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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

06
Set18

Breve inquérito a mães normais (10)

Susana

Há algum tempo que não fazia os breves inquéritos a mães normais, falta de tempo, sono e alguma preguiça, mas eles voltaram e para (re)começar desafiei a mãe do blogue A Família Neurodiversa a responder e pedi-lhe para escrever muito, para usar este espaço como se fosse dela. E porquê? Porque é preciso desmistificar a diferença, precisamos de aprender a olhar para o outro com empatia, não com pena ou lugares comuns, precisamos de olhar para o outro, ver as diferenças que existem e aceitá-las. E se não falarmos muito sobre isso, se escondermos, a aceitação nunca vai acontecer. A mãe da Família Neurodiversa escreve com uma lucidez que nos arrasa ao mesmo tempo que nos ensina a sermos mais humanos. Obrigada mais uma vez querida D. Leiam, leiam mesmo, vale cada segundo do vosso tempo.

 

 

Chamo-me D. e tenho dois filhos: um menino autista e uma menina neurotípica. Criei o blogue A Família Neurodiversa para poder registar algumas das minhas experiências como mãe de uma criança com autismo em terra estrangeira. Vivemos num duplo exílio porque somos uma família atípica num país que não é o nosso. Todos os dias, tentamos aprender como apoiar um menino de três anos cujo cérebro funciona de forma admiravelmente diversa (daí o termo "neurodiversidade"). Ao mesmo tempo, esforçamo-nos diariamente para compreender melhor as regras gramaticais, sociais, fiscais e laborais do país que escolhemos para viver. Em certa medida, a nossa experiência como adultos é análoga à do nosso filho: estamos a tentar funcionar num mundo que não foi desenhado à nossa medida.

 

A Família Neurodiversa prefere o anonimato, pelo menos para já, porque quer oferecer um relato sincero sobre a maternidade atípica. Ainda tenho dúvidas sobre partilhar a identidade ou imagem dos meus filhos; temo que isso me leve a omitir episódios embaraçantes e pensamentos politicamente incorrectos. Creio que correria o risco de cair na armadilha dos blogues açucarados, nos quais as crianças são princesas com laçarotes e as mamãs heroínas incansáveis. Que fique claro desde já: eu não sou santa e os meus filhos não são anjos. Temos acessos de amor, cólera, cansaço, compaixão e gula. Por favor, não nos roubem a humanidade. A maternidade atípica cansa, como todas as maternidades. É por vezes extenuante. Tem no cardápio crises em espaços públicos, dificuldades alimentares, e episódios de discriminação protagonizados por quem deveria proteger os nossos filhos (directores de creches, por exemplo). Se for para falar desta viagem única, que seja com um discurso franco, e sempre que possível bem-humorado, para que não se corrobore narrativas irreais e culpabilizantes sobre a parentalidade.

Como diz a brasileira Ana Nunes no fabuloso livro "Cartas de Beirute", é preciso escrever não só para que as pessoas que não têm filhos com deficiência "consigam desenvolver mais empatia", mas sobretudo para alcançar outros pais com crianças atípicas. Aprecio muitíssimo este sentido de irmandade através da escrita. Abre-se assim a possibilidade de partilha de experiências na certeza de que não estamos sozinhos, de que ser pai e mãe é exigente mesmo (ser humano já é um desafio enorme, como é que gerar e criar outra criatura haveria de ser fácil?) e que está tudo bem se, por vezes, sentarmos no chão a chorar. Acontece. Isto não é desistir nem falhar, é descomprimir para poder continuar. Pai e mãe tem direito a parar e cuidar de si próprio. O melhor cuidador é aquele que cuida de si mesmo para cuidar melhor dos outros.

 

 

Qual a coisa de que tens mais saudades de fazer desde que és mãe?

 

Não consigo escolher só uma. Há duas.

A primeira é namorar com o meu marido. Não parece, mas já fomos jovens e cheios de colagénio. As duas lindas criaturas só existem porque houve uma paixão única entre os dois criadores. Tenho saudades de viajarmos só os dois, de conversarmos sobre coisas interessantes sem sermos interrompidos a cada minuto. Como a maioria das famílias imigrantes, não temos retaguarda familiar. Não há uma tia que leve o menino para aqui nem uma avó que carregue a menina para acolá. Não temos dinheiro para babysitters. Somos só nos os quatro, o tempo todo. Isto une muito a família neurodiversa mas também esbate a fotografia do casal de namorados que um dia fomos.

