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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

10
Mai18

Ser mãe e este sabor amargo

Susana

Quando eu era miúda, um pouco mais velha que a minha filha, andei na ginástica rítmica, acho que era este o nome pomposo que se dava ao que fazíamos na velha coletividade do bairro. Faltava-me o jeito, os óculos escorregavam-me da cara e tinha o mesmo sentido de ritmo que um pinguim coxo e míope. Apesar de tudo, eu lá andava no meio das que tinham algum jeito, de olhos no chão a tentar passar despercebida, enquanto esperava que os óculos não caíssem e a música acabasse depressa para eu sair do palco. Aquilo era penoso, verdadeiramente penoso. Era impossível executar um passo de dança sem pensar no que estava a fazer, no que os outros estavam a ver, no que sentiam e no que eu sentia por me estarem a ver.

 

No outro dia a minha filha teve um sarau. Nos dias anteriores percebi-lhe o nervosismo. As birras ao final do dia, o choro fácil, a voz a tremelicar enquanto me perguntava se já tinha comprado a saia de tule amarelo. Conheço-a de cor. Quando o dia do sarau chegou, a primeira coisa que me disse foi que não queria ir. Ainda na cama, de braços cruzados e de lágrimas nos olhos, tudo o que ela queria era ficar longe dos olhares dos outros. Protegida. Chorou para sair da cama, chorou a tomar o pequeno-almoço, chorou a lavar os dentes, chorou a vestir-se, chorou a pentear-se. Eu conversei com ela, o pai também. Contei-lhe a minha experiência de pinguim, o pai contou-lhe a experiência de guarda-redes falhado, falámos sobre responsabilidade, sobre desiludir os outros, porque o par dela da dança ia ficar triste por não dançar, sobre não ter medo de errar e que basta fazer sempre o nosso melhor e, ainda assim, ela não parou de chorar, de dizer que não ia. Disse-o tantas vezes. Sentimo-nos frustrados por a ver nervosa, por não a conseguirmos acalmar e fazê-la compreender apenas com o dom das nossas palavras que era só um sarau. Confesso que o meu coração de mãe teve vontade de a abraçar e de lhe dizer que não ia, que ia ficar em casa protegida do medo de falhar, que ficava na redoma onde não entra essa consciência dela e dos outros, onde não se sente nervosa por ser o centro das atenções. Foi por muito pouco. Mas, abracei-a com força, disse-lhe que tinha que ir, que estavam a contar com ela. Ela continuou a chorar. Chorou a sair de casa, chorou no caminho até lá, chorou lá, não fez uma das apresentações, conseguiu acalmar-se e dançou com a sua saia de tule amarelo.

 

Senti cada lágrima da minha filha, estava a vê-la e a ver-me a mim de olhos no chão, sei exatamente o que ela estava a sentir, reconheço aquela incapacidade de se soltar por completo, de ser ela por inteiro, sei que a balança pendeu mais para o lado do sofrimento do que para o do divertimento, sei que podia tê-la abraçado e ficado em casa – não tinha importância, era só um sarau, ela é só uma criança, mas eu também sou só uma mãe a aprender a ser mãe, a fazer escolhas pelos meus filhos. E se de um lado estava a mãe-galinha a querer tê-la debaixo da asa, do outro estava a mãe racional a querer ensinar a filha a não fugir.

 

E ser mãe também é este sabor amargo na boca, este orgulho de a ver enfrentar os medos e esta dor de a ver sofrer com isso.

 

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26
Mar18

Breve inquérito a mães normais (9)

Susana

Já vos tinha trazido as respostas da Diana e estavam em falta as respostas da Rita. A minha cabeça anda ao sabor das horas que durmo e ao mesmo tempo que pensava que tinha que pedir as respostas à Rita também me esquecia de o fazer. A Rita sabe bem o que é isto da privação do sono e, também por isso, resolveu com a Diana criar o Amãezónia, que é só a selva mais fixe onde se fala de maternidade sem paninhos quentes. A Rita é uma miúda selvagem que escreve maravilhosamente e que desenha ainda melhor. A selva não seria a mesma sem as ilustrações dela. Deixo-vos as respostas da Rita e se souberem o que é bom podem continuar a seguir o trabalho dela aqui.

