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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

14
Set18

Se não têm nada de bom para dizer fiquem caladinhas, sim?

Susana

- Se não têm paciência para ter filhos não os tenham.

 

Há coisas que são ditas com demasiada frequência e em que eu hesito em mandar as pessoas diretamente à merda sem passar pela casa de partida ou em desatar aos pontapés contra todos os meus princípios de não-violência.

 

Esta frase ou variantes dela, podem ser ditas por quem não tem filhos e aí até dou um desconto, porque eu antes de ter filhos também era a mãe perfeita, mas também é dita por quem tem filhos e aí não há desconto que lhes valha. Não sei que porra estas pessoas têm na cabeça e porque lhes é tão fácil julgar as outras mães, não sei se tomam alguma merda que as faça estar sempre em modo mãe perfeita fora de casa e em casa partem a loiça toda contra a parede, não sei se é apenas o prazer de foder a cabeça às outras ou se são mesmo assim parvas, o que sei é que não é aceitável dizer aos outros o que os qualifica para ter filhos e de que forma devem exercer a sua parentalidade.

 

Não é aceitável dizer que quem perde a paciência, dá um grito ou uma palmada aos filhos não é bom pai e não devia ter filhos. Não é mesmo e estou cansada desta merda das mães perfeitas, zen e com a mania que sabem tudo, que vivem para apontar o dedo e tentar encher os outros de culpa. Se não têm nada de bom para dizer fiquem caladinhas, sim?

 

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14
Set18

O pós-parto

Susana

O pós-parto, Deus e todos os santos nos ajudem, haverá fase mais filha da puta?

 

Começa naquele momento aterrador em que nos deixam sozinhas com o bebé. O bebé já nasceu, correu tudo bem (ou menos bem), estamos inebriadas com o efeito da adrenalina, das drogas, do cansaço, da confusão da maternidade e eis que a hora da visita do pai acaba e nos deixam sozinhas com aquela criatura que ainda agora estava dentro da nossa barriga e que agora está ali, minúscula e frágil.

 

Dizem-nos que temos que proteger aquela criatura e tudo o que queremos é que nos protejam a nós daquele vendaval de emoções, que nos deem colo e que nos digam ao ouvido que vai correr tudo bem. Temos que cuidar e saber cuidar, sem hesitações, dar banho, mudar as fraldas, tratar do cordão umbilical, amamentar, temos que saber tudo, logo, sem erros, uma mãe sabe, não sabias? E temos que amar, amar instantaneamente, ao primeiro cheiro e ao primeiro toque, temos que amar imediatamente e loucamente aquela criatura minúscula e frágil que ainda agora chegou à nossa vida.

 

Que merda é esta que nos está a acontecer? Parece que fomos atiradas para dentro de um filme e ninguém nos deu a porra de um guião.

 

Regressamos a casa e já não somos nós, nascemos de novo e somos a mãe. E a mãe que pariu um pequeno milagre só pode estar feliz, eufórica, não pode chorar, nem sentir-se confusa. As hormonas que se fodam, a mãe que se recomponha, que meta um sorriso no rosto e que amamente a criança que já está com fome outra vez. Os dias passam iguais e a mãe que sorri nunca se sentiu tão sozinha, vê outras mães que também sorriem e não percebe, algumas já voltaram ao ginásio, mostram a barriga lisa, juram que amaram os filhos ao primeiro olhar e garantem que é tudo fácil, as amigas estão a trabalhar, o marido chega ao final do dia e a mãe sente-se culpada por ainda olhar com desconfiança para aquela criatura que lhe meteram nos braços e de não conseguir estar à altura das expectativas dos outros.

 

O pós-parto é um lugar estranho, solitário e onde as expectativas dos outros em relação ao que devemos sentir e fazer nos fodem o juízo. O pós-parto não tem dia marcado para acabar, não sabemos quando vamos sentir aquele amor avassalador, pode demorar um dia ou vários, a barriga pode demorar meses a ir ao lugar e as putas das hormonas vão ficar descontroladas muito tempo, podemos chorar, podemos pedir ajuda, podemos não saber tudo. E está tudo bem. Vai correr tudo bem.