A segunda coisa de que tenho saudade é ler em silêncio. Sou uma leitora compulsiva e a maternidade tende a roubar a nossa identidade leitora. Quem não vive sem ler, como eu, continuará a fazê-lo - mas será uma leitura fragmentada, sem apontamentos e com menor possibilidade de diálogo com outros textos que arquivamos mentalmente. Eu lamento porque ser leitora é algo que me define.

 

 

O que mudou em ti com a maternidade?

 

Acho que me tornei uma pessoa mais dadivosa e atenta ao outro, tanto na esfera familiar como na social. Quando a minha filha nasceu, costumava dizer que havia conhecido um novo tipo de amor. Perdi a vida social e as noites ininterruptas de sono. E lidei bem com isso. Incrível como vamos buscar energia a depósitos que desconhecíamos. Tive sorte também: a gravidez foi calma, a amamentação prazenteira e a minha mãe esteve presente para ajudar. O mesmo valeu para o segundo filho. Amor incondicional, capacidade de doação e uma satisfação dos diabos de ter construído uma família tão bonita com o homem que amo. Tudo perfeito? Claro que não. No meu caso, o cansaço recaiu sobre os meus ombros lentamente, numa lógica de efeito cumulativo. Quanto mais me foi pedido, mais eu dava. Houve sucessivas mudanças internacionais, houve sacrifícios profissionais e, por fim, após uma longa saga de consultório em consultório, houve o diagnóstico de autismo. Após a surpresa inicial, seguidas das etapas comuns de negação e aceitação, percebi que a minha capacidade de empatia aumentou. Quando penso hoje em tolerância e inclusão, não penso em crianças autistas. Penso em todas as minorias: idosos, mulheres, mães solteiras, negros, pessoas com deficiência e membros da comunidade LGBT. Estar em minoria, neste caso, não é estar em menor número, matematicamente falando. É estar numa posição vulnerável na teia de relações de poder numa sociedade. Ser mãe colocou-me mais perto deste espaço de vulnerabilidade e estou grata por isso.

 

 

És a mãe que imaginaste?

 

Não. A maternidade é quase sempre idealizada, e o cenário mental que construímos raramente inclui uma criança diferente ou com algum tipo de deficiência. Mas recuemos um pouco. Eu fui mãe duas vezes. A minha primeira experiência como mãe foi comum. Tive uma menina com desenvolvimento típico. Tudo correu linda e tranquilamente porque eu não tinha planos de ser uma mãe perfeita. Acertei numas coisas, falhei noutras. Não ter grandes expectativas torna tudo mais fácil. Com o diagnóstico de autismo do meu segundo filho, contudo, veio a sensação de perda do filho idealizado (e da maternidade imaginada, por extensão). Não resisto a citar novamente o livro da Ana Nunes, leitura obrigatória para todas as mães de crianças com deficiência:

"Neste processo de elaborar o luto, lamentamos não apenas a perda do filho imaginado, mas também a perda do pertencimento a uma comunidade maioritária, à comunidade dos sem-deficiência. Ser pai de uma criança com deficiência é assumir uma nova identidade. É passar a fazer parte de uma minoria. É ter de se adaptar aos desafios e ao preconceito. É ter de lutar por inclusão, porque não fazemos mais parte do grupo privilegiado a quem certos direitos são concedidos sem luta. O luto pela deficiência não é motivado apenas pela perda do filho idealizado, mas pela perda do privilégio de pertencer a um grupo hegemónico."

Por tudo isso, não, eu não sou a mãe que imaginei. Sou muito melhor, sou muito mais humana e combativa do que alguma vez sonhei.

 

 

Que conselho darias a alguém que está a pensar em ser mãe?

 

Uma das coisas chatas da maternidade são os conselhos não solicitados. Cada experiência parental é inexoravelmente pessoal (por exemplo: uma pessoa que dispõe de ajuda doméstica, prestada por profissionais ou familiares, achará talvez tudo muito mais fácil do que uma mãe solteira sem apoios). Daí a dificuldade de dar palpites tipo "tamanho único". Evito ceder à tentação de dar conselhos. A menos que mos peçam, claro está, e para o efeito a caixa de correio estará sempre à disposição.

 

Aqui podem saber mais sobre A Família Neurodiversa e este texto ajuda-vos a compreender a ideia de neurodiversidade. E não deixem de ler A Carta de Beirute da Ana Nunes.

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