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Ser super mãe é uma treta

Ser super mãe é uma treta

09
Out18

Não importa quando foi

Susana

Há quem diga que se ama um filho assim que sabemos que estamos grávidas, eu digo que não, que é mentira, o que amamos é a ideia abstrata de um filho, a ideia de sermos mães.

 

Eu não amei os meus filhos ao primeiro olhar, nem ao segundo, nem ao terceiro, nem sei precisar o momento exato em que os comecei a amar.

 

Ao primeiro olhar, acabados de sair da minha barriga, vi-os roxos, com restos de mim e com um cordão umbilical ainda por cortar, perguntei-me se aquilo que me parecia um filme estava mesmo a acontecer, fechei os olhos e voltei a deitar a cabeça. Ao segundo olhar, depois de os ouvir chorar ao longe, trouxeram-nos até mim, enquanto os médicos costuravam o corpo que já lhes tinha servido de casa, beijei-lhes a testa e pedi que os fossem mostrar ao pai. Ao terceiro olhar, no recobro, deitaram-nos ao meu lado e eu percebi que estava presa dentro de um filme e ninguém me tinha dado o argumento. 

 

Em nenhum destes olhares senti amor. Senti estranheza e medo. Os meus filhos nasceram e com eles nasceu a mãe e a mãe ama. Mas, amar? Amar como se acabei de os conhecer? E logo ali senti-me culpada por não sentir o que diziam que devia sentir, senti-me esmagada pelo peso das expectativas dos outros. Peguei neles, cheirei-lhes os cabelos vezes sem conta, beijei-lhes as mãos pequeninas e a testa, aconcheguei-os no meu peito, decorei-lhes as linhas do rosto e nada. Estranheza e medo. Conversei com eles, talvez o amor de mãe fosse assim, mais medo que coração acelerado, mais culpa que amor, pedi-lhe desculpa, alimentei-os, dei-lhes banho, vesti-os e mudei-lhes as fraldas, cantei-lhes canções de embalar, adormeci-os no meu colo e num dia qualquer, no meio da confusão dos dias que mudaram para sempre, houve um momento em que o meu coração bateu mais forte e rebentou-me o peito. No meu peito ficou um buraco e o meu coração ficou exposto. À mostra. E assim ficará, como naquele lugar-comum, que diz que os filhos são um coração a bater fora do peito.

 

Não importa quando foi. 

 

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