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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

08
Out18

Nesta coisa da maternidade existem temas tabu

Susana

Nesta coisa da maternidade existem temas tabu, uns causam reações capazes de exterminar a humanidade, outros a fúria nas caixas de comentários e outros o ódio nos grupos de mães desta vida. Eu pessoalmente gosto de todos, fazer abanar cabeças em sinal de reprovação é sinal de que o tema precisa de ser falado. Deixo aqui alguns.

 

- Amamentação

Não se pode falar, pura e simplesmente não se pode falar sobre mamas, nada, zero, nicles. A estabilidade da paz mundial depende deste tema estar fechado a sete chaves, garanto que há mães que estão na posse dos códigos nucleares e prontas a largar as bombas em cima das nossas cabeças se alguém disser: Foda-se, detestei amamentar! Caralho, já disse, desculpem, se o mundo acabar a culpa foi minha, gostei muito de vos conhecer.

 

- Gravidez

É um estado de graça, não é doença, por isso aproveitem bem estes nove meses com dores nas costas e vontade de ir à casa de banho de cinco em cinco minutos. E trabalhem até rebentarem as águas que isso é que de mulher. Fraquinhas, pá.

 

- Pós-parto

Qual é o problema? Já têm os miúdos nos braços, há lá bênção maior? Caladinhas, mas é.

 

- Licença de maternidade

Longas sestas e mama de fora de duas em duas horas, lavar os dentes quando o pai regressa do trabalho, tomar banho de dois em dois dias, passar os dias sozinha com um bebé que não fala, não ri, só chora, mama e caga fraldas. E depois? Até parece que não estão de férias.

 

- Palmadas, gritos e a parentalidade inconsciente

Outra vez a estabilidade da paz mundial em risco. Vou dizer baixinho, uma palmada no momento certo faz milagres. Ainda estão aí ou já foram a correr ligar para a CPCJ? Só podemos falar sobre este assunto se for para dizer “Olá, o meu nome e Susana, eu costumava gritar com os meus filhos, mas agora converti-me à seita da parentalidade positiva e resolvo tudo com abraços e doses excessivas de bebidas brancas.” #sóquenão

 

- Existir para além dos filhos

Quem deixa os filhos com os avós para ir jantar fora, ao cinema, passar um fim-de-semana fechada com o marido num quarto de hotel ou vai deixar os miúdos à escola e volta para casa para dormir é uma cabra fria e sem coração. Onde é que já se viu isto de existir para além dos filhos? Ser mãe é a melhor coisa do mundo e se queriam existir não tivessem filhos.

 

- Dizer que os miúdos às vezes são parvos

São lá parvos, nós é que os educamos mal e se nós os educamos mal os parvos somos nós e se os parvos somos nós então quem tem que ir pela janela somos nós. Que horror dizer uma coisa destas, os miúdos são o melhor do mundo, até quando fazem birras, porque querem ir descalços para a escola.

 

Resumindo e baralhando, tudo é tabu, se queremos palmas, só podemos dizer que ser mãe é o melhor do mundo, uma bênção, que os nossos miúdos são incríveis, génios, os mais brilhantes, os mais bonitos, se queremos palmas, temos que inventar, mentir e dizer ao mundo que esta coisa maravilhosa da maternidade não é uma montanha russa cheia de altos e baixos, com momentos perfeitos em que não sabemos como tivemos a sorte incrível de ganhar esta lotaria e outros, tantos outros, sombrios e fodidos em que batemos literalmente com a cabeça na parede.

 

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01
Out18

O que é que as mães mais desejam?