 

Os outros que se fodam.

 
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06
Set18

Breve inquérito a mães normais (10)

Susana

Há algum tempo que não fazia os breves inquéritos a mães normais, falta de tempo, sono e alguma preguiça, mas eles voltaram e para (re)começar desafiei a mãe do blogue A Família Neurodiversa a responder e pedi-lhe para escrever muito, para usar este espaço como se fosse dela. E porquê? Porque é preciso desmistificar a diferença, precisamos de aprender a olhar para o outro com empatia, não com pena ou lugares comuns, precisamos de olhar para o outro, ver as diferenças que existem e aceitá-las. E se não falarmos muito sobre isso, se escondermos, a aceitação nunca vai acontecer. A mãe da Família Neurodiversa escreve com uma lucidez que nos arrasa ao mesmo tempo que nos ensina a sermos mais humanos. Obrigada mais uma vez querida D. Leiam, leiam mesmo, vale cada segundo do vosso tempo.

 

 

Chamo-me D. e tenho dois filhos: um menino autista e uma menina neurotípica. Criei o blogue A Família Neurodiversa para poder registar algumas das minhas experiências como mãe de uma criança com autismo em terra estrangeira. Vivemos num duplo exílio porque somos uma família atípica num país que não é o nosso. Todos os dias, tentamos aprender como apoiar um menino de três anos cujo cérebro funciona de forma admiravelmente diversa (daí o termo "neurodiversidade"). Ao mesmo tempo, esforçamo-nos diariamente para compreender melhor as regras gramaticais, sociais, fiscais e laborais do país que escolhemos para viver. Em certa medida, a nossa experiência como adultos é análoga à do nosso filho: estamos a tentar funcionar num mundo que não foi desenhado à nossa medida.

 

A Família Neurodiversa prefere o anonimato, pelo menos para já, porque quer oferecer um relato sincero sobre a maternidade atípica. Ainda tenho dúvidas sobre partilhar a identidade ou imagem dos meus filhos; temo que isso me leve a omitir episódios embaraçantes e pensamentos politicamente incorrectos. Creio que correria o risco de cair na armadilha dos blogues açucarados, nos quais as crianças são princesas com laçarotes e as mamãs heroínas incansáveis. Que fique claro desde já: eu não sou santa e os meus filhos não são anjos. Temos acessos de amor, cólera, cansaço, compaixão e gula. Por favor, não nos roubem a humanidade. A maternidade atípica cansa, como todas as maternidades. É por vezes extenuante. Tem no cardápio crises em espaços públicos, dificuldades alimentares, e episódios de discriminação protagonizados por quem deveria proteger os nossos filhos (directores de creches, por exemplo). Se for para falar desta viagem única, que seja com um discurso franco, e sempre que possível bem-humorado, para que não se corrobore narrativas irreais e culpabilizantes sobre a parentalidade.

Como diz a brasileira Ana Nunes no fabuloso livro "Cartas de Beirute", é preciso escrever não só para que as pessoas que não têm filhos com deficiência "consigam desenvolver mais empatia", mas sobretudo para alcançar outros pais com crianças atípicas. Aprecio muitíssimo este sentido de irmandade através da escrita. Abre-se assim a possibilidade de partilha de experiências na certeza de que não estamos sozinhos, de que ser pai e mãe é exigente mesmo (ser humano já é um desafio enorme, como é que gerar e criar outra criatura haveria de ser fácil?) e que está tudo bem se, por vezes, sentarmos no chão a chorar. Acontece. Isto não é desistir nem falhar, é descomprimir para poder continuar. Pai e mãe tem direito a parar e cuidar de si próprio. O melhor cuidador é aquele que cuida de si mesmo para cuidar melhor dos outros.

 

 

Qual a coisa de que tens mais saudades de fazer desde que és mãe?

 

Não consigo escolher só uma. Há duas.