 

Rita, sou designer e ilustradora, tenho 36 anos e uma filha com 5 anos

 

Qual a coisa de que tens mais saudades de fazer desde que és mãe?

Tenho saudades de ter muito tempo livre. Não falo do tempo para procrastinar mas do tempo para fazer coisas de que gosto realmente, extra trabalho: sair de noite, ir ver um concerto sem ter de pedir a alguém que fique com a minha filha, ir ao cinema de repente, só porque sim, ir à praia sem hora de regresso para jantar porque se passar das 20h e não houver nada preparado vem birra na certa.

 

O que mudou em ti com a maternidade?

A criança nasce e quando no hospital nos perguntam se temos o ovinho para a levar para casa, é o momento-chave em que percebemos que a criança e o ovinho, a partir de agora, vão estar sempre mas sempre connosco. Nesse momento cresci porque as responsabilidades nunca mais me largaram. 

Depois vai variando de dia para dia: chega o dia em que conheces o verdadeiro orgulho por algo que a tua filha fez, chega a hora em que te deparas com a verdadeira frustração por algo que a tua filha não fez, enfim, parece-me que todas as emoções sofreram um aumento significativo de intensidade desde que ela nasceu. E nunca mais consegui viajar com uma mochila pequena.

 

És a mãe que imaginaste?

Nada. Sempre fui ingénua em relação ao assunto e também nunca fiz grandes expectativas. Achava que ia ser uma coisa muito natural e fácil, mas só uma ingénua pode pensar assim, não é? ahahaha De repente, zás, uma chapada de realidade. 

 

Que conselho darias a alguém que está a pensar em ser mãe?

Ora bem, 3 dicas para quem nunca foi mãe e está a fazer planos: 

1 - Pensem se é mesmo isso que querem antes. Depois o bebé vem mesmo para nossa casa. E chora. E não se pode devolver. ahahah

2 - A minha bebé não dormia. Eu não sabia nada de bebés que não dormem. Informem-se sobre todas as possibilidades reais no Amãezónia e aqui no Ser Super Mãe é Uma Treta.

3 - Esquece a quantidade incrível de opiniões que as outras pessoas dão sobre como cuidar do bebé. O que é melhor para algumas pessoas simplesmente não dá para nós. Sim, eles vão continuar a achar que estás a fazer tudo mal, não te importes.

 

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21
Mar18

A prática do marmitar estava a precisar de regras

Susana

Quando comecei a trabalhar corria o ano 2000 e eu levava o meu almoço num termo e almoçava no armazém da empresa meio às escondidas, mas nos dias de hoje levar a marmita para o trabalho é uma coisa banal.

 

Deixou também de ser uma coisa (quase) exclusivamente de mulheres e passou a ser uma cena fixe que os homens inteligentes, poupados e a quem as mulheres preparam a marmita também passaram a fazer. 

 

E há marmiteiros para todos os gostos.

 

Há os que usam as malas/sacos/mochilas ou o raio xpto que custa os olhos da cara para levar a marmita, há os que levam a marmita nos sacos de papel da última loja onde fizeram compras e se rasgam pelo caminho, há os que usam tupperwares de vidro porque como toda a gente sabe o plástico é cancerígeno, há os que usam tupperwares de plástico do take-away do chinês que como toda a gente sabe derretem no micro-ondas, há os que usam individual, guardanapo de pano, prato e talheres de prata, há os que comem com as mãos e limpam a boca às mangas, há os que gostam de marmitar sozinhos enquanto vêm séries no tablet, há os que gostam de marmitar acompanhados por todo o departamento, há os que gostam de marmitar sozinhos porque não têm paciência para as conversas dos outros e não largam o telemóvel, há os marmiteiros vegan, há os marmiteiros da feijoada, há os marmiteiros do peixe cozido e há os marmiteiros das saladas, o que não há minha gente, são regras!

