Apeteceu-me dar-lhe com o espanador na cabeça, mas nessa idade eu era uma espécie de mosca morta e contentei-me por ficar a chorar a um canto. Devo estar a exagerar, porque não me lembro de ter ficado a chorar a um canto, mas um bocadinho de drama fica sempre bem.

 

É só uma história que ajuda a explicar porque detesto o Carnaval. Não sei o que é feito dessa Susana, nem o que ela pensou desse Carnaval. Se estava feliz, se era feliz, se tinha a noção de que era a miúda rica das vivendas, em oposição aos muitos miúdos pobres do bairro. Não importa, essa miúda já não existe. Depois disso não me voltei a mascarar.

 

Hoje, tantos anos depois, com dois filhos que, ao contrário de mim, adoram o Carnaval, sou aquela mãe com ar tresloucado que deixa tudo para os últimos dias e que tenta a todo o custo encontrar uma capa de super-heroína para completar a máscara da filha.

 

Os filhos amolecem-nos e não há ódio de estimação que sobreviva.

 

Texto em parceria com a Up to Kids.

01
Fev18

O nosso colo não cura tudo

Susana

Como mãe sinto muitas vezes frustração. Não apenas quando não consigo acalmar uma birra ou quando não consigo dormir uma noite inteira sem interrupções, mas principalmente quando os meus filhos estão doentes. 

 

Ontem, depois do jantar, dei por mim a caminho do hospital com a minha filha. Outra vez. O costume. Na sala de espera, já cansada, ela deitou-se no meu colo, encostou a cabeça no meu peito e adormeceu. Senti-lhe o cheiro doce dos cabelos, as mãos quentes da febre e, exausta, chorei. 

 

Chorei de cansaço e de frustração.

 

Na semana passada estiveram os dois doentes (a bem da verdade, ainda não deixaram de estar doentes desde o Outono) e já estou outra vez sentada no frio da sala de espera da urgência pediátrica.

 

Conheço de cor a tosse, a respiração, com ou sem expetoração, os nomes dos medicamentos, a dosagem, sim, faz essa bomba todos os dias, vamos aumentar a dose, vamos experimentar estes comprimidos, este é de doze em doze horas, os sinais de alarme, sim, eu sei quais são, se não melhorar em dois dias volta cá, então adeus, até daqui a dois dias.

 

Posso gritar?

 

Com o tempo vai melhorar, eles vão crescer, vamos ter saudades: todas já ouvimos isto centenas de vezes, mas a verdade é que o aqui e o agora é feito de miúdos doentes o tempo todo e eu garanto que não vou ter saudades. Estou de rastos, pareço um pano velho que agora só serve para secar as bancadas da cozinha, quando os oiço tossir começo imediatamente a tremer, não durmo bem há cem anos, a tensão quer que eu pare para descansar e recuperar forças, mas vivemos num círculo vicioso interminável. 

 

Abracei a minha filha com força, beijei-lhe a testa e limpei as lágrimas. A maior frustração da maternidade é a do colo da mãe não ser capaz de curar tudo. 

30
Jan18

Breve inquérito a mães normais (6)

Susana

A próxima mãe é uma prima querida que o casamento me trouxe. Lamento apenas a distância que nos separa, porque é sem dúvida das pessoas boas que gostaria de ter por perto. Eu explico, a Paula vive nos Açores, rodeada de lagoas, paisagem verde e vaquinhas sem stress. É mãe de dois rapazes muito especiais, preocupa-se acima de tudo que eles saibam que são amados, (é cá das minhas!), experimentou a tortura do sono com o mais novo (estamos juntas!) e sobreviveu, é professora dos filhos dos outros e das que gostam do que fazem.

 

 

Paula, 41 anos, professora, 2 filhos, um rapaz com 11 e outro com 5 anos.

 

Qual a coisa de que tens mais saudades de fazer desde que és mãe?

Desde que sou mãe tenho saudades de ter tempo para mim, de “vegetar”, ou seja, estar horas a ver uma série, deitada no sofá ou na cama, a comer o que me apetece, sem interrupções.

 

O que mudou em ti com a maternidade?

Com a maternidade melhorei enquanto pessoa, enquanto profissional, enquanto mulher (passe o “cliché”)… Aprendo tanto, todos os dias, reaprendo, ponho tudo em perspetiva, sinto-me capaz de enfrentar certas situações porque os tenho.