A primeira é namorar com o meu marido. Não parece, mas já fomos jovens e cheios de colagénio. As duas lindas criaturas só existem porque houve uma paixão única entre os dois criadores. Tenho saudades de viajarmos só os dois, de conversarmos sobre coisas interessantes sem sermos interrompidos a cada minuto. Como a maioria das famílias imigrantes, não temos retaguarda familiar. Não há uma tia que leve o menino para aqui nem uma avó que carregue a menina para acolá. Não temos dinheiro para babysitters. Somos só nos os quatro, o tempo todo. Isto une muito a família neurodiversa mas também esbate a fotografia do casal de namorados que um dia fomos.

A segunda coisa de que tenho saudade é ler em silêncio. Sou uma leitora compulsiva e a maternidade tende a roubar a nossa identidade leitora. Quem não vive sem ler, como eu, continuará a fazê-lo - mas será uma leitura fragmentada, sem apontamentos e com menor possibilidade de diálogo com outros textos que arquivamos mentalmente. Eu lamento porque ser leitora é algo que me define.

 

 

O que mudou em ti com a maternidade?

 

Acho que me tornei uma pessoa mais dadivosa e atenta ao outro, tanto na esfera familiar como na social. Quando a minha filha nasceu, costumava dizer que havia conhecido um novo tipo de amor. Perdi a vida social e as noites ininterruptas de sono. E lidei bem com isso. Incrível como vamos buscar energia a depósitos que desconhecíamos. Tive sorte também: a gravidez foi calma, a amamentação prazenteira e a minha mãe esteve presente para ajudar. O mesmo valeu para o segundo filho. Amor incondicional, capacidade de doação e uma satisfação dos diabos de ter construído uma família tão bonita com o homem que amo. Tudo perfeito? Claro que não. No meu caso, o cansaço recaiu sobre os meus ombros lentamente, numa lógica de efeito cumulativo. Quanto mais me foi pedido, mais eu dava. Houve sucessivas mudanças internacionais, houve sacrifícios profissionais e, por fim, após uma longa saga de consultório em consultório, houve o diagnóstico de autismo. Após a surpresa inicial, seguidas das etapas comuns de negação e aceitação, percebi que a minha capacidade de empatia aumentou. Quando penso hoje em tolerância e inclusão, não penso em crianças autistas. Penso em todas as minorias: idosos, mulheres, mães solteiras, negros, pessoas com deficiência e membros da comunidade LGBT. Estar em minoria, neste caso, não é estar em menor número, matematicamente falando. É estar numa posição vulnerável na teia de relações de poder numa sociedade. Ser mãe colocou-me mais perto deste espaço de vulnerabilidade e estou grata por isso.

 

 

És a mãe que imaginaste?

 

Não. A maternidade é quase sempre idealizada, e o cenário mental que construímos raramente inclui uma criança diferente ou com algum tipo de deficiência. Mas recuemos um pouco. Eu fui mãe duas vezes. A minha primeira experiência como mãe foi comum. Tive uma menina com desenvolvimento típico. Tudo correu linda e tranquilamente porque eu não tinha planos de ser uma mãe perfeita. Acertei numas coisas, falhei noutras. Não ter grandes expectativas torna tudo mais fácil. Com o diagnóstico de autismo do meu segundo filho, contudo, veio a sensação de perda do filho idealizado (e da maternidade imaginada, por extensão). Não resisto a citar novamente o livro da Ana Nunes, leitura obrigatória para todas as mães de crianças com deficiência:

"Neste processo de elaborar o luto, lamentamos não apenas a perda do filho imaginado, mas também a perda do pertencimento a uma comunidade maioritária, à comunidade dos sem-deficiência. Ser pai de uma criança com deficiência é assumir uma nova identidade. É passar a fazer parte de uma minoria. É ter de se adaptar aos desafios e ao preconceito. É ter de lutar por inclusão, porque não fazemos mais parte do grupo privilegiado a quem certos direitos são concedidos sem luta. O luto pela deficiência não é motivado apenas pela perda do filho idealizado, mas pela perda do privilégio de pertencer a um grupo hegemónico."

Por tudo isso, não, eu não sou a mãe que imaginei. Sou muito melhor, sou muito mais humana e combativa do que alguma vez sonhei.

 

 

Que conselho darias a alguém que está a pensar em ser mãe?