 

Eu confesso que não sou uma marmiteira fundamentalista. Às vezes marmito, outras vezes não, se tiver sobrado alguma coisa do jantar e eu não me esquecer de trazer lá vou eu para a marmitagem, se me esquecer de trazer há sempre uma sopa à minha espera em qualquer lado, mas quando marmito, sinto falta da porra das regras para a sã convivência no espaço onde todos marmitam.

 

Então:

 

Regra 1 – Os micro-ondas não são para cozinhar a comida, são para a-q-u-e-c-e-r e para a-q-u-e-c-e-r bastam, vá na loucura, dois minutos! Dois minutos e a comida está no ponto. Não usem o micro-ondas para cozinhar lasanhas, batatas assadas, bolos da caneca, o diabo.

 

Regra 2 – Ainda o micro-ondas, sabem as tampas dos vossos tupperwares? Metam-nas em cima dos ditos enquanto aquecem a comida para os micro-ondas não ficarem todos cagados, convenhamos que é um bocado nojento aquecer a comida em micro-ondas todos salpicados do molho da comida alheia.

 

Regra 3 – Estão a ver as pessoas em pé à espera de lugar para se sentarem? Pois, quando acabarem de marmitar, levantem a porra do rabo da cadeira e vão beber café e deitar conversa fora para outro sitio. Na rua, por exemplo, faz bem esticar as pernas. Vá, levantem-se!

 

Regra 4 – É muito fixe chegar à mesa onde vamos marmitar e ela estar limpa, sei lá, sem migalhas, restos de gordura, guardanapos sujos, pedaços de comida. É só passar um guardanapo na mesa, não custa nada.

 

Regra 5 – Não tenho uma regra número cinco, mas quatro parecia-me pouco, por isso a regra número cinco é, sei lá, falem baixo, pronto, falem baixo enquanto marmitam.

 

É isto.

 

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13
Mar18

Hoje o Ser Super Mãe é Uma Treta faz um ano!

Susana

Hoje o Ser Super Mãe é Uma Treta faz um ano.

 

Durante este ano o blog não foi tudo o que eu queria, mas foi tudo o que eu sou. Sem máscaras, sem rodeios, sem meias palavras, com os nervos à flor da pele e sem receio de mostrar as minhas virtudes (que caraças também as tenho) e as minhas falhas (que também são muitas).

 

O blog nasceu pela insistência do meu marido e da necessidade de exorcizar o meu cansaço, nasceu da inspiração que os meus filhos e o mundo cheio de opiniões depois dos filhos me trouxe e pela vontade constante de dar um pontapé na culpa e em todos os que nos fazem sentir culpados. E, acima de tudo, porque a maternidade não é fofinha o tempo todo, tem muitos lados negros, fases que nos fazem duvidar da nossa sanidade mental, muitas birras dos filhos e no meu caso também envolve muito sono e eu não queria viver esta merda toda sozinha.

 

O blog faz um ano, mas fazer um ano e não vos ter desse lado não fazia qualquer sentido, por isso, obrigada a vocês por este ano de partilha!

 

E um viva a nós, as mães normais, as que dão pontapés na culpa, as que mandam as opiniões dos outros à merda e as que dizem que se foda muitas vezes!

 

(E agora vou ali ver como está o miúdo, que cá por casa estamos a chafurdar nas viroses, para variar!)

 

Também ando pelo Facebook.

08
Mar18

O nascimento de uma mãe

Susana

No dia em que a minha filha nasceu, eu nasci outra vez. A mulher que eu era ficou na confusão do bloco de partos, esquecida entre as conversas dos médicos e a música que estava a tocar e nasceu outra mulher: a mãe.