 

És a mãe que imaginaste?

Quase sempre. Às vezes, grito mais do que queria, outras, cedo mais do que devia. Sinto que cresço com eles. No entanto, sei que sempre disse que quando tivesse filhos, eles saberiam, sem nunca duvidar, que são muito amados, e isso, tenho a certeza que estou a fazer bem.

 

Que conselho darias a alguém que está a pensar em ser mãe?

Diria que tudo muda, que é como a canção “Um amor para a vida toda…”, um amor que exige muito de nós, que nos põe à prova, que nos faz chorar e duvidar, mas um amor que te enche por completo a vida. Por isso, há que pensar bem antes de tomar esta decisão, pensar nas noites sem dormir, nas birras, nas doenças, na falta de tempo para cuidar de nós… Todas aquelas situações em que não pensamos quando decidimos ter filhos.

17
Jan18

Breve inquérito a mães normais (5)

Susana

Esta semana trago-vos a minha amiga Maria João Marques. É mãe de dois rapazes que dominam a arte de a manipular. Assume-se uma mãe leoa, afetuosa e que perde a paciência mais vezes do que gostaria. Não perdemos todas? É também uma mulher preocupada com o papel das mulheres nas empresas, na política, na sociedade, tem mau feitio na hora de defender os valores que considera importantes (e ainda bem), não prescinde de ter uma voz ativa e não abre mão de reivindicar o espaço que deveria ser das mulheres. São também estes valores que não deixa de transmitir aos filhos. Deixo-vos as respostas da Maria João, não deixem também de a ler por aí.

 

Maria João Marques, 43 anos, Economista, dois filhos, de 11 e 8 anos

 

Qual a coisa de que tens mais saudades de fazer desde que és mãe?

Tenho saudades de não ter horários, de poder jantar fora quando me apetecesse, de não ter de me preocupar com almoços ao fim de semana, de não andar sempre a correr durante a semana de manhã para levar a criançada para as aulas e a partir do meio da tarde a ir buscá-los, levá-los a atividades e a consultas, banhos, trabalhos de casa, jantar, deitar, ufa, enfim, de não terminar os dias com o sentimento de dona de casa desesperada. Não por qualquer desespero ou infelicidade, mas pelo desgaste da correria emparelhado com o tempo que o trânsito de Fernando Medina me faz perder.

 

O que mudou em ti com a maternidade?

A maternidade coloca o centro da nossa vida nos filhos, em vez de em nós. Isso em si mesmo é uma realidade que nos torna melhores pessoas e mais generosas. Deixamos de ser tão auto centradas. Também nos torna mais claras as prioridades da vida. Sabes o que vale a pena e aquilo que é irrelevante. Deixas de ter tempo para as questiúnculas pouco importantes, estás emocionalmente demasiado ocupada para alimentar ódios ou embirrações de estimação. Por outro lado, ficamos exímias na gestão do tempo. Aquilo e quem não nos interessa é riscado do nosso horário e desaparece da nossa vida. Deixamos de ter tempo para fazer fretes.

 

És a mãe que imaginaste?

Não. Ou, pelo menos, não em quase tudo. Não imaginava que fosse um amor tão avassalador. Sou imensamente mais protetora e leonina que alguma vez supus. Tinha a ilusão de que seria uma mãe calma e controlada; claro que, afinal, expludo e grito e perco a paciência e a cabeça mais vezes do que devia. Também não acreditaria se me dissessem que seria tão facilmente manipulável e que capitularia perante os meus filhos com tanta facilidade - ou por cansaço ou por admiração pela proficiência infantil na hora de manipular. Na parte em que não me enganei a mim própria, acho que lhe consigo transmitir os valores que sempre achei que conseguiria; dou-lhes a conhecer pontos de vista originais, curiosos e bem humorados sobre a vida, tal como desconfiava que faria; e sou uma mãe afetuosa e cúmplice e com aversão à disciplina rígida - aqui também não me surpreendi.

 

Que conselho darias a alguém que está a pensar em ser mãe?

Que se prepare para o cansaço e para as despesas, que são sempre mais que planeamos. Que tenha como prioridade absoluta conseguir ter tempos para si própria. Nem que seja, nos momentos mais alucinados dos primeiros anos da maternidade, meia hora para estar enrolada no sofá a preguiçar. E que seja generosa consigo própria, perdoando-se os muitos erros e imperfeições.