 

Uma das coisas chatas da maternidade são os conselhos não solicitados. Cada experiência parental é inexoravelmente pessoal (por exemplo: uma pessoa que dispõe de ajuda doméstica, prestada por profissionais ou familiares, achará talvez tudo muito mais fácil do que uma mãe solteira sem apoios). Daí a dificuldade de dar palpites tipo "tamanho único". Evito ceder à tentação de dar conselhos. A menos que mos peçam, claro está, e para o efeito a caixa de correio estará sempre à disposição.

 

Aqui podem saber mais sobre A Família Neurodiversa e este texto ajuda-vos a compreender a ideia de neurodiversidade. E não deixem de ler A Carta de Beirute da Ana Nunes.

28
Ago18

Dedicado às mães que estão de licença de maternidade

Susana

Há três anos estava de licença de maternidade do meu filho mais novo e como todas as mães que estão de licença de maternidade acordava com o sol a entrar pela janela, os passarinhos a chilrear lá fora e os sorrisos doces de um bebé pequenino. Dava-lhe de mamar, mudava-lhe a fralda, o bebé arrotava e voltava a dormir e eu aproveitava para tomar banho, lavar os dentes, passar um creme na cara e no corpo. Sentava-me à mesa posta com uma toalha imaculadamente branca, bebia um sumo com laranjas acabadas de espremer, enquanto me deliciava com uma fatia de bolo que tinha feito no dia anterior. Levantava a mesa, lavava a loiça, o bebé acordava, voltava a dar-lhe de mamar, mudava-lhe a fralda, dava-lhe banho e íamos dar um passeio pelas ruas da cidade. De tarde, o bebé dormia longas sestas e eu aproveitava para dormitar no sofá, ler um livro ou ver a minha série preferida na televisão. O bebé acordava, mamava e ficávamos como dois apaixonados a babar um pelo outro e a jurar amor eterno. À hora que o pai chegava a casa o jantar já estava feito, a mesa posta, havia pão fresco e uma variedade incrível de fruta comprada no mercado.

 

Só que não.

 

Há três anos estava de licença de maternidade do meu filho mais novo e as noites eram passadas a dar mama de duas em duas horas, acordava enremelada e a amaldiçoar a sorte dos homens em não amamentarem, lavava a cara a correr, enquanto o miúdo gritava que queria mamar e que tinha a fralda suja, metia a mama de fora, foda-se, estamos sempre com a mama de fora, mudava-lhe a fralda, fazia um esforço hercúleo para o adormecer, o raio do miúdo nunca gostou de dormir, bebia um café a correr e comia uma torrada com pão do dia anterior, despachava a mais velha entre birras e questões existenciais, ia levá-la à escola, passava no supermercado bem a tempo do miúdo acordar impaciente para mamar, chegava a casa, dava-lhe de mamar, mudava-lhe a fralda, mais uma maratona para o adormecer, arrumava as compras, fazia as camas, lavava a loiça do pequeno-almoço, metia roupa a lavar, o miúdo acordava, dava-lhe banho, de mamar, mudava-lhe a fralda outra vez, aproveitava que o miúdo estava acordado para aspirar e lavar o chão, fingia que almoçava qualquer coisa quase sempre pouco saudável, voltava a dar-lhe de mamar e a mudar-lhe a fralda, o miúdo adormecia desta vez sem esforço, eu estendia a roupa que estava à minha espera na máquina, metia mais roupa a lavar, tirava alguma coisa do congelador para o jantar, lembrava-me que ainda não tinha lavado os dentes, o miúdo acordava, voltava a dar-lhe de mamar e a mudar-lhe as fraldas mais cagadas que já vi na vida e quando dava por isso já era horas de ir buscar a mais velha à escola e eu ainda não tinha tomado banho, voltava para casa com os dois quando o mais novo já queria mamar outra vez, dava-lhe mama, mudava-lhe a fralda, metia-o na espreguiçadeira e aproveitava para dar banho à mais velha, sentava-me cinco segundos com eles no chão a brincar até me lembrar que ainda não tinha começado a fazer o jantar, que não tinha comprado fruta e que o pão não chegava para o pequeno-almoço do dia seguinte,  o pai chegava, o jantar ainda estava a meio, a mesa não estava posta e eu gritava foda-se vou finalmente tomar banho!