 

Naquele dia, que recordo como um filme que vemos muitas vezes, nascemos as duas e temos vindo a crescer as duas. Sempre de mãos dadas. Eu dou-lhe a mão, enquanto lhe mostro os caminhos possíveis e ela aperta a minha mão com força e ajuda-me a ser a mãe que sou.

 

Nunca pensei que mãe iria ser, nem durante a gravidez, nem depois, não fiz planos, nem tinha certezas absolutas, não li livros, nem procurei teorias. A minha filha nasceu e eu, tal como ela, era um bebé recém-nascido a respirar pela primeira vez e tenho vindo a aprender a viver a maternidade por instinto e guiada pelo amor.

 

E que mãe sou eu?

 

Sou uma mãe imperfeita, que se assume imperfeita e que rejeita a culpa com todas as forças, faço sempre o melhor que consigo e às vezes o melhor que consigo é mesmo errar. E ajustar as velas e voltar a tentar.

 

Sou uma mãe corajosa e eu não era uma mulher corajosa, transformei-me no preciso momento em que entrei na sala de partos e me senti estupidamente calma.

 

Sou uma mãe meio bipolar, uma mãe que grita e abraça e ralha e dá mimo e se enerva e que pede desculpa enquanto se volta a enervar.

 

A minha filha confia em mim cegamente para a proteger de todos os males, reais e imaginários, para a fazer sentir segura, confiante, para lhe explicar o mundo e os outros. E eu sou uma mãe leoa, galinha, ursa, loba e todos os bichos do planeta só para a proteger.

 

Sou a mãe a quem a minha filha abre buracos no peito quando me confidencia os segredos, as angústias, as questões existenciais e as dores de crescimento e com isso me faz crescer também.

 

A minha filha obriga-me a confrontar com a minha impaciência, com o meu cansaço, obriga-me a reconhecer os meus erros, quando falho e quando lhe exijo demais, mas aceita a minha imperfeição, amando-me. Aos olhos dela sou a melhor mãe do mundo e a mais bonita. A mãe a quem pede desculpa quando erra, a quem sussurra ao ouvido que a adora.

 

No dia em que a minha filha nasceu, fui abençoada com o milagre da vida e tenho vindo a ser abençoada com a beleza da presença dela nas nossas vidas, abençoada com o amor que transborda do seu pequeno coração.

 

Ainda hoje, cinco anos depois, olho para ela com o mesmo espanto com que a olhei pela primeira vez, acabada de sair da minha barriga, suja, inchada e cinzenta e eu a dizer-lhe:

 

- Olá, eu sou a tua mãe.

07
Mar18

Breve inquérito a mães normais (8)

Susana

Continuando os breves inquéritos a mães normais, desta vez trago-vos a minha amiga Ana Rute. Conhecem aquela teoria de que temos apenas seis pessoas a separar-nos de qualquer pessoa do mundo? Da Ana Rute, para qualquer lado que olhe tenho apenas uma pessoa a separar-me dela e a realidade é que não nos conhecemos pessoalmente. É verdade, conheço-a há imenso tempo, os nossos maridos conhecem-se, temos vários amigos em comum e ainda não tive a oportunidade de lhe dar um abraço, mais que não seja pela sensibilidade das palavras de tranquilidade que me envia nos momentos em que estou quase a arrancar os cabelos. A Ana Rute é mãe de quatro filhos e confessa que era a mãe perfeita antes de os ter. Deixo-vos as respostas e convido-vos a segui-la por aqui e por ali, garanto-vos que não vão dar o tempo como perdido.

 

Ana Rute Cavaco, 40 anos, mãe a tempo inteiro, quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas, junto com o Tiago - marido - serve na Igreja da Lapa, em Lisboa.

 

Qual a coisa de que tens mais saudades de fazer desde que és mãe?

O que sinto mais saudades é a leveza de não ter responsabilidades de maior, de estar com tempo a fazer o que me apetecia sem ter sempre aquela voz a lembrar: tens gente que depende de

 

O que mudou em ti com a maternidade?