Susana
a) Dormir a noite inteira sem interrupções; 

b) Uma semana de férias sem os miúdos numa praia paradisíaca e com livre-trânsito para o bar; 

c) Que a roupa apareça milagrosamente lavada, passada e guardada nas gavetas; 

d) Comer uma refeição sem que a meio seja preciso ir limpar o rabo aos miúdos; 

e) Não gritar durante dez minutos;

 f) Não acordar às seis da manhã ao fim-de-semana;

 g) Tomar um banho demorado com direito a meter amaciador no cabelo; 

h) Comer um chocolate sem partilhar com os miúdos; 

i) Jantar fora com as amigas sem sentir sono às nove da noite; 

j) Sair de casa sem parecer que vai acampar; 

k) Não ouvir o Panda e os Caricas às seis da manhã; 

l) Ter a barriga lisa;

 m) Uma massagem nas costas; 

n) Comprar uns sapatos sem pensar que os miúdos precisam de uns ténis novos; 

o) Que os miúdos digam boa noite e vão para a cama sozinhos; 

p) Ver um filme sem adormecer; 

q) Não ter migalhas no chão; 

r) Que digam, para variar, que os miúdos são a cara dela; 

s) Não fazer o jantar;

 t) Que as reuniões de pais durem dez minutos;

 u) Silêncio;

 v) Que os miúdos não apanhem piolhos;

 w) Não ter nada para fazer;

 x) Ir à casa de banho sozinha;

 y) Sexo escaldante sem medo de acordar os miúdos;

 z) Que as outras pessoas metam as opiniões no buraco mais escuro que encontrarem.

 

 Merda, esta é difícil!

  

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28
Set18

Dez coisas que não devem dizer a uma mãe:

Susana

1 - Tem calma!

Calma? Mas tenho calma porquê? Achas que eu não tenho motivos para me enervar? Até tu já me estás a enervar.

 

2 - É só uma fase.

E depois desta fase vem outra fase e depois outra e logo a seguir começa outra fase. Obrigada, és um génio!

 

3 - Um dia vais ter saudades.

Vou e de levar com um pau nas costas também.

 

4 - Não queres ter mais filhos porquê?

Porque não és tu que os vais parir.

 

5 - Isso é mimo.

E isso é estupidez, quando é que tratas disso?

 

6 - Tu é que os habituaste mal.

Que alívio, pensava que tinha sido a vizinha, fico muito mais descansada.

 

7 - Aproveita bem todos os momentos.

É o que eu penso quando acordo às três da manhã porque o meu filho quer fazer xixi: “Foda-se, deixa-me lá aproveitar este momento.”

 

8 - Se fosse eu fazia… (inserir opinião)

Então vai lá fazer isso com os teus filhos e não me fodas a cabeça.

 

9) Ser mãe é a melhor coisa do mundo.

Prometes?

 

10) Com essa idade o meu filho já falava alemão, montava a cavalo e escalava o Everest.

O meu filho come migalhas do chão, serve?

 

Eu escrevi só dez coisas porque não tenho a vida toda, vocês sabem como as pessoas adoram dizer merda.

 

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27
Set18

Os conselhos dos outros são uma merda

Susana

Quando engravidamos e anunciamos ao mundo que vamos ser mães, o mundo segura-nos na mão e começa a dar-nos conselhos. E por mundo quero dizer mundo, o mundo inteiro, todas as pessoas do raio do mundo inteiro possuem informação privilegiada que por um qualquer acaso não chegou até nós mães desprovidas de cérebro, capacidade de pesquisar informação e de tomar decisões.

 

As mães dos grupos de mães, a vizinha do 3.º esquerdo, a colega de trabalho, a enfermeira do centro de saúde, a nossa chefe, a mulher na sala de espera do consultório, as terapeutas do sono, as deusas da parentalidade positiva, a bloguer/influencer/instagramer/youtuber, a avó que está com o neto no parque infantil, o taxista que nos leva a uma consulta, a empregada de balcão do café onde tomamos o pequeno-almoço, a mulher na paragem do autocarro, a educadora da escola dos miúdos, a nossa cabeleireira, a empregada da caixa do supermercado, a nossa gestora de conta do banco, o nosso pai, a nossa mãe, a nossa avó, a nossa sogra, a nossa tia, a tia da tia da prima, a prima em quarto grau que só vemos no Natal, a melhor amiga, a amiga que está a viver no estrangeiro, a amiga que acabou de ser mãe, a amiga que não tem filhos, a sogra da nossa amiga e a amiga da nossa amiga que conhecemos na festa de aniversário da filha da nossa amiga.