 

Estar de licença de maternidade é passar o dia com a mama de fora, a mudar fraldas, a desejar que os miúdos durmam para estendermos roupa e que acordem para aspirarmos o chão, é lavarmos os dentes a meio da tarde e tomarmos banho quando o pai chega a casa. Quando alguém vos disser para aproveitarem a de licença de maternidade para descansar sintam-se à vontade para mandar essa pessoa à merda. 

 

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16
Ago18

Stop Body Shaming

Susana

Quando eu tinha vinte e poucos anos pesava sessenta quilos, tinha um longo cabelo liso, não tinha barriga, usava um piercing no umbigo, tinha a confiança de uma anémona e dizia que a única coisa que gostava em mim era das pestanas. 

 
Hoje tenho trinta e nove anos, peso a mais, tenho olheiras, cabelos brancos, sardas como nunca, manchas na testa, uso óculos e aparelho nos dentes, tenho mais mamas do que gostaria e a gravidade não foi minha amiga, tenho estrias, derrames e varizes nas pernas, os meus braços há muito que ganharam flacidez, tenho barriga, um rabo grande, celulite, coxas largas e porra, nunca gostei tanto de mim. 
 
O meu corpo não é perfeito, mas é o meu e aprendi a olhar para mim para lá do corpo. Vejo a mulher, a personalidade, a confiança e a força, o mau feitio e o sentido de humor. Ainda vejo o corpo com todos os seus defeitos, mas vejo-o através dos meus olhos e não através dos olhos dos outros. E aceito-o.
 
A aceitação começa em nós. Se o fizermos dificilmente cedemos ao que os outros esperam de nós, ao que a sociedade diz que é bonito ou perfeito. A sociedade que se foda. 
 
É um lugar comum, mas não adianta ter um pacote do tamanho perfeito, embrulhado com um papel bonito e com um laço espetado, se lá dentro não está merda nenhuma. 
 
#stopbodyshaming
 
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13
Ago18

Parir é parir

Susana

- Os meus filhos nasceram de cesariana. 

- Isso é mais fácil, não é? 

 

- O meu filho nasceu de parto natural e recusei levar epidural. 

- És corajosa!

 

Foda-se, corajosas foram as nossas avós que, quase sempre sem alternativa, pariram em casa. Corajosa foi a minha avó que teve treze filhos e quase todos nasceram em casa, sabe Deus e a sorte como. Nós somos só parvas que, a dada altura, cansadas de ter acesso aos melhores cuidados de saúde, resolvemos entrar no campeonato do sofrimento e do sacrifício, como se no final do dia isso fizesse de nós melhores mães. E adivinhem? Não faz. Impressionante, não é? 

 

Não sei em que momento as mães se deixaram levar para dentro deste campeonato, mas não foi numa hora muito inteligente. Uma mulher engravida, se tudo correr bem a criança passa nove meses dentro da nossa barriga e quando chega a hora, que se quer pequenina, a única coisa que realmente importa é que a criança nasça da forma mais segura possível para ela e para a mãe. Não me parece muito difícil de entender, não me parece minimamente razoável que disto se faça um pódio e matéria prima para se foder a cabeça umas às outras. 

 

Há muitas maneiras de parir: parto natural, com ou sem epidural, de cesariana, dentro de água, em casa e há quem nasça em ambulâncias e até aviões. Há partos mais fáceis, partos mais difíceis, há partos com muito ou pouco sofrimento e nenhum confere às mulheres uma medalha de bom comportamento. Há quem chore, quem grite, quem implore pela epidural, quem não tenha tempo para a levar e quem a recuse, há quem passe vinte e quatro horas em trabalho de parto, há quem chegue ao hospital com a criança prestes a nascer, há quem tenha o parto que planeou e há quem se veja a caminho de uma cesariana de emergência. 

 

Chamamos corajosa a quem opta pela dor e chamamos maluco a alguém que pede para lhe arrancarem um dente sem anestesia. A mim nada me parece mais estúpido que recusar aquilo que a ciência nos trouxe, menos sofrimento, melhores cuidados de saúde e mais segurança a troco de uma superioridade moral que interessa muito pouco. Mas, cada uma faz as suas escolhas, segue satisfeita consigo e, se não foder a cabeça a ninguém, continuamos amigas como antes.