Mudou a forma como uso o tempo livre que tenho para mim, é pouco, mas tem a ver com a resposta anterior. Nunca mais fiz nada sem ter em mente que as minhas escolhas não me afectariam só a mim. A rigor, isso acontece toda a nossa vida, porque vivemos em sociedade, mas neste caso são pessoas que nasceram porque nós existimos também.

 

És a mãe que imaginaste?

Não sou a mãe que imaginava. Antes de ter filhos era a mãe perfeita (risos).

 

Que conselho darias a alguém que está a pensar em ser mãe?

Que aceite o dom da maternidade com gratidão e humildade. Nada se faz sem ajuda e sem um espírito pronto a mudar e a crescer. Nunca dizer nunca e seguir em frente.

05
Mar18

Viajar com os miúdos e sobreviver para contar a história

Susana

Quando o meu marido me disse que ia estar ausente em Fevereiro, fiquei no meu modo habitual de sofrimento por antecipação e à beira de um ataque de nervos, (não que as ausências sejam uma novidade), mas porque esta ausência ia coincidir com o aniversário do meu marido, que perante o meu espernear lançou calmamente a bomba atómica:

 

- Já está tudo pensado, no dia do meu aniversário vens com os meninos ter comigo.

 

Juro que pensei que o meu marido me queria matar. Ele sabe que eu sofro dos nervos.

 

- Eu, que fico com as pernas a tremer só de trazer o carro para Lisboa, (suburbana forever), vou conduzir mais de 380 km sozinha com os miúdos? Nem pensar.

 

Eu explico. Eu adoro conduzir, não se enganem, poucas coisas me dão tanto prazer como pegar no carro e ir, conduzo bem, também não se enganem, mas tirei a carta há quatro anos depois de a minha filha nascer, nunca tinha feito uma viagem tão longa e já é difícil trazer os miúdos da escola para casa sem berrar vinte vezes quanto mais meter-me nesta viagem.

 

A verdade é que seria impensável não celebrarmos juntos os quarenta anos do meu marido e eu soube logo naquele momento que sim, que eu iria fazer aquela viagem com os miúdos. Por isso, depois do choque inicial, respirei fundo, fui ver o percurso, reservei a casa para o fim-de-semana e não pensei muito no assunto até ao próprio dia.

 

O dia chegou e a primeira aventura começou mal fechei a porta de casa. Eu, os miúdos, as malas e como é que raio vamos descer três andares sem elevador? Vocês sabem, sair à rua com os miúdos para ir ao parque já é o que é, agora imaginem a quantidade de roupa para três dias. E se o miúdo se suja dez vezes por dia como é habitual? E se estiver muito frio? Se calhar é melhor levar mais um casaco para cada um. A minha roupa, sapatos, fraldas, toalhitas, produtos de higiene, medicamentos, brinquedos, comida e água para a viagem. Seja o que Deus quiser e foi tudo arrastado pelas escadas abaixo.

 

Malas no porta-bagagens, miúdos nas cadeirinhas, o destino no GPS, as recomendações para se portarem bem e não me enervarem, e cá vamos nós. A gritaria começou ainda não estávamos na Ponte Vasco da Gama e durou toda a viagem. Toda. Ela queria o brinquedo que ele tinha, ele queria o brinquedo que estava no chão, ela não queria a música que estava a dar na rádio, ele queria que eu lhe desse a mão.

 

- A sério, filho, como é que eu te vou dar a mão?

 

Chegamos a Lisboa e o GPS dá cabo de tudo, manda-me para um sitio que não era aquele que eu estava a contar, dou umas voltas inesperadas com as pernas a tremer e a amaldiçoar a ideia de estar a fazer aquela viagem, mas quando dou por mim já estou onde quero, rodeada de trânsito selvagem, camiões e carrinhas por todo o lado, confiante que afinal vai correr tudo bem, enquanto ignoro a confusão que vai lá atrás.