11
Jan18

Os miúdos são uns bichos estranhos não são?

Susana

Sinto-me muitas vezes como naquele filme, o Divertidamente, presa dentro da cabeça dos meus filhos a tentar perceber o que se passa lá dentro.

 

Os miúdos crescem, de repente deixam de ser aqueles bebés bolachudos que comem, dormem e brincam o dia todo e passam a ser pessoas em miniatura que, mais que frio ou fome, sentem emoções. Alegria, ciúmes, tristeza, medo, euforia, raiva e em nós, pais em construção, cresce a preocupação de tentar perceber o que é que eles estão a sentir e o que isso diz sobre a personalidade que estão a desenvolver.

 

O meu filho não apanha os brinquedos do chão porquê, se ainda agora estava a arrumar as peças do puzzle? Esta birra que a minha filha está a fazer é de sono ou será que está triste com alguma coisa que se passou na escola? Porque é que o meu filho tem tanto medo do cão da vizinha e ao mesmo tempo adora correr atrás dos pombos? A minha filha está outra vez com ciúmes do irmão, porquê? Será que estamos a dar-lhe menos atenção? Porque é que o meu filho nos desafia e não sai de frente da televisão e depois chora assustado quando deixa cair sem querer um copo de água no chão? A minha filha que ainda agora estava a dançar no meio da sala, está a chorar compulsivamente porque ainda faltam muitos dias para o aniversário dela, porquê? Porque é que a minha filha tem tanta consciência dela própria e isso a impede de se divertir?

 

Não sei.

 

Fico perdida com tantos estados de alma diferentes num curto período de tempo. A mesma ação gera em momentos diferentes reações diferentes, não há um guião, nem um botão como no filme, para impedir que a vida não lhes sorria sempre. Deixa-me um sabor agridoce vê-los a gerir as emoções e as relações com os outros, porque se, por um lado, precisam de liberdade para desenvolver a sua personalidade, por outro, obriga-me a deixá-los lidar sozinhos com situações que como mãe-leoa gostaria de poder resolver a gritar com alguém.

 

A partir do dia em que tomei consciência que os meus filhos fazem parte do mundo e que se vão relacionar com os outros, o meu coração ficou mais exposto. O mundo às vezes é um lugar feio. E nasceram em mim novas perguntas. Será que alguém os magoa? Será que têm as ferramentas necessárias para lidar com os outros? Que emoções são aquelas que aparecem a cada birra? O que se passa naquelas cabeças?

 

Texto em parceria com a Up to Kids.

08
Jan18

Breve inquérito a mães normais (4)

Susana

Esta semana trago-vos as respostas da minha irmã. Para mim, mais que uma mãe normal, ela é uma irmã extraordinária (e chata como todos os irmãos). Apesar da diferença de sete anos que nos separa, eu sou a mais velha (Graças a Deus!), não me recordo da minha vida sem ela. A minha irmã é um furacão e há pouco mais de dois anos deu-me o melhor dos presentes, um sobrinho furacão. Ela diz-se um pouco workaholic, eu digo que ela é uma lutadora que não desiste de lutar pelo que merece, um orgulho para mim que continuo a ser uma irmã galinha.

 

 

Joana Almeida, 31 anos e um pouco workaholic num novo trabalho e com poucas horas no dia para tratar de tudo, 1 filho com dois anos. 

 

Qual a coisa de que tens mais saudades de fazer desde que és mãe?

De ir ao cinema quando queria e de não ter um horário planeado para tudo. 

 

O que mudou em ti com a maternidade?

Mudou a minha perspetiva em relação a algumas coisas, ganhei calma apesar de parecer estranho, mas era muito stressada com as coisas antes de ser mãe. 

 

És a mãe que imaginaste?

Não. Acho que nenhuma mãe pode dizer que é exatamente a mãe que queria ser. Eu tenho vários momentos em que penso que não era exatamente assim que queria que as coisas corressem, mas acho que faz parte.

 

Que conselho darias a alguém que está a pensar em ser mãe?

Que não vale a pena planear tudo ao milímetro. Para não se assustar se houver um momento em que pense "Eu preciso de 5 minutos para mim." E que não tem de fazer tudo sozinha, pode pedir ajuda.

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