 

Nenhuma escolha relacionada com o parto faz de umas corajosas e de outras fracas, porque a verdade é que cada uma fez aquilo que foi necessário para os ter ali. Naquele momento mágico em que nascemos outra vez e começa esta louca viagem pela maternidade, não precisamos que nos fodam a cabeça com campeonatos, pódios e medalhas. A única medalha que nos deve realmente importar está nos nossos braços. 

 

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06
Jul18

Férias com filhos: expectativa vs realidade

Susana

Como eu queria (e merecia, porra) que fossem as minhas férias

 

Não ter hora para acordar, uma praia paradisíaca com areia branca e água quente, o sol a queimar-me a pele, almoços com vista para o mar, uma pulseira de livre-trânsito para o bar no pulso e um cubano a servir-me daiquiris, massagens relaxantes no spa do hotel, jantares demorados, mergulhos na piscina fora de horas e sexo sem hora marcada, muito sexo.

 

Como vão ser as minhas férias

 

Os miúdos vão acordar antes das sete da manhã, eu e o meu marido vamos ver quem finge durante mais tempo que não os está a ouvir, não evitando o inevitável, levantamo-nos da cama, tomamos o pequeno-almoço, vestimos os fatos de banho, metemos protetor solar, agarramos em dois chapéus-de-sol e chegamos à praia quando ainda está aquele friozinho da madrugada, estendemos as toalhas, despimos os miúdos que vão gritar que está frio (eu não tinha reparado) enfiamos os chapéus naquelas cabeças e gritamos dezenas de vezes para que não os tirem, vamos estar em alerta constante para eles não correrem para a água sozinhos e para não falarem com desconhecidos, não nos podemos esquecer de reforçar o protetor solar enquanto os miúdos esperneiam que querem ir encher outra vez o balde com água e assim que começa a ficar aquele calor capaz de nos tirar a cor de lixívia das pernas, temos que pegar nas toalhas onde não sentámos o rabo, nos baldes e pás e ancinhos e o diabo que eles quiseram levar para a praia e regressar a casa a tempo de aturar várias birras de sono. Um faz o almoço, o outro dá os banhos, pomos a mesa, almoçamos com as birras a atingir o auge do cansaço e tiramos à sorte quem se vai deitar com eles a dormir a sesta até chegar a hora em que o sol já não queima para irmos para a praia outra vez, chegada a hora lanchamos, vestimos os fatos de banho, metemos protetor solar sabe Deus porquê, que a esta hora o sol já nem cócegas faz, pegamos num chapéu-de-sol e lá vamos nós, chegamos à praia cheia de miúdos a correr por todo o lado, encontramos por milagre um espaço para estender as toalhas, despimos os miúdos, enfiamos os chapéus naquelas cabeças e gritamos dezenas de vezes para que não os tirem (onde é que eu já li isto?), vamos estar em alerta constante para eles não correrem para a água sozinhos e para não falarem com desconhecidos, vamos estar de rabo para o ar a fazer piscinas à beira mar e com sorte damos um mergulho ou dois, quando até estamos a gostar de estar ali os miúdos vão estar a arrastar-se de sono e pegamos nas toalhas onde não nos deitámos a ler um livro, nas bolas, baldes, conchas e quilos de areia e regressamos a casa para mais um dose de banhos, birras e o Deus nos ajude do costume, jantamos, adormecemos os miúdos e com sorte vamos sentar-nos no terraço a beber uma bebida qualquer que comprámos no supermercado porque não, não temos um cubano a servir-nos daiquiris, enquanto deitamos conversa fora até admitirmos que estamos exaustos e irmos dormir sem termos sexo.

 

Faltam quinze dias para as minhas férias. Sim, estou a contar? Porquê? Porque sou parva, os pais não têm férias. A única diferença entre as férias e os dias normais é que aturamos os miúdos num lugar diferente.