 

Não fossem os gritos deles, as birras, as dores de barriga da minha filha, os pedidos para eu apanhar coisas do chão ou para meter o CD do Marco Paulo (a minha filha é fã) enquanto conduzo e a viagem tinha sido suave, sem percalços, mas quando fizemos a primeira paragem em Santarém a minha cabeça estalava e ainda faltavam mais de três horas daquilo.

 

À primeira paragem, outra dificuldade: irmos os três à casa de banho. Eu e o pânico de todas as mães numa casa de banho:

 

- Não toquem em nada!

 

Enfim, eles tocam em tudo. É esperar que não metam as mãos na boca ou nos olhos antes de as lavarmos. Primeiro foi ela, depois mudei-lhe a fralda a ele e finalmente eu e os miúdos enfiados no cubículo da casa de banho e a indignação da minha filha, como se em casa não passassem a vida enfiados na casa de banho comigo:

 

- Mas, agora temos que estar aqui a ver-te a fazer chichi?

 

Seguimos viagem. A minha filha finalmente adormeceu. O meu filho não dormiu um segundo. A viagem estava a correr bem, sem muito trânsito e eu penso em não fazer a segunda paragem, para aproveitar que ela estava a dormir e ele relativamente calmo, ou seja, sem gritar. Enquanto penso, o meu filho chama-me e vejo que tirou os braços do cinto. Raios partam o miúdo. Fiquei em pânico, a mais de 10 km da próxima estação de serviço e o miúdo sem cinto. Eu grito, digo-lhe para se encostar, para meter os braços dentro do cinto, eu grito cada vez mais, a irmã acorda e estamos as duas a gritar e ele a rir-se. Foram os 10 km mais longos de sempre. Quando parei em Estarreja, dei-lhe um raspanete, vulgo palmada, ele riu-se, apertei-lhe o cinto o mais que consegui, ele riu-se, respirei fundo e continuei a viagem.

 

Quando chegámos ao Porto senti-me a maior, caraças, eu tinha conseguido, estava quase. Para contrariar este meu sentimento maravilhoso, a minha filha começou a gritar com dores de barriga e o meu filho começou a enfiar os dedos na boca e, apesar de todos os meus pedidos, a viagem até à Póvoa de Varzim foi feita com esta banda sonora: a mais velha aos gritos e o mais novo a agoniar-se.

 

A minha vontade foi meter os quatro piscas, parar o carro, sair e dar uma palmada a cada um. Não o fiz. Ignorei o mais que consegui, o meu filho acabou por tirar os dedos na boca e a minha filha, bem, a minha filha, a duzentos metros de chegarmos ao destino, disse-me que não aguentava mais e vomitou o carro todo.

 

Cheguei ao pé do meu marido exausta, descabelada, com a cabeça a estalar, a paciência toda rebentada e com o carro vomitado, mas voltava a fazer esta viagem de doidos outra vez. Acho eu.

 

Texto em parceria com a Up to Kids.

22
Fev18

Detestei amamentar

Susana

Detestei amamentar. Começo assim o texto para não o lerem ao engano. Nunca pensei que a amamentação fosse um momento mágico em que ouvimos música celestial, enquanto as pequenas crias sugam o leite das nossas mamas e que o vínculo entre mães e filhos só se desse assim, ou que fosse imprescindível para as defesas dos nossos filhos, ou que todas as coisas que nos tentam enfiar na cabeça fossem a preto e branco, mas imbuída do espírito de sacrifício que toda a mãe deve ter, amamentei (ou tentei amamentar) os meus filhos.

 

Tive duas experiências diferentes e detestei cada uma delas.