 

Qualquer uma das pessoas acima e todas as outras que se abeiram de uma mãe, que me levava a vida inteira para enumerá-las a todas, conseguem perceber rapidamente que merda é que estamos a fazer mal e mostrar-nos a luz, o caminho da sabedoria, os passos para a perfeição e enfiar-nos na cabeça a filha da puta da culpa. Rapidamente nos mostram que não escolhemos o melhor obstetra, que estamos a engordar demasiado, que não estamos a usar o melhor creme para as estrias ou a tomar as vitaminas adequadas, que a barriga está muito descaída e a criança deve estar quase a nascer e que para acelerar o parto basta-nos andar muito ou comer comida picante, dizem-nos que não sabemos o que é parir porque implorámos por uma epidural, que devíamos ter tido o nosso filho num hospital público e não no privado, elas sabem se devemos ou não receber visitas, se estamos a amamentar bem ou que não devíamos dar leite adaptado, elas olham para os nossos filhos e pesam-nos com os olhos e juram que estão magrinhos, aconselham-nos os melhores médicos, que nunca são os nossos, indicam-nos medicamentos, tratamentos e duvidam seriamente das razões porque os nossos filhos estão sempre doentes, dizem-nos que damos demasiado colo, que os miúdos são mimados, sabem mudar as fraldas melhor que nós e os rabos só ficam assados com a mãe porque a mãe não usa creme suficiente, sabem a idade exata em que os nossos filhos devem começar a comer a sopa e fuzilam-nos se lhes damos papas, sabem quando devem nascer os primeiros dentes e quando devem começar a palrar, a sorrir, a gatinhar, a andar, a falar corretamente português e inglês e a andar a cavalo, ensinam-nos todas as teorias da parentalidade positiva, consciente, mindfulness e todas as tretas para nos conectarmos com os nossos filhos, conseguem resolver qualquer birra sem esforço, impor rotinas para adormecer e não, com eles não há cá essa merda da privação do sono.

 

(inspira, expira, inspira, expira)

 

Quando somos mães dizem-nos que estão felizes por nós, dão-nos os parabéns e juram que vamos ser as melhores mães do mundo, mas desconfio que estão só felizes por ter mais uma mãe a quem foder o juízo.

 

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18
Set18

Algumas mentiras que já disse aos meus filhos (mais que uma vez):

Susana
- Mãe, onde é que tu e o pai vão?

 

Mentira: Vamos trabalhar.

 

Verdade: Vamos passar o fim-de-semana fora e voltamos amanhã. 

 

 *

 

- Porque é que não podemos ir ao cinema com vocês?

 

Mentira: Os senhores do cinema não deixam entrar meninos pequenos à noite.

 

Verdade: Foda-se, era o mais que faltava.

 

 *

 

- Mãe, compraste aquela revista que eu pedi? 

 

Mentira: A papelaria estava fechada.

 

Verdade: Merda, esqueci-me.

 

 *

 

- Podemos ouvir o cd do Panda e Os Caricas?

 

Mentira: O cd está riscado, já não dá para ouvir.

 

Verdade: Vou partir o cd ao meio com as minhas próprias mãos.

 

 *

 

- Mãe, podes comprar-me uma Barbie?

 

Mentira: Compramos noutro dia.

 

Verdade: Nunca!

 

 *

 

- Estás a ouvir o que eu estou a dizer?

 

Mentira: Sim, filha, claro.

 

Verdade: Que raio é que ela estaria a dizer?

 

 *

 

- Já comemos peixe ao almoço na escola.

 

Mentira: Eu sei filho, mas faz bem comer peixe duas vezes por dia.

 

Verdade: Nem abri o e-mail com a ementa deste mês. Mãe má, mãe má.

