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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

08
Fev18

Detesto o Carnaval

Susana

Não sei que idade tinha, uns sete ou oito anos talvez, porque já andava na escola primária. Pedi à minha mãe para me mascarar e a única máscara que arranjou foi uma de criada que alguém lhe emprestou. Coitada da criança que a vestiu antes de mim. A máscara era ho-rro-ro-sa. Um vestido curto preto, um avental branco com folhos e uma espécie de espanador. Se os meus pais fossem ricos, eu devia ter feito terapia depois desse Carnaval. Não fiz.

 

Adiante, vou para a escola com a máscara mais feia de sempre e dou de caras com a minha arqui-inimiga. A estúpida também se chamava Susana, era loirinha, de olhos azuis (não é sempre assim?), boa aluna como eu, queridinha da professora, nova riquinha dos subúrbios, sonsa como tudo. Lá estava ela, no recreio da escola, com a sua máscara espampanante de dama antiga. Caraças, fecho os olhos e ainda a vejo naquele vestido lindíssimo cor-de-rosa, com direito a peruca loira com canudos, maquilhagem, sapatos de salto e uma bolsa com brilhantes. Eu nem pintada estava. Ela estava giríssima e eu era literalmente a criada.

 

Apeteceu-me dar-lhe com o espanador na cabeça, mas nessa idade eu era uma espécie de mosca morta e contentei-me por ficar a chorar a um canto. Devo estar a exagerar, porque não me lembro de ter ficado a chorar a um canto, mas um bocadinho de drama fica sempre bem.

 

É só uma história que ajuda a explicar porque detesto o Carnaval. Não sei o que é feito dessa Susana, nem o que ela pensou desse Carnaval. Se estava feliz, se era feliz, se tinha a noção de que era a miúda rica das vivendas, em oposição aos muitos miúdos pobres do bairro. Não importa, essa miúda já não existe. Depois disso não me voltei a mascarar.

 

Hoje, tantos anos depois, com dois filhos que, ao contrário de mim, adoram o Carnaval, sou aquela mãe com ar tresloucado que deixa tudo para os últimos dias e que tenta a todo o custo encontrar uma capa de super-heroína para completar a máscara da filha.

 

Os filhos amolecem-nos e não há ódio de estimação que sobreviva.

 

Texto em parceria com a Up to Kids.

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