 

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02
Jul18

A mãe está cansada

Susana

A mãe está cansada. As mães estão sempre cansadas. É normal, faz parte, dizem-nos. Ignora-se o cansaço da mãe, porque é normal, faz parte. É preciso aguentar, já se sabe como é, um dia melhora. Até que a mãe não aguenta, não melhora e não percebem porquê. As mães estão sempre cansadas, é normal, faz parte, porque raio ela não aguentou?

 
Um destes dias, numa consulta com o meu filho, conversava com o meu médico de família sobre o cansaço, o meu cansaço. Tem sido um ano filho da mãe. O meu médico sabe, vemo-nos com muita frequência, infelizmente. 
 
- Já sabe mãe, faz parte. 
 
Eu que já não sou a Susana, sou a mãe, deveria saber que faz parte. O cansaço, a exaustão, o sono constante, os braços que carregam colos e as costas que teimam em doer, o cérebro que não quer funcionar e o stress acumulado faz parte. Embrulha o pacote e aceita como um presente da vida. Filhos e cansaço de mãos dadas. 
 
Já tive várias conversas destas com médicos, amigas, com a minha mãe, com desconhecidas e o cansaço faz sempre parte. Ponto final nesta conversa. 
 
As mães trabalham fora de casa e dentro de casa, regra geral muito mais horas que os homens, as mães guardam para si a tarefa de cuidar dos filhos quando estão doentes, da lida da casa que nunca acaba, da roupa que parece procriar no cesto da roupa suja, das compras que alimentam a família, que acodem a todos os gritos pela "Mãe!", consomem-se em mil e uma birras por mil um motivos, são saco de pancada dos filhos e as mães não podem dizer um ai, não podem dizer que estão cansadas, esgotadas, porque faz parte.
 
Calem-se! 
 
As mães sabem que faz parte, mas é imperativo que em vez do óbvio nos digam o que podem fazer para nos ajudar, do que precisamos, que nos digam para não nos esquecermos de nós, que cinco minutos sentadas no sofá não conta como descanso, que precisamos de existir e de vez em quando mandar tudo mais alto que as estrelas e gritar:
 
- Eu não sou só a mãe, o meu nome é Susana.
 
(Os pais também estão cansados, o meu marido está tão exausto como eu, somos uma equipa e nem consigo imaginar o cansaço de quem não funciona em equipa, mas como em tudo, falo por mim, pelas mães, os pais que comecem a escrever e a falar sobre isto, gritem ao mundo que também fazem parte desta loucura de ter filhos.)
 
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02
Jul18

Não, eu não educo os meus filhos para o feminismo.

Susana

“- Mãe, estás a fazer o jantar porquê? É o pai que costuma fazer o jantar.”

 

Quando alguém diz que os rapazes devem ser educados para o feminismo eu hesito entre bater com a cabeça na parede ou respirar fundo e perguntar como é que funcionam as coisas lá em casa.

 

Eu explico, sou mãe de um rapaz e de uma rapariga e ambos recebem a mesma educação e o mesmo exemplo. E o exemplo começa pela igualdade e o respeito entre o pai e a mãe. Em nossa casa o aspirador e o pano do pó não são propriedade da mãe, o pai lava a loiça, faz o jantar, vai às compras, leva os miúdos à escola e ao médico e trabalha, como a mãe. Não existem tarefas da mãe e tarefas do pai. Não existe a figura autoritária do pai e a figura permissiva da mãe. Não existem ameaças físicas nem psicológicas, não existe violência física nem verbal. Nunca é demais lembrar que filhos que crescem em ambientes abusivos têm grande probabilidade de se tornarem adultos agressores.

 

As crianças são esponjas e o respeito pelos outros e por si mesmas ensina-se pelo exemplo, por terem uma mãe que trabalha, que é independente, que se respeita e é respeitada e por terem um pai que se rege pelos mesmos princípios.

 

Recuso-me a educar o meu filho como futuro agressor e a minha filha como futura vítima.

 

Eu educo-os para serem corajosos, independentes, honestos e para que se respeitem e respeitem os outros. E estes não são princípios exclusivos do feminismo, são pilares básicos para uma sã convivência em sociedade, sem discriminações ou abusos de qualquer género.