 

 *

 

- Mãe, não compraste as bolachas de chocolate.

 

Mentira: Já não havia bolachas. Nenhumas. Já tinham comprado tudo.

 

Verdade: Esqueci-me da merda das bolachas.

 

 *

 

- Posso ver o teu telemóvel?

 

Mentira: Não tem bateria.

 

Verdade: Tem bateria, mas quero ser eu a gastá-la no Facebook enquanto vou à casa de banho.

 

 *

 

- Podes meter na Vampirina?

 

Mentira: As gravações não estão a funcionar, não consigo meter para trás.

 

Verdade: Estou tão farta da Vampirina que prefiro ouvir a música do Diogo Piçarra em loop durante três dias e três noites.

 

 *

 

- No Natal posso pedir um tablet ao Pai Natal?

 

Mentira: Sim, claro, escreves uma carta e depois esperas para ver o que recebes.

 

Verdade: O cabrão do Pai Natal não existe e ainda não tens idade para ter um tablet.

 

 *

 

- Vais dormir a noite toda ao pé de mim, não vais?

 

Mentira: Sim, filha, a noite toda.

 

Verdade: Assim que estiveres a ressonar vou a correr para a sala e adormecer no sofá com o pai.

 

 *

 

- Podemos ir ao parque?

 

Mentira: O parque já está fechado.

 

Verdade: Deus me livre e guarde de me ir enfiar ao domingo à tarde num lugar cheio de pais passivo agressivos a correr atrás dos filhos e a gritar “Zé Mariaaaa, tem cuidado filho!”

 

*

 

- Estás a comer o quê?

 

Mentira: Malaguetas!

 

Verdade: Chocolate!

 

 

Mentir é feio, mentir aos filhos é feio a dobrar, mas dá um jeito do caraças para evitar birras. Quem nunca?

 

 

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14
Set18

Breve inquérito a pais normais (1)

Susana

Hoje meti um homem a escrever por mim e trago-vos o primeiro breve inquérito a pais normais. E para começar o meu amigo Nuno Gonçalo Poças. Já tinha partilhado aqui alguns textos do Nuno, que são sempre uma visão crítica e lúcida da nossa sociedade. E rara. Precisamos de mais intervenções públicas assim, não deixem de o seguir. Voltando ao inquérito, diz o Nuno que desde que foi pai nunca mais tomou banho sozinho #estamosjuntos e que os homens que não estão dispostos a partilhar com as mulheres o lado negro da parentalidade deviam ficar quietos.

 

As respostas do Nuno.

 

Nuno Poças, 32 anos, cansado, advogado, casado e pai de uma filha de 16 meses.

 

Qual a coisa de que tens mais saudades de fazer desde que és pai?

De poder deitar-me tarde e dormir sem limites. De comer sem ter de partilhar tudo o que como. De poder tomar banho sem dedos a apontar para mim do lado de fora da banheira. De não estar sempre a apanhar coisas do chão. De não estar sempre a dizer “não”. De poder ir para qualquer lado só com uma mochila ou com a carteira no bolso.

 

O que mudou em ti com a paternidade?

A capacidade que ganhei de trabalhar um dia inteiro e chegar a casa sem saber o que estive a fazer porque estive cheio de sono o dia todo. Mudou muito a forma como olho para o futuro, sobretudo, e a forma como decido determinadas coisas na minha vida. Despedir-me por cansaço, por exemplo, deixou de ser uma opção e antes de ter filhos era.

 

És o pai que imaginaste?

Acho que sim, com os defeitos e tudo. Mas também sei que se é pai todos os dias e que todos os dias os miúdos mudam e nós com eles, todos os dias temos de estar à altura e há dias em que não estamos, por isso não sei bem. Sei que faço o melhor que sei e que posso, que já fiz coisas que nunca me tinha imaginado a fazer e que já fiz coisas de que me arrependi. Mas acho que sim, que sou o pai que imaginei. A minha filha vai para a escola e passa algum tempo a perguntar por mim, por isso acho que sim.