 

Com a Mariana foi tudo difícil, ela nasceu antes das 38 semanas, era minúscula e fazia da mama uma chucha. Eu não o percebi e os enfermeiros que chamei trezentas vezes, enquanto estive na maternidade também não. O primeiro que me viu quando fomos para o quarto parecia uma criança maravilhada com um brinquedo novo, juro, mexeu-me nas mamas, espremeu os mamilos, eu tinha imenso leite disse-me radiante. Fiquei estupidamente contagiada com tanto entusiamo, só podia correr bem. Não correu. A Mariana passava horas na mama e quando eu os chamava todos me diziam o mesmo, que eu tinha muito leite, para experimentar dar mama deitada para um lado, depois para o outro, depois com a cabeça dela numa almofada, depois sentada no cadeirão, depois em pé, depois a fazer o pino e nada. Ralharam comigo, exigiram-me paciência. E eu tive. Eram eles que me davam as drogas para as dores e eu obedecia. Passava horas sentada num cadeirão e a minha filha passava horas irritada a tentar mamar e não se ouvia música celestial em lado nenhum. Piorou no dia em que devíamos ter alta. A pediatra informou-me que ela tinha perdido muito peso e que estava desidratada. O mundo desabou na minha cabeça. Vi-me inundada em culpa. A miúda só tem quatro dias e eu já estou a fazer tudo mal. Ainda na maternidade dávamos Leite Adaptado para ela ganhar peso e insistíamos na mama, mas a mama era o nosso momento de irritação, de frustração e de culpa. Continuava a não mamar e eu acabava por lhe enfiar um biberão cheio de LA goela abaixo. Ela ficava feliz e eu também.

 

Quando ela fez um mês desisti e passou exclusivamente a LA.

 

Com o Tiago foi tudo fácil. No recobro, assim que a enfermeira o meteu na minha mama, eu senti sem qualquer dúvida que ele estava a mamar. Aliás, aposto que se eu deixasse ele ainda hoje mamava. O meu filho nasceu de 41 semanas e três dias, era grande, e eu tal como da primeira vez, tinha muito leite e o meu pequeno bezerrito mamava de duas em duas horas. Era mamar, arrotar, mudar a fralda, mamar, arrotar, mudar a fralda, mas apesar da aparente facilidade, continuei a detestar com todas as minhas forças. Amamentar é muito doloroso, eu sei que depois melhora um pouco, mas enquanto não melhora dói, os mamilos estão gretados, sensíveis, as mamas estão sempre inchadas. Eu tinha leite para alimentar uma ninhada de gatos. Não havia discos de amamentação que aguentassem. Acordava sempre com o pijama molhado, cheguei a tomar banho durante a noite, nos intervalos em que ele me largava as mamas. Que era pouco tempo, porque acordava quatro e cinco vezes para mamar durante a noite. Era desconfortável. Sempre detestei amamentar fora de casa, sentia-me sem privacidade. E era uma prisão. A primeira vez que tirei leite com a bomba para poder sair, fui com o meu marido a um concerto, passei o concerto com as mamas a rebentar e quando cheguei a casa estavam cheias de caroços e eu chorei de dor. Eu detestava, mas o miúdo gostava e crescia e eu aceitei as condições. A única vantagem era ser grátis.

 

Quando ele fez cinco meses precisei de começar a tomar uma medicação e não pensei duas vezes, comecei imediatamente a dar LA em exclusivo. Como castigo, o meu filho não me deixa dormir bem até hoje.

 

Das duas vezes tomei a decisão de deixar de amamentar de forma consciente e sem culpa, sabendo que não estava a prejudicar os meus filhos. A amamentação está sobrevalorizada. Amamentar é alimentar e não tem que ser necessariamente com as nossas mamas. Este é um tema que gera muita discussão, não raras vezes acéfala, acusadora e fundamentalista. Existe muita pressão dos médicos, dos enfermeiros, da família e dos amigos, para que a mãe amamente, chega a ser terrorismo psicológico e pode ser demolidor para quem não souber lidar com isso. Como toda a gente sabe, ser mãe é uma condição cheia de sacrifício e se tu não sacrificas as tuas mamas pelos teus filhos, não podes ser boa mãe.

 

Detestei amamentar e esta é a minha experiência, não é um manifesto contra a amamentação, o que desejo é que cada mãe possa ter a sua experiência, fazendo as suas escolhas, sem culpa, sabendo que não é a amamentação que a define enquanto mãe.

 

Em parceria com Up to Kids.

16
Fev18

Deixem as mães em paz, porra!

Susana

Estava no hospital à espera da minha vez para uma consulta, a sala cheia, pessoas sentadas, pessoas em pé, umas a conversar, outras a tossir, outras a reclamar, o placard a anunciar o número das senhas e de repente o choro de uma criança fez parar o barulho ensurdecedor da sala. Estremeci. Reconheço de cor o som de uma birra. Olhei e vi uma mãe com olheiras até ao chão, cabelo apanhado à pressa, um ar que tanto podia ser de desespero, como de exaustão, como de loucura. Era a vez dela, senha quinze, guichet número cinco. A miúda a fincar os pés no chão, a mãe a arrastar a miúda pelo braço e o choro cada vez mais alto. O placard anuncia outra vez a senha quinze, guichet número cinco. A mãe chega finalmente ao guichet, pede desculpa, um sorriso amarelo, a miúda senta-se no chão, a mãe tenta tirar papéis de dentro da mala, a miúda deita-se no chão a chorar, a mãe entrega o cartão de cidadão, a miúda puxa o casaco da mãe, a mãe não aguenta mais e dá um berro:

 

- Estás a fazer birras deste que acordaste, acaba já com isso ou levas uma palmada no rabo!

 

A mãe olhou à volta, pegou na filha ao colo, baixou a cabeça e saiu da sala.

 

Tive vontade de me levantar e ir abraçar aquela mãe. Podia ser eu. Podia ter sido eu o alvo daqueles olhares reprovadores. Aquele cansaço e aquele desespero podia ser meu.

 

Dias mais tarde, novamente numa sala de espera, desta vez nas urgências do centro de saúde com o meu filho, enquanto esperava que o chamassem, uma miúda choramingou o tempo todo. Todo. Passava do colo da mãe para o colo do pai, levantava-se, sentava-se no chão, deitava a cabeça nas cadeiras, fugia para os gabinetes das enfermeiras, dava pontapés no caixote do lixo, o pai levou-a a apanhar ar, voltou para o colo da mãe, atirou o telemóvel da mãe ao chão, a mãe deu-lhe uma palmada no rabo, ela chorou ainda amais alto e a mãe saiu da sala com as lágrimas nos olhos perante o abanar de cabeça de quem lá estava.

 

Tive vontade de me levantar e ir abraçar aquela mãe. Podia ser eu. Podia ter sido eu o alvo daqueles olhares reprovadores. Aquele cansaço e aquele desespero podia ser meu.

 

Aquela mãe precisava de um abraço, de colo, de alguém que lhe dissesse que não é má mãe, que os miúdos fazem birras sabe Deus porquê e que a culpa não é nossa. Mas, tudo o que esta mãe e a outra mãe e todas as mães recebem quase sempre, é aquele terrível olhar reprovador que diz sem dizer que estamos a fazer tudo mal, que não prestamos neste trabalho de sermos mães dos nossos filhos, que os miúdos são mal-educados e a culpa é nossa. Não impomos respeito, não sabemos educar e não definimos limites.

 

Vejo isto a toda a hora e em todo o lado. Nas salas de espera das urgências, nas filas de supermercado, nas lojas, no cinema, na praia, nos parques infantis, nos transportes públicos, nos restaurantes, em nossa casa. Que os miúdos se livrem de se mexerem na cadeira do restaurante, de se rirem alto, de se meterem nas nossas conversas, que se livrem de chorar de aborrecimento, de cansaço ou de dor, que se livrem de fazer uma qualquer birra estúpida, que se livrem de serem pessoas em construção, com vontades, frustrações e tentativas manhosas de nos manipular. Que se livrem de serem crianças, porque se o fizerem a culpa é nossa. Das mães que aos olhos dos outros não sabem ser mães.

 

Texto em parceria com a Up to Kids.

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