 

Hoje são crianças de três e cinco anos, cujas questões nos aparecem na medida da idade que têm. Outras irão surgir com o tempo, como o valor do seu corpo, a não discriminação das mulheres no local de trabalho, a violência, o assédio, mas se as bases estiverem lá tenho esperança de que se irão tornar em adultos responsáveis e respeitadores dos outros. E a esperança também entra nestas contas. Os pais fazem a sua parte, esforçam-se para serem um bom exemplo, com ações e não apenas com palavras, e o resultado será uma mistura desse exemplo, da personalidade dos filhos e de uma boa dose de sorte.

 

Por isso, não, não educo os meus filhos para o feminismo. Educo-os para o humanismo.

 

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21
Jun18

A maternidade e um dos seus maiores flagelos

Susana

Um dos grandes flagelos da maternidade são as comparações. Todas o fazemos. As mães, em algum momento, já compararam os filhos com os filhos das amigas, com os filhos das desconhecidas e até entre irmãos. Eu já o fiz e enchi-me de bofetadas.

 

O meu filho começou a falar tarde, seja isso o que for, ao contrário da irmã que começou cedo a ser uma tagarela, ele dizia poucas palavras, as que dizia era mal pronunciadas e não fazia frases simples como “Eu quero água.” Quando dei por mim estava a verbalizar que a irmã com a mesma idade já falava muito mais, já construía frases e já espetava o dedo para ralhar comigo e com o pai. Porque é que o miúdo não fala?

 

Pausa para uma bofetada. 

 

Respirei fundo. Olhei para um miúdo que compreendia tudo o que lhe era dito e voltei calmamente ao meu mantra de que cada criança tem o seu ritmo. Para tudo. Para começar a gatinhar, para começar a andar, para falar, para deixar as fraldas. Porra, até eu que dizia que o meu filho ia usar fraldas até à faculdade sei que isso não ia acontecer, no máximo usaria fraldas até ao secundário. 

 

As comparações são normais, a competição entre mães é que já não é normal e sinal de uma patologia grave. Pouco importa se os miúdos começaram a andar com doze ou com dezoito meses, esta merda não é uma corrida de bebés para ver quem chega em primeiro. Os meus filhos começaram os dois a andar tarde, que é como quem diz depois dos doze meses, ela aos quinze e ele aos dezassete, ambos tinham um perfeito gatinhar de rabo que nos fazia rir à gargalhada e uma preguiça monumental para se meterem de pé e são incontáveis as vezes que me perguntaram:

 

- Então, já anda?

 

Foda-se, sim, já anda ao colo, respondi eu milhares de vezes. O que raio importa? Hoje os dois andam, correm, saltam. O que interessa a esta distância com que meses começaram a andar? Os miúdos que começam a andar cedo andam melhor? Não, porra, todos andam, ponto. Nós fodemos a cabeça uns aos outros com merdas que não lembram a ninguém.

 

E os dentes? Com que idade nasceu o primeiro dente dos meus filhos? Não sei, juro. Acho que a minha filha teve o primeiro dente aos sete meses e o meu filho não faço ideia, sim, eu sou essa mãe que não aponta nada, não tem um diário dos miúdos, nem o raio que o valha, mas estou a olhar para os dois agora e a ver duas bocas cheias de dentes. No final é o que importa certo?  Já perceberam o que eu quero dizer. Comparamos, competimos, lixamos a cabeça uns aos outros, quando os miúdos estão no ritmo deles, bem se cagando para as nossas questões menores. Os miúdos não querem saber com quantos meses lhes nasceu o primeiro dente, eles vão mastigar tão bem como os outros e morder os outros miúdos quando for caso disso, nem eles querem saber, nem ninguém quer saber, na verdade, ninguém quer saber por saber.

 

Só vocês e o pai e os avós e os tios e os primos, na melhor das hipóteses, todos os outros, as amigas, as colegas de trabalho, as vizinhas, aquela mãe no centro de saúde, só querem saber para verem se os filhos deles estão em primeiro lugar no pódio do concurso do bebé a quem nasceu os dentes mais cedo, arrecadar a medalha e ir para casa para a pendurar na parede ao lado do diploma da mãe perfeita.

 

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