 

Que conselho darias a alguém que está a pensar em ser pai?

Primeiro que queiram mesmo ser pais e que saibam estar à altura da circunstância. Que se envolvam tanto como as mães, que não deixem o lado negro disto para elas. Que sejam Homens e percebam que é preciso mudar fraldas, dar banhos, acordar a meio da noite, preparar biberões, e que se podem continuar a fazer imensas coisas que se fazia sem filhos, mas de forma diferente ou mais reduzida. Se não estão para isso, é melhor estarem sossegados e pouparem uma mulher à tormenta que é criar uma criança sozinha.

 

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14
Set18

Gravidez não é doença? Às vezes se não é parece.

Susana

Gosto sempre das alminhas iluminadas e bem pequeninas que lá porque tiveram uma gravidez santa e abençoada pela Nossa Senhora da Gravidez Sem Sintomas e Riscos, se julgam no direito de dizer às outras que estão a exagerar, que faz parte, que a gravidez não é doença e que deviam ficar felizes e erguer as mãos aos céus e agradecer por terem a possibilidade de conceber. Sim, isso.

 

Pode ser difícil para algumas mulheres (e homens, porque caraças, como eles gostam de opinar sobre isto) entenderem que às vezes a gravidez é uma carga de trabalhos, mas a verdade é que é e se calhar essas mulheres é que deviam erguer as mãos aos céus e agradecer por terem tido uma gravidez tranquila.

 

Há quem tenha sintomas desde o momento em que o espermatozoide mais rápido que os outros fecundou o óvulo, há quem vomite a gravidez inteira sem que o São Nausefe lhe alivie os dias, há quem tenha dores em sítios do corpo que desconhecia que existiam, há quem desenvolva diabetes gestacional, há quem não seja imune há toxoplasmose, há quem tenha descolamento da placenta, há quem tenha perda de liquido amniótico, há quem tenha hipotiroidismo ou hipertiroidismo, há quem tenha que passar a gravidez inteira deitada, há quem tenha anemia, patologias cardíacas ou outras que nos dificultam a vida.

 

Resumindo, há um sem número de mulheres para quem efetivamente a gravidez mais parece uma puta de uma doença, por isso calem-se, sim? Não fazem ideia do que a grávida a quem dizem que a gravidez não é uma doença está a passar.

 

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14
Set18

Coisas imprescindíveis para uma mãe não enlouquecer:

Susana

- Sentido de humor;

- Dizer que se foda;

- Assumir que somos imperfeitas;

- Mandar à merda as opiniões dos outros;

- Existir para além dos filhos;

- Dar pontapés na culpa;

- Álcool.

 

Fico sempre com o olho direito a palpitar quando vejo a dificuldade de algumas mães em se libertarem do papel mãe perfeita. Eu percebo, é fodido. Quando assumimos que somos imperfeitas estamos a assumir que erramos e se é difícil assumirmos para nós mesmas que erramos, é ainda mais difícil assumir perante os outros que estão sempre prontos a julgar uma mãe, que somos de facto imperfeitas. Mas, os outros que se fodam. Somos todas imperfeitas e estamos todas à beira de um ataque de nervos, só que umas escondem melhor que outras, mas no final do dia, quando deitamos os miúdos e nos sentamos no silêncio, todas, todinhas, pensamos que não vamos aguentar, que os miúdos rebentam com a nossa paciência e que era tão bom que os filhos da mãe fizessem o que lhes dizemos à primeira.

 

Não se levem demasiado a sério, digam mais vezes que se foda, riam de vocês e desta loucura que é a maternidade e não tenham medo de assumir que são imperfeitas. É que fica tudo (um bocadinho) mais fácil.

 

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14
Set18

Se não têm nada de bom para dizer fiquem caladinhas, sim?

Susana

- Se não têm paciência para ter filhos não os tenham.

 

Há coisas que são ditas com demasiada frequência e em que eu hesito em mandar as pessoas diretamente à merda sem passar pela casa de partida ou em desatar aos pontapés contra todos os meus princípios de não-violência.

 

Esta frase ou variantes dela, podem ser ditas por quem não tem filhos e aí até dou um desconto, porque eu antes de ter filhos também era a mãe perfeita, mas também é dita por quem tem filhos e aí não há desconto que lhes valha. Não sei que porra estas pessoas têm na cabeça e porque lhes é tão fácil julgar as outras mães, não sei se tomam alguma merda que as faça estar sempre em modo mãe perfeita fora de casa e em casa partem a loiça toda contra a parede, não sei se é apenas o prazer de foder a cabeça às outras ou se são mesmo assim parvas, o que sei é que não é aceitável dizer aos outros o que os qualifica para ter filhos e de que forma devem exercer a sua parentalidade.

 

Não é aceitável dizer que quem perde a paciência, dá um grito ou uma palmada aos filhos não é bom pai e não devia ter filhos. Não é mesmo e estou cansada desta merda das mães perfeitas, zen e com a mania que sabem tudo, que vivem para apontar o dedo e tentar encher os outros de culpa. Se não têm nada de bom para dizer fiquem caladinhas, sim?

 

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14
Set18

O pós-parto

Susana

O pós-parto, Deus e todos os santos nos ajudem, haverá fase mais filha da puta?

 

Começa naquele momento aterrador em que nos deixam sozinhas com o bebé. O bebé já nasceu, correu tudo bem (ou menos bem), estamos inebriadas com o efeito da adrenalina, das drogas, do cansaço, da confusão da maternidade e eis que a hora da visita do pai acaba e nos deixam sozinhas com aquela criatura que ainda agora estava dentro da nossa barriga e que agora está ali, minúscula e frágil.

 

Dizem-nos que temos que proteger aquela criatura e tudo o que queremos é que nos protejam a nós daquele vendaval de emoções, que nos deem colo e que nos digam ao ouvido que vai correr tudo bem. Temos que cuidar e saber cuidar, sem hesitações, dar banho, mudar as fraldas, tratar do cordão umbilical, amamentar, temos que saber tudo, logo, sem erros, uma mãe sabe, não sabias? E temos que amar, amar instantaneamente, ao primeiro cheiro e ao primeiro toque, temos que amar imediatamente e loucamente aquela criatura minúscula e frágil que ainda agora chegou à nossa vida.

 

Que merda é esta que nos está a acontecer? Parece que fomos atiradas para dentro de um filme e ninguém nos deu a porra de um guião.

 

Regressamos a casa e já não somos nós, nascemos de novo e somos a mãe. E a mãe que pariu um pequeno milagre só pode estar feliz, eufórica, não pode chorar, nem sentir-se confusa. As hormonas que se fodam, a mãe que se recomponha, que meta um sorriso no rosto e que amamente a criança que já está com fome outra vez. Os dias passam iguais e a mãe que sorri nunca se sentiu tão sozinha, vê outras mães que também sorriem e não percebe, algumas já voltaram ao ginásio, mostram a barriga lisa, juram que amaram os filhos ao primeiro olhar e garantem que é tudo fácil, as amigas estão a trabalhar, o marido chega ao final do dia e a mãe sente-se culpada por ainda olhar com desconfiança para aquela criatura que lhe meteram nos braços e de não conseguir estar à altura das expectativas dos outros.

 

O pós-parto é um lugar estranho, solitário e onde as expectativas dos outros em relação ao que devemos sentir e fazer nos fodem o juízo. O pós-parto não tem dia marcado para acabar, não sabemos quando vamos sentir aquele amor avassalador, pode demorar um dia ou vários, a barriga pode demorar meses a ir ao lugar e as putas das hormonas vão ficar descontroladas muito tempo, podemos chorar, podemos pedir ajuda, podemos não saber tudo. E está tudo bem. Vai correr tudo bem.

 

Os outros que se fodam.